Tim Vickery: O que o West Ham tem a ensinar para as torcidas dos grandes times brasileiros
Uma volta ao passado do clube inglês para controlar as expectativas do presente de clubes brasileiros
Vaias das arquibancadas, emboscadas no aeroporto, invasões ao centro de treinamento — o futebol brasileiro parece uma máquina de gerar insatisfação da torcida. Por que? Acho que a explicação é fácil: tem muitos clubes que caem no que eu chamo de “armadilha West Ham”.
Vou explicando. Vamos voltar para 1965. O West Ham ganha a Recopa Europeia, vencendo o Munique 1860 por 2 a 0. Assistindo à partida hoje, ainda parece moderno. O jogo de West Ham tem fluidez e dinamismo. O técnico Ron Greenwood faz parte de uma nova geração de pensadores e ajuda a desenvolver Bobby Moore, Martin Peters e Geoff Hurst, todos fundamentais um ano mais tarde quando a seleção inglesa ganharia a Copa do Mundo.
A torcida do West Ham sempre teve um gosto por futebol refinado, mas agora está no auge. O clube ganha o apelido de Academia, e parece destinado a ser uma força poderosa durante anos.
Não rola. O que aconteceu? Sem dúvida, faltava ambição. E houve uma quebra na relação entre Greenwood e Moore, técnico e capitão. Moore queria ir embora, mas o clube, dono de seu passe, não o deixou. O West Ham ainda tem lampejos, mas não compete. Vira uma piada — que nem um enfeite de natal, o clube desce na tabela depois de janeiro.

Mas, como uma velha maria-fumaça, o fantasma de grandeza e glória circula dentro da mente do torcedor… Durante os anos 1970 e início de 1980, desfrutava da classe de Trevor Brooking, um meia elegante que deixou Paulo César Caju maravilhado quando o assistiu em 1980. Brooking, como Moore, teve um setor de arquibancada com o seu nome no Upton Park, o velho estádio do clube.
Nove anos atrás, o West Ham largou o estádio, cheio de história e caráter, para se mudar para a arena construída para sediar os Jogos Olímpicos de 2012. Foi uma mudança traumática, suavizada com uma promessa: maior estádio, melhor time. Agora, finalmente, daria para competir com as potências.
Ciclo se repete no West Ham
A torcida está esperando ainda. E está vendo o clube repetir os passos da mesma dança.
Chegou o técnico Manuel Pellegrini, um nome qualificado para criar um time à altura dos sonhos da Academia. Não funcionou e o West Ham se sentiu obrigado a contratar um pragmatista para salvar o clube do rebaixamento. O mesmo ciclo com Julen Lopetegui, também substituído por um pragmatista.
E agora com Graham Potter, mais um especialista em futebol de posse de bola — demitido no sábado, dando lugar para Nuno Espírito Santo, que tem preferência por bloco baixo e contra-ataque. Imagino que vai dar certo. Mas que, no longo prazo, não vai ser suficiente. O torcedor vai continuar sonhando com 1965.
E tudo isso com o Brasil? Fácil explicar. Tem muitos clubes com a sua própria versão de 1965, mas é muito difícil imaginar como todos pudessem desfrutar do ano mágico de novo.
A grandeza dos clubes brasileiros foi construída enquanto o foco do esporte no país ainda era regional. Já passou por nacional, continental até. E acontece que, nesse nível mais elevado, simplesmente não têm títulos suficientes para manter o status de tantos grandes. Daí a frustração, a insatisfação, a raiva. Dói admitir… 1965 pode voltar para alguns, mas não para todos.



