Por que Vasco x Botafogo é a ‘pior-melhor’ rivalidade do futebol brasileiro
Adversários nas quartas de final da Copa do Brasil, Vasco e Botafogo passaram de uma boa relação institucional para o respeito entre torcedores e aliança entre organizadas
O Estádio Nilton Santos vai receber, nesta quinta-feira (11), um clássico diferente. Se algum desavisado andar pelos arredores do estádio, provavelmente não vai perceber que se trata de um clássico e muito menos que vale uma vaga na semifinal da Copa do Brasil. Neste noite, às 21h30 (horário de Brasília), Botafogo e Vasco protagonizam mais um “Clássico da Amizade”.
E um dos mais importantes dos últimos anos. Os clubes se enfrentam pelo jogo de volta das quartas de final. Na ida, em São Januário, empate em 1 a 1.
E, apesar de se tratar de um clássico e da importância de jogo, é seguro afirmar que o Nilton Santos deve viver uma noite tranquila. Ao menos, em relação às torcidas de Vasco e Botafogo.

Há mais de 100 anos, Vasco e Botafogo vivem uma relação cordial entre as instituições — com alguns momentos turbulentos. E essa amizade invadiu as arquibancadas e se perpetuou para as organizadas vascaínas e alvinegras. Não à toa, é comum ver torcedores dos dois clubes confraternizando antes das partidas entre as equipes, seja em São Januário, palco do jogo desta quarta, ou Nilton Santos.
Inclusive, esta boa relação influenciou, indiretamente, até mesmo a entrada do Vasco no futebol, depois dos primeiros anos da sua história dedicados ao remo.
Em 1913, o Botafogo convidou um combinado de jogadores portugueses para uma série de amistosos no Rio de Janeiro. De olho no público português, o alvinegro procurou o Vasco da Gama para ajudar na divulgação dos jogos. Aqueles amistosos acabaram influenciando o surgimento de time na colônia portuguesa do Rio. Um deles foi o Lusitânia.
Dois anos depois, em 1915, jogadores do Lusitânia, que conviviam com problemas no clube, migraram para o Vasco e, em novembro daquele ano, foi criada a seção de futebol do clube.
Este foi o primeiro episódio em que a boa relação institucional entre Botafogo e Vasco da Gama ficou estabelecida. Depois, na década de 1920, outro episódio importante da história vascaína ficou marcado.
— Para além da união das torcidas organizadas, o respeito mútuo das diretorias já vem de muitas décadas. Em 1923, quando o Vasco foi campeão carioca com representantes das camadas mais populares, o presidente do Vasco era o português Antônio da Silva Campos e ele tinha uma boa relação com o Renato Pacheco, presidente do Botafogo. E, em 1924, quando o Vasco não aceita excluir os seus jogadores para fazer parte da AMEA, o Botafogo ainda tenta ajudar para que o Vasco fique com os “grandes”, mas não foi possível pelas exigências feitas e o posicionamento do Vasco — explicou Walmer Peres, coordenador do Centro de Memória do Vasco.
— Já em 1925, depois do Vasco conquistar a Liga Metropolitana e o Fluminense o campeonato da AMEA, o Botafogo ajudou, de certa forma, para que houvesse uma articulação política para a entrada do Vasco na entidade — completou Walmer Peres.
A partir dali, a boa relação entre as diretorias do clube passou para as torcidas. Se especula que as cores parecidas e a rivalidade maior com outros clubes da cidade fez os torcedores se aproximarem. Enquanto o Vasco passou a ter uma rivalidade maior com o Flamengo, o Botafogo tinha o Fluminense como rival, além de também ter rivalidade com o Rubro-Negro.
Na década de 1970, quando o Maracanã era muito diferente do que conhecemos hoje, era comum que torcedores carregassem as bandeiras dos respectivos clubes de um lado para o outro, inclusive passando pela torcida adversária. Quando as bandeiras de Botafogo e Vasco se cruzavam, os torcedores aplaudiam o momento, simbolizando o respeito entre os clubes e torcidas.
Amizade entre organizadas de Vasco e Botafogo

Mais de 100 anos depois do começo da relação institucional entre Botafogo e Vasco, o clima de amizade segue vivo. Em boa parte, pela relação entre algumas das principais torcidas organizadas dos clubes. A aliança entre vascaínos e alvinegros ajuda a manter o clima de paz nos jogos entre os clubes.
No jogo de ida entre as equipes pelas quartas de final da Copa do Brasil, em agosto, a Trivela viu torcedores alvinegros circularam tranquilamente pelos arredores de São Januário, inclusive participando de churrascos com vascaínos.
Não à toa, o clássico com o Botafogo é o único que o Vasco tem autorização da Polícia Militar para mandar em São Januário. O Cruz-Maltino não enfrenta o Flamengo em casa desde 2017. Já o último confronto com o Fluminense em São Januário aconteceu em 2019.
Desde então, as forças de segurança do Rio de Janeiro vetam a realização de clássicos com a dupla Fla-Flu, com ambas as torcidas, na Colina. Em 2020, durante a pandemia de Covic-19, o Vasco enfrentou Flamengo e Fluminense em casa, mas com os portões fechados.
De acordo com a PM, São Januário tem restrições para abrigas clássicos e, segundo nota enviada à Trivela, a rivalidade entre os clubes é levada em consideração, além de acesso dos torcedores e riscos no trajeto.



