Como ser vegetariano ou vegano afeta o jogador de alto nível? Fomos atrás das respostas
Adotar dieta sem origem animal pode ser estranho para um atleta de alto rendimento, mas é natural
No futebol moderno, marcado pela intensidade e preparação física próxima da perfeição, a dieta tem um papel fundamental. O consumo de proteínas animais, no caso de carnes, peixes e ovos, parece ser algo indipensável para o jogador manter sua forma ideal e sem deficiências. Na realidade, porém, um atleta pode muito bem conseguir atuar no alto nível mesmo que não consuma nada que venha dos animais (no caso, seja vegano) ou que restrinja especialmente carnes (vegetariano).
Como a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) define ser vegano e vegetariano
- “O veganismo é um movimento em que seus adeptos excluem, na medida do possível e do praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra os animais – seja na alimentação, vestuário ou outras esferas do consumo.”
- “O vegetarianismo é uma escolha alimentar na qual se tira os produtos de origem animal do cardápio.”
Há vários exemplos dentro do futebol de atletas de alto rendimento, como o meio-campista Saúl Niguez, do Flamengo, o lateral espanhol Hector Bellerín e a ex-atacante Alex Morgan, que adotaram o estilo de vida sem consumo de carne. Em outros esportes, as lendas Serena Williams, do tênis, e Lewis Hamilton, da Fórmula-1, também optaram por esse caminho.
Imaginar atletas de alto rendimento que não se alimentam com proteína animal foge completamente do estereótipo há muito tempo difundido. Uma teoria infundada por diversos motivos, alguns elencados por nutricionistas esportivos ouvidos pela Trivela neste artigo.
Uma dieta totalmente sem itens vindos de animais (veganismo) ou sem carne, mas podendo ter ovos e laticínios (vegetarianismo), pode cumprir, bater a meta de mesmo nutrientes e dar a mesma energia do que as refeições de pessoas onívoras (que consumem carne), conforme analisaram as fontes ouvidas pela reportagem.
Dieta vegana/vegetariana tem tudo que jogador precisa, mas quando feita de forma adequada
— Quando realizada de forma adequada, com a presença de grupos de cereais, como arroz, leguminosas, casos de feijão, lentilhas e outras, legumes, frutas e verduras, a dieta vegana supre todas as necessidades do jogador — explicou a nutricionista esportiva Priscilla Mazza, especializada em dietas veganas e vegetarianas.
— Isso pensando tanto na parte de dar energia para a pessoa quanto na parte de recuperação, melhora de imunidade, ajudar a garantir toda a quantidade de micronutrientes que esse atleta precisa para ter um bom rendimento nos jogos — completou.
O fator energético citado por Mazza foi algo que Bellerín sentiu na pele, como contou ao site “The Player’s Tribune”, quando atuava pelo Arsenal em 2018. O jogador espanhol, hoje no Betis, detalhou como se sentiu mais disposto do que quando consumia carne.
— Depois de me livrar de toda a comida que eu estava comendo e adotar uma dieta baseada em vegetais, levei alguns dias para realmente me sentir melhor, mas quando chegou o começo da terceira semana, me senti muito bem. Eu acordava de manhã com muita energia, enquanto antes eu era aquela pessoa que adiava o despertador cinco vezes antes de sair da cama.
Exemplar 👏
— Trivela (@trivela) February 19, 2024
Bellerín e Betis: quando clube e jogador são ativistas pela sustentabilidadehttps://t.co/Q33kx88gu0
Breninho, atacante de 20 anos do Clube Laguna-RN, o primeiro time vegano do Brasil, também notou uma mudança na disposição quando passou a adotar a alimentação sem carne, assim como França Muniz, ex-Palmeiras, que passou pelo time potiguar entre 2024 e 2025 e seguiu a dieta enquanto esteve lá.
— Eu senti uma diferença muito grande. Na pele, a recuperação é muito mais rápida, o sono melhorou muito e eu me sentia muito mais disposto. Creio que a comida foi o primordial nisso enquanto eu estava mantendo 100% vegana — aprova Breninho à Trivela.
— Meus resultados dentro de campo foram surpreendentes, me sentia mais leve, com mais disposição e minha recuperação era muito mais rápida de um jogo para o outro. Me senti muito bem. Sou um jogador que quase não tive lesão muscular na minha carreira graças a Deus, mas a dieta me ajudou ainda mais. Não me lesionei e me sentia muito bem mais forte, mais rápido, foi uma experiência muito boa — disse França, que hoje atua no Porto Velho-RO, em mensagem à reportagem.
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Jogadores também relatam diminuição de lesões com dieta
Atletas que cortaram o consumo de carne vermelha também notaram uma melhora na recuperação, com menos lesões que antes e a diminuição de inflamação, especialmente em áreas com histórico de trauma. Os relatos de Breninho e França se complementam com o zagueiro Chris Smaling, ex-Manchester United e Roma, e atualmente no saudita Al-Fayha.
— Eu tinha muita tendinite no joelho. Carne vermelha causa muita inflamação e, quando comecei a reduzir o consumo, a tendinite começou a desaparecer. Costumava ser um problema nos aquecimentos, porque começar era um pesadelo. Minha tendinite tem melhorado cada vez mais — contou Smalling, ao jornal inglês “The Telegraph”, em 2018.
O jovem Breninho é um caso ainda mais especial. Por meses, o jogador sofreu com um problema físico no posterior da coxa de seu clube anterior e não conseguiu se recuperar. Quando chegou ao Laguna e passou a parar de ingerir proteína animal, se recuperou e as lesões se tornaram menos frequentes.
— Eu segui a dieta 100% vegana por um mês e meio, com os cuidados do fisioterapeuta do clube, eu voltei e nunca mais tive problema com lesão. A comida não deixa o músculo inflamar e isso faz com que a recuperação seja mais rápida — disse.
O presidente do Laguna, Gustavo Nabinger, contou à Trivela que os relatos de Breninho e França não são incomuns. “A grande maioria dos jogadores do Laguna relata muita melhora em performance, se sentem muito mais dispostos e que a recuperação deles de um treino para o outro, após jogo, é muito melhor”, disse, em videconferência com a reportagem.
O dirigente ainda destacou que desde a fundação do clube os casos de lesão muscular tem sido raros.
As nutricionistas consultadas pela Trivela detalham como a alimentação sem carne pode diminuir problemas físicos.
— Existem diversos estudos que comprovam que o maior consumo de compostos bioativos estão associados a menor risco de lesão e diversos estudos mostram que dietas veganas entregam mais desses compostos, então sim, isso é comprovado — reteira a também a nutricionista esportiva Marina Fontana, especializada em veganismo.
No entanto, o nutricionista Lucas Orsatti, que acompanhou a pré-temporada do Vitória neste ano e trabalhou com o sub-12 do São Cateano, ressalta que esse impacto pode acontecer por vezes pelo atleta não estar se alimentando da maneira ideal consumindo proteína animal e, quando opta por seguir corretamente a dieta vegana, pode ver um impacto maior.
— É muito individual isso, existem vários fatores para o jogador estar sentindo essa melhoria. Às vezes, pode ser que ele não estivesse fazendo uma boa dieta e, aí, começa a melhorar a alimentação dele e vai sentir esses benefícios e melhorias acontecendo — disse.
Como qualquer dieta, vegana precisa de acompanhamento para não ter problemas
Pelos alimentos naturais, presentes em toda dieta vegana, serem mais leves, com menor indíce calórico, o atleta pode ter uma perda de peso (causada pelo déficit de calorias), mas só acontecerá isso se não acontecer o acompanhamento profissional ou o atleta não seguí-lo de forma ideal.
— A ingestão calórica é um desafio [na dieta vegana de um jogador de futebol], porque muitas vezes a pessoa está habituada com volume menor de comida. Com a alimentação vegetariana e vegana, com mais alimentos in natura, vindos de feira, eles são mais leves e pode facilitar um processo de emagrecimento — explicou Mazza.
— Então, precisa reduzir um pouquinho o volume de legumes e verduras e aumentar bem a parte dos macronutrientes, pensando em leguminosas, cereais e gorduras boas, para auxiliar nesse volume calórico e não ter risco de ter emagrecimento — completou.
Ainda há desafios com algumas vitaminas, como a B12, só presentes em alimentos de origem animal, e ferro. Mas tudo pode ser suprido com o equilíbrio nos alimentos para compensar a quantidade necessária de cada um ou suplementando.
— Se um atleta virar vegetariano por si próprio, começou a tentar mudar a alimentação sem acompanhamento, é possível que ele tenha realmente esses desafios e dificuldades de vitaminas, que se torna um problema de médio la ongo prazo. Mas, se for dado uma atenção especial para todos esses pontos, com facilidade dá para suprir todas essas necessidades — confirmou Lucas Orsatti.
Como surgiu o primeiro e único clube vegano do Brasil

Em fevereiro de 2022, na cidade litorânea de Tibau do Sul, no Rio Grande do Norte, surgiu um clube diferente da maioria. Pioneiro desde o princípio, o Clube Laguna SAF, a primeira sociedade anônima do futebol do estado potiguar, se tornou o único time vegano do Brasil.
— O veganismo no Laguna foi uma escolha por conta dos sócios, são três, dois veganos e um vegetariano. Para nós não fazer sentido criar uma empresa que serve seis refeições por dia e não fosse vegana. Iria na contramão daquilo que a gente acredita — explicou Nabinger, um dos fundadores do “Algodão-Doce”, como é conhecido o time, e ex-jogador profissional.
Esqueça aquela salada padrão servida em vários restaurantes pelo Brasil. No Laguna, o cardápio é vasto e apresenta pratos elaborados da culinária vegana.
Todas as seis refeições servidas nas instalações da equipe são compostas de alimentos à base de plantas, como almôndega de soja, brownie de feijão e beringela empanada. O cardápio foi montado por chefs de cozinha vegana e teve apoio da Sociedade Vegetariana Brasileira.
Os atletas, porém, só são obrigados a seguir a dieta sem alimentos de origem animal quando estam dentro do Laguna. Na vida pessoal, fora do clube, eles têm liberdade de comer qualquer proteína animal, mas alguns se acostumam tanto com a nova rotina de alimentos que optam por seguir veganos.
França, quando esteve por lá, se manteve 100% vegano por pelo menos três meses, enquanto Breninho segue enquanto a temporada está em andamento, pois é um grande fã de churrasco nas férias.
No entanto, o experiente defensor, aos 34 anos, deixou de seguir a dieta sem carnes com a saída do clube potiguar porque, nas outras equipes que defendeu, a alimentação toda vem acompanhada de muita carne. Ele sentiu uma piora na recuperação pós-jogo com retorno de dores, o que não aconteceu em seu período no Laguna.
Breninho, apesar de entender a importância do veganismo em sua carreira, revelou à reportagem que não seguirá a dieta caso deixe o clube potiguar. A razão é seu ambiente social, especialmente em Goiás, seu estado natal, sempre com a presença de carne vermelha nas refeições.
O Laguna, apesar de entender a relevância da mensagem na alimentação, é um clube muito mais do que vegano.
Veganismo como mensagem contra a exploração animal
O clube adota em seu estatuto os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, conscientizando sobre as mudanças climáticas causadas e usando o veganismo não só como uma dieta, mas para passar uma mensagem contra a exploração animal, um caminho já citado por uma jogadora de futebol.
Em novembro de 2017, Alex Morgan, bicampeã mundial e ouro nos Jogos Olímpicos, utilizou como exemplo seu animal de estimação como algo para justificar sua escolha pela dieta vegana.
— Sou apaixonada por dar voz aos animais. Até adotei uma dieta vegana, porque não me parecia justo ter um cachorro que eu adoro e ainda comer carne o tempo todo — afirmou.

A escolha do veganismo além da alimentação também tem a ver com a escolha de produtos que não sejam testados em animais ou não tenham em sua composição nada que venha da proteína animal. É como uma mensagem política contra a exploração dos animais — todos eles — e também uma bandeira a favor do meio ambiente, visto o quão nocivo é a produção de carne e lacticínios pela emissões de gases de efeito estufa e outros fatores.
— Se você tem muita dificuldade de tirar o leite ou o queijo da sua refeição, você pode trocar para que produtos do seu dia a dia sejam veganos, como sabonete, detergente, produto de limpeza, xampu, pasta de dente, entre outros. Pode usar uma roupa que não seja de couro natural. São outros hábitos do dia a dia — reafirma Gustavo Nabinger.
É justamente por tudo isso que o espanhol Saúl, reforço do Flamengo neste mês, disse em 2020 que é vegetariano apesar de não comer ovos, lactinios nem nada vindo de animais. Para o meio-campista, ser vegano é muito mais do comer a base de plantas.
— Ser vegano é um estilo de vida em que você não pode usar certos tipos de roupas, certos cosméticos. É um estilo de vida que prioriza a proteção e a garantia de que os animais não sejam maltratados de forma alguma. É um estilo de vida no qual ainda não estou pessoalmente envolvido, mas estou me tornando vegano aos poucos. Mas ainda não sou vegano — afirmou ao portal “Euronews”. Posteriormente, o atleta se definiu como vegano.
França planeja volta à dieta vegana
Mesmo que não siga o veganismo no Porto Velho, França Muniz espera retornar à dieta no futuro. “Para prolongar ainda mais minha carreira”, justificou o veterano.
Há, também, motivos pessoais. Pai de dois filhos, a mais nova é alégica à proteína do leite, o que obriga uma maior atenção com alimentação da caçula.
— Minha esposa e eu conversamos muito sobre adotar a dieta vegana dentro de casa por causa dos nossos filhos. O Noah, meu filho mais velho, parou de tomar leite graças o tempo que ele ficou comigo no Laguna. Então eu tenho essa ideia de realmente fazer essa dieta vegana — disse.
Quantos veganos e vegetarianos existem no Brasil?
As pesquisas mais recentes do número de brasileiros que não consomem proteína animal mostram uma tendência de crescimento. Em 2018, a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) e o Ibope (hoje Ipec) revelaram que 14% da população nacional, quase 30 milhões de pessoas, são vegetarianas.
Já em 2025, a SVB junto com o Instituto Datafolha apontaram que 7% da população concorda totalmente ou em parte com a afirmação de que é vegana. Ainda há outras pesquisas que mostram uma tendência maior de consumo de alimentos à base de planta ou a restrição a carnes.
Em 2021, uma amostragem do Ipec apontou que 46% dos brasileiros optam por deixar de comer carne, por vontade própria, pelo menos uma vez por semana. E, em idas a restaurantes e lanchonetes, 32% das pessoas escolhem uma opção vegana quando existe a opção pelo estabelecimento.
No futebol, porém, a presença de veganos ainda é tímida. A reportagem buscou, em diferentes assessorias de imprensa de atletas brasileiros, algum que adotassem a direta, mas não encontrou além do elenco do Laguna.
Pode ser pela incapacidade dos clubes de oferecerem a dieta dentro de suas instalações e também por limitações financeiras, seja dos atletas ou das próprias equipes.
Mas também é possível que seja um reflexo de um esporte muito conservador, por vezes resistente a novas ideias e pensamentos. No campo vemos os jogadores buscarem “provar” sua masculidade com força e imposição física.No contexto da proteína animal, relacionada por muito tempo também a masculinidade, se justifica a associação.
Em sua experiência no Arsenal, Bellerín relatou piadas e colegas tentando colocar carne em seu prato. A mudança de paradigma, como qualquer transformação na sociedade, leva tempo.
— É muito mais comum vermos mulheres que não comem carne do que homens e essa é uma questão unicamente cultural. A carne é associada a caça, que era uma tarefa masculina, mas há séculos essa já não é a realidade, a carne é comprada no mercado, sem nenhum esforço físico — finalizou a nutricionista Marina Fontana.



