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‘Sou da casa, vou estar à vontade’, afirma Victor Andrade, atacante da Portuguesa, sobre jogo contra o Santos na Vila

Revelado nas categorias de base do Santos, Victor Andrade pisará pela primeira vez na Vila Belmiro como adversário

Formado das categorias de base do Santos e promovido ao elenco profissional em 2012 com apenas 16 anos, Victor Andrade foi por um período uma das principais promessas do Peixe. Para alguns, seria ele o sucessor de Neymar. Atualmente com 28 anos e defendendo a Portuguesa, o atacante se prepara para, às 20h15 (horário de Brasília) deste domingo (17), pisar pela primeira vez na Vila Belmiro como adversário em confronto único e eliminatório das quartas de final do Campeonato Paulista.

Mas antes do duelo, o jogador concedeu uma entrevista para Trivela para falar sobre o início no Alvinegro, a conturbada relação com Muricy Ramalho, treinador que o promoveu, experiências na Europa, retorno ao futebol brasileiro, e lesões, inclusive aquela que o impediu de ir assinar com o Fluminense.

Como tem sido essa experiência de defender a Portuguesa?
Muito bom, é um clube de muita tradição. Logo que eu subi para o profissional, em 2012, cheguei a jogar contra a Portuguesa, aqui no Canindé, e, se não me engano, foi um ou 0 a 0. A gente sabe de toda importância que tem essa camisa, o peso e a tradição que tem esse clube. Então, fico muito feliz de estar fazendo parte desse time que está devolvendo um calendário anual para a Portuguesa, com a possibilidade de disputar uma Série D do Campeonato Brasileiro, além de brigar e conseguir a classificação no Campeonato Paulista.

Muita gente trata a Portuguesa como azarona diante do Santos por conta da diferença na campanha dos dois times. Você concorda com isso?
Acho que não. Penso que os oito times que se classificaram têm chances iguais. É óbvio que a gente não tem que tampar o sol com a peneira. Santos, São Paulo, Corinthians, Palmeiras são os grandes times do Campeonato Paulista e naturalmente todo mundo espera muito mais deles. Principalmente pelo investimento. Mas quando você chega ali nas quartas de finais é 50% de chance para cada lado.

Há quem diga também que a Portuguesa está satisfeita com o que fez no Paulista, pois conseguiu evitar o rebaixamento. Isso é verdade ou o objetivo nunca foi só esse?
Não. O primeiro objetivo da Portuguesa dentro do Campeonato Paulista sempre foi se classificar. Daí em diante, sabendo da nossa realidade, conversando internamente, passamos a traçar novas metas.

Qual é a principal característica da Portuguesa para surpreender o Santos na Vila?
A nossa característica mudou bastante durante o campeonato. Nós tínhamos um estilo de jogo com o Dado Cavalcanti, éramos uma equipe que tinha muita posse de bola, e agora com o professor Pintado temos um jogo de mais de ligação direta. Mas os jogadores estão sabendo de tudo que tem que ser feito dentro de campo. O professor passou bem as características do Santos. A gente estudou legal o time deles, todo mundo assiste aos jogos do Santos, é uma grande equipe e a gente vai tentar colocar o que a gente treinou em prática para conseguir a vitória.

Victor Andrade na Lusa
O atacanre Victor Andrade tem contrato com a Portuguesa até o fim do atual Campeonato Paulista (Foto: Bruno Lima/Trivela)

Essa será a sua primeira vez na Vila Belmiro? Já imaginou como vai ser pisar lá novamente?
O Santos e a Vila Belmiro na minha vida, em termos de futebol , são tudo. Foi onde eu comecei a jogar, onde as portas se abriram para mim e foi o lugar que me deu uma qualidade de vida melhor. Então, serei eternamente grato a esse clube por tudo. Estou muito feliz de estar voltando e tenho certeza que será um grande jogo.

Se marcar um gol, tem comemoração?
Não. Contra o Peixão, não.

Você preferia o jogo na Neo Química Arena ou na Vila Belmiro?
Ah, eu sou da casa, né?! (Risos) Então, no meu caso, está tranquilo jogar na Vila. Vou estar à vontade.

Victor Andrade na Vila pelo Santos
Victor Andrade acredita que jogará à vontade por conhecer bem o estádio da Vila Belmiro, estádio em que jogou no início da carreira (Foto: Icon)

Você foi promovido ao elenco profissional do Santos pelo técnico Muricy, que posteriormente, disse que você tinha muita marra. Como era a sua relação com ele?
Então, o Muricy, às vezes falava algumas coisas para mim e na imprensa falava outras mais atravessadas. Mas foi o treinador que me promoveu, sou muito grato a ele por isso e não tenho nada para falar. Penso que dava para ele tomar cuidado em como abordar determinados assuntos, mas esse sempre foi o jeito dele. Não era algo específico comigo.

Internamente dizem que você se deslumbrou com a exposição de ser um dos mais jovens a chegar no profissional e marcar pelo Santos. Você tinha pouco mais de 16 anos. Isso de fato ocorreu?
É mentira. Tudo conversa de invejoso. Sempre tem esse tipo de situação quando você está se destacando. Mas isso não só no futebol. É em toda profissão. Sempre que você está em um momento de destaque aparece alguém para falar umas besteiras. Depois surgem os momentos bons e está tudo bem. A vida é assim, eu sempre levei isso com muita naturalidade.

Quando o Santos foi para o Mundial de Clubes, em 2011, o Muricy chegou a cogitar levar um menino da base para ganhar experiência e era você, mas desistiu. Vocês conversaram sobre isso na época?
Estou sabendo disso agora, 13 anos depois (Risos). Mas na verdade não sei se seria exatamente eu. Tínhamos muitos garotos bons naquela época.

Naquela época existia muita expectativa sobre você por conta dos gols na base e comparações com Robinho e Neymar. Essas comparações te atrapalharam no Santos?
Muito pelo contrário. É sempre bom você ser comparado com jogador bom. Eu não queria ser comparado com o jogador ruim, mas com Neymar e Robinho podem me comparar a vida toda. Óbvio que isso traz uma cobrança maior, uma visibilidade maior, mas é bom porque muitos jogadores lá queriam ter essa comparação, queriam ter a oportunidade que eu tive. E como eu falei sou muito feliz, tive minha oportunidade e agarrei.

Quando o Santos vendeu o Neymar, o Barcelona também passou a ter a preferência para a sua aquisição. Você chegou a ir ao Camp Nou assistir uma partida. Como foi assimilar tudo isso na cabeça tão cedo?
Eu saí de férias em 2012, no final do Brasileiro, e tinha um amigo lá que era o Adriano, lateral-esquerdo que jogou no Sevilla, no Barcelona e na Seleção Brasileira. Fui para Barcelona visitá-lo. Nós tínhamos o mesmo empresário, então fui para lá passear e encontrá-lo. Mas aí começaram a falar essas besteiras. Existia isso, sim, de preferência para o Barcelona, mas a minha ida para lá não teve a ver com isso.

E como ficou a sua cabeça, aos 17 anos, sabendo que o Barcelona tinha a preferência para a sua compra?
Sempre fui muito tranquilo. Esse rótulo, que hoje está se desfazendo, é sempre de gente maldosa e que fala groselha. Sempre ignorei, levei numa boa. Sempre tive uma base familiar muito forte. Nunca me importei com o que falavam. Sempre levei com muita naturalidade .

Você e o Neymar eram amigos. Ainda mantêm contato?
Sim. Não falo com ele toda hora, até porque não tem tanto o que falar. Mas sempre que ele está no Brasil a gente se encontra, quando eu jogava na Alemanha e em Portugal eu sempre estava indo a Barcelona. É um cara que só tenho que agradecer. Me ajudou bastante no elenco profissional e me abraçou.

Victor Andrade e Neymar
Victor Andrade e Neymar atuaram juntos nos profissionais do Santos, em 2012, e ainda mantêm a amizade (Foto: Flickr/SantosFC)

O Neymar já te revelou se vai mesmo voltar para o Santos?
Ainda não tive essa conversa com ele, mas se voltar vai ser muito bom para o futebol brasileiro, porque é o nosso maior ídolo atualmente.

Apesar de não ter uma sequência como titular no Santos, você interessava muitos clubes. O Palmeiras tentou te contratar?
Não chegou até mim.

Lembra de outros clubes que quiseram te contratar?
Na época, como eu subi muito cedo, muitos clubes mostraram interesse e chegaram propostas concretas. Mas isso era mais do exterior, porque no Brasil, naquela altura, não fazia sentido jogar em outro lugar que não fosse o Santos. Eu subi em 2012 e joguei bastante, em 2013 não joguei tanto e começaram a ter essas conversas atravessadas de transferências. Isso sim atrapalhou um pouco. Depois fui para o Benfica e Munique 1860 para viver um período espetacular na minha vida. Infelizmente machuquei o joelho na Alemanha.

Você deixou o Santos após a rescisão de contrato. O interesse na rescisão partiu de você ou do Santos?
Olha para eu falar a verdade, na época eu tinha 17 para 18 anos. Eu realmente não me envolvia. Era tudo com o meu empresário. Não sei de quem partiu, mas creio que foi em comum acordo, porque eu tinha uma relação muito boa com o clube e não tenho um A pra falar. Só gratidão.

Se arrepende de ter deixado o Santos?
Não, não me arrependo de nada na minha vida até hoje.

Qual é a melhor recordação que tem do Santos?
O primeiro treino nos profissionais, quando você se depara com os jogadores que sempre acompanhou, assistia sempre na TV. Quando você olha para o vestiário e vê craques de bola como o Neymar, Ganso, Arouca, eu gostava muito do Arouca, o Aranha, de quem eu era fã, Elano e Borges, que era brocador bravo.

Como foi a escolha pelo Benfica?
Na época tinha o Benfica e o Hoffenheim, da Alemanha, e a escolha pelo Benfica foi porque eu o acompanhava. Sabia que tinham muitos brasileiros como os zagueiros Luisão e Jardel, além do Júlio César, goleiro. Fui junto com o Talisca na época. E isso para adaptação seria algo muito importante. Junto aos brasileiro, era um clube que ainda jogava Champions League.

Victor Andrade no Benfica
Victor Andrade recebe orientações do técnico Rui Vitória para fazer a sua estreia na Champions League pelo Benfica. Duelo foi contra o Galatasaray (Foto: Icon)

Depois da experiência no exterior, você volta para o Brasil mas ainda não conseguiu ser ídolo em nenhum clube. Por que? A expectativa em cima de ti foi acima da realidade?
Eu subi muito cedo. Infelizmente tive algumas lesões graves em momentos em que estava jogando muito bem. Foram duas lesões. Mas em relação a ser ídolo, eu nunca tive isso como meta. Ídolo é a torcida que escolhe, as coisas acontecem naturalmente. Existem muitos ídolos marqueteiros. Para ser ídolo assim é fácil. Bastava contratar uma boa assessoria de imprensa que teria esse reconhecimento em um monte de clube que joguei. Mas esse nunca foi o meu intuito. O meu objetivo sempre foi ajudar os times que defendi.

Qual foi o melhor momento da sua carreira?
Na Alemanha, porque o estilo de jogo alemão é bem vertical, muito rápido, é bem o meu estilo de jogo um futebol muito rápido. Me adaptei muito bem lá. A equipe me recebeu muito bem também. E aqui na Portuguesa também. Estou muito feliz. O professor Dado Cavalcanti , que começou com esse projeto , montou esse time e o elenco me recebeu muito bem também.

Qual foi o mais difícil?
Acho que foram dois momentos. Quando rompi o ligamento cruzado na Alemanha e, mais tarde, no Vila Nova. A mesma lesão. No Vila Nova a lesão aconteceu quando eu estava indo para o Fluminense. Esses dois momentos me pegaram legal.

Como foi essa negociação com o Fluminense?
Tava com contrato fechado com o Fluminense, em 2022. Nós jogamos contra o Fluminense pela Copa do Brasil e, na época, eles tinham acabado de vender o Luiz Henrique para o Real Betis. O Fernando Diniz me ligou para ir para lá. Mas é do futebol. Não tenho arrependimento, mágoa ou tristeza. Isso aconteceu comigo, mas poderia acontecer com A, B ou C. A gente está sujeito a esse tipo de situação.

Já estava tudo acertado com o Fluminense?
O acerto aconteceu antes de um jogo contra o Guarani. O representante do Fluminense foi no hotel em que nós estávamos. A gente já tinha acertado os valores e o tempo de contrato. Aí ficou decidido que depois do jogo do Guarani eu assinaria o contrato. Mas justamente no jogo com o Guarani, à noite, rompi o ligamento cruzado do joelho e a negociação caiu.

Você tem contrato com a Portuguesa até 10 de abril. Qual é o próximo passo do Victor Andrade no futebol?
Aracaju. Daqui eu vou para Aracaju, minha casa. Vou ficar uns três dias por lá e decidir o que fazer. Foi um Paulista particularmente e coletivamente muito bom. Estou muito feliz, pois entendo que fiz bons jogos, tive bons números. Então agora tomar melhor decisão

Você está com 28 anos. O que ainda almeja para a sua carreira?
Eu nunca penso daqui a dois, três, quatro ou cinco anos. Penso em um dia de cada vez. Neste momento penso que a gente tem um jogo importante contra o Santos e tenho que ir lá e dar o meu melhor para ajudar a Portuguesa a se classificar. Eu tenho que estar sempre dando o meu melhor, porque é assim que as coisas vão acontecendo. Naturalmente.

Se pudesse voltar no tempo, o que teria feito de diferente na carreira?
Nada!

Foto de Bruno Lima

Bruno Lima

Bruno Lima nasceu em Santos (SP) e se formou em Jornalismo na Universidade Católica de Santos (UniSantos) em 2010. Antes de escrever para Trivela, passou por A Tribuna.
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