10 anos depois, goleira de Mariana usa vivência da tragédia para superar desafios no futebol
Sandy viveu luto após rompimento da barragem do Fundão e encontrou resiliência no futebol para lidar com desafios
— Eu lembro direitinho do dia. Eu saí um pouco mais cedo da escola e tinha ido na venda da minha madrinha. Ela recebeu uma ligação e quando desligou disse: “Era o meu irmão, ele falou que a barragem rompeu“. Eu não tinha noção do que era a barragem, não tinha noção do tamanho que seria essa fatalidade.
Há dez anos, o Brasil vivenciou uma das maiores tragédias ambientais do país: o rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais.
No dia 5 de novembro de 2015, cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração atingiram 49 municípios, vitimando 19 pessoas. A lama contaminou o Rio Doce, chegando ao Oceano Atlântico, no Espírito Santo, afetando mais de 100 famílias, que precisaram deixar as suas residências.
O relato que inicia o texto é da goleira Sandy Monteiro, do América-MG. Nascida em Mariana e na época com 15 anos, a jogadora cresceu em Águas Claras, um dos distritos na zona rural da cidade, e teve a vida diretamente afetada pelo desastre.
— Nessa época eu estava morando em Águas Claras com os meus pais, nem pensava em ser jogadora profissional. Um parente nosso ligou para minha mãe perguntando se aqui seria atingido e a minha mãe respondeu: “Não, aqui não vai ser atingido. Se chegar em Paracatu, vai ser uma água suja de nada”. Isso não sai da minha mente — relembra.

A tragédia de Mariana
Paracatu é outro distrito do município de Mariana, vizinho a Águas Claras — que, por sua vez, está localizado a 39 quilômetros da zona urbana da cidade. Nenhum dos dois é o distrito de Bento Rodrigues, área da cidade que foi mais atingida pelo rompimento da barragem.
No entanto, todas essas zonas rurais são banhadas pelos rios Gualaxo do Norte e do Carmo, os primeiros a carregarem a lama até chegar ao Rio Doce. Por isso, houve danos em todos os distritos citados. Tanto que a sujeira derrubou a ponte de Paracatu, principal acesso das zonas rurais ao centro da cidade.
— Isso ficou marcado porque, de madrugada, o ponto mais próximo onde a lama passou foi a nove quilômetros de casa, que foi na ponte de Paracatu. E aí, quando eu ia até a varanda da minha casa, dava para escutar o barulho do rejeito passando como se estivesse muito, muito próximo — reconta a goleira.
Com a destruição da principal via de conexão até Mariana, Sandy, família e moradores ficaram ilhados nos dias que sucederam o desastre. As novas rotas foram reconstruídas mas, com os outros distritos atingidos, a mobilidade entre os locais passou a ficar mais difícil.
— Águas Claras não foi atingido diretamente, mas chegou perto. Então, no outro dia de manhã, fomos nos pontos atingidos e vimos como estava. Foi assustador, era realmente um mar de lama. Nos dias seguintes, ficamos ilhados. O acesso mais próximo que a gente tinha para chegar em Mariana era por essas pontes e o caminho que a gente fazia em 50, 40 minutos, passou a fazer em três horas — comenta.

Sandy relembra que os habitantes de Águas Claras chegaram a visitar outros distritos que foram atingidos diretamente. Entre essas pessoas, amigos de escola, alguns de localidades diretamente afetadas pelo “tsunami” de rejeitos.
— Eu lembro que algumas das pessoas com quem eu convivia, que estudavam comigo, perderam tudo. Todo mundo teve que ir morar em Mariana, alguns ainda vinham estudar aqui. Mas, de certa forma até hoje não voltou a “vida normal”, cotidiana — afirma a jogadora.
Uma década se passou. Vinte e duas pessoas — além de quatro empresas — foram denunciadas pelo Ministério Público Federal (MPF). Samarco, Vale e BHP foram denunciadas por crimes ambientais. Já a VogBR responde por apresentação de laudo ambiental falso. Ninguém foi responsabilizado pelo rompimento da barragem.
— Casas, sonhos, lembranças que foram destruídas, coisas que as pessoas não vão ter mais. Tem gente que era casada e o esposo ou a esposa faleceu, hoje não tem nem lembrança mais deles porque são pessoas mais idosas, que a forma de lembrar que eles tinham eram por uma fotografia. Isso tudo se perdeu — declara Sandy.

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No futebol, a resiliência
Aos 25 anos, Sandy Monteiro vivenciou diferentes histórias. Ainda criança foi influenciada pela referência mais próxima que tinha do futebol de mulheres: a sua irmã. Com a casa repleta de troféus conquistados por Sirlene Monteiro, e a força do futebol amador na região, a mineira também passou a jogar, inicialmente com amigos de infância.
— Desde pequena eu fui influenciada pelo futebol porque a minha irmã jogava. Futebol amador lá nos anos 2000, que foi a época que ela jogava, era muito forte aqui na região. As mulheres aqui jogavam mais do que os homens. Sempre joguei bola aqui na roça com os meninos e passei a minha infância toda no campo ou na quadra — conta.
Apesar da predominância das mulheres na modalidade e a influência da trajetória de títulos da irmã, Sandy viu o cenário mudar após Sirlene sofrer um acidente de carro. A jogadora relembra que a representatividade que tinha era das próprias colegas da região.

Com o futebol feminino pouco difundido — e com apoio escasso –, não havia possibilidade de sonhar com uma carreira ou conhecer outras pioneiras do futebol.
— Cresci vendo ela jogando até os 7 anos, todo mundo falando muito bem dela, até que ela sofreu um acidente e parou de jogar. Só que, naquela época a gente não escutava muito sobre futebol feminino, profissionalmente falando. Então, não tinha esse sonho assim: “Ah, eu vou crescer e vou ser jogadora de futebol”.
— Eu lembro que a primeira vez que eu ouvi falar sobre a Marta eu não fazia ideia de quem era. Eu era criança, estava jogando bola no campo daqui, então eu não fazia ideia de quem era.
Três meses após o rompimento da barragem, já em 2016, uma ponte provisória foi construída em Águas Claras, amenizando as dificuldades de locomoção da comunidade.
Com o novo trajeto, Sandy decidiu se mudar para Mariana, onde continuaria os estudos, mas também a prática do esporte. Foi quando passou a atuar no futebol de salão amador.

— Em 2016, quando eu mudei para Mariana, eu comecei a jogar futsal amador, a gente treinava só aos sábados. Nessa época eu arrumei uma briga aqui em casa, porque eu não fazia mais nada da minha vida no final de semana, só ia jogar — recorda.
No ano seguinte, o técnico Neidmar, com quem Sandy treinava, passou a traçar novos planos para a carreira da jogadora. A ideia era que a goleira participasse de peneiras para integrar uma equipe de futebol de campo.
— Meu treinador falou para mim, no final de 2017, que me colocaria no futebol profissional de campo. Mas eu continuei treinando e participando de campeonatos de futsal. Em 2018 foi quando ele chegou com a notícia de que teria um Campeonato Mineiro e que eu ia jogar pelo Betis de Ouro Branco — conta.

O torneio estadual foi o primeiro passo da mudança na carreira, abrindo as portas para o começo da trajetória no futebol profissional. A atuação de Sandy chamou a atenção do América-MG, onde precisou adquirir fundamentos técnicos para a atuação em campo.
— Na época só tinha o América de futebol no feminino em Minas, não tinha Cruzeiro e Atlético ainda. Passaram a ter com obrigatoriedade em 2019. O América me viu nesse campeonato e me chamou para fazer uma seletiva no início de 2019. Eu fui, passei, mas eu não tinha base. Então comecei mesmo com 19 anos, já foi tarde. O primeiro ano com eles foi para treinar, pegar fundamento, técnica, aprender realmente o que é ser uma goleira de campo — explica.
Depois do susto, novos rumos
Mas a primeira breve passagem pela equipe mineira foi interrompida de forma repentina. A equipe sofreu um “desmonte” com a criação do futebol feminino em outros clubes do estado.
— Na época era uma outra comissão técnica, um outro grupo que estava, era o Hoffman [Túlio], o Jorge Victor, que é o nosso atual treinador. E aí tinha a Babi [Bárbara] Fonseca. E eu fiz uma uma seletiva com com esse grupo. Na outra semana tudo mudou, assim, saiu todo mundo, foi todo mundo para o Cruzeiro — afirma.
— A maioria das atletas migrou para o Cruzeiro, permaneceram acho que só oito ou nove atletas daquele elenco. A comissão inteira, a diretoria inteira foi para o Cruzeiro. Eles não deram resposta para para o pessoal que fez essa seletiva. A Kethleen Azevedo veio para o América com a missão de reconstruir o América — revela Sandy.

Ainda naquele ano, Sandy Monteiro levou outro susto: sofreu uma lesão no ligamento cruzado anterior do joelho meses antes da chegada da pandemia de Covid-19. Diante do cenário de incertezas, a jogadora retornou ao município de Águas Claras para se recuperar e passar pelo isolamento social necessário na época.
— No final de 2019 eu tive uma lesão gravíssima e depois tivemos a pandemia. Eu voltei para a roça que era mais isolado, mas foi um período importantíssimo porque eu criei parcerias com com empresas que me ajudaram a fazer um tratamento minimamente possível na época — relata.
Após a recuperação, Sandy retornou aos gramados, finalizando a primeira passagem pela equipe mineira. A partir de 2022 iniciou uma trajetória de novas experiências em diferentes clubes.
— Eu fiquei no América em 2019, 2020 e saí no final de 2021. No início de 2022 eu fui para o 3B-AM, conheci outras culturas, outras pessoas, conheci o futebol de outra maneira. Depois fui para o JC, Polivalente, São José-SP, União de Natal-RN, Pinda. Rodei, né? Conheci muitas meninas, foram experiências de vida incríveis, fora da minha realidade — relata.

Sonho com seleção brasileira e representatividade
A passagem pelos seis times trouxe aprendizados que, segundo Sandy, mostraram outras realidades vividas pelas atletas. Com os novos clubes que defendeu localizados em quatro estados brasileiros, sendo um no Norte, um no Nordeste e outro no Sul, a mineira declarou ter somado vivências que fortaleceram o crescimento profissional e pessoal.
— Passei a ter um olhar mais sensível para para algumas coisas que não eram a minha realidade, mas é a realidade de outras atletas e foi um momento importantíssimo para o meu crescimento profissional e pessoal, de amadurecimento mental também — afirma.
Em 2024, os caminhos levaram a goleira de volta a Minas Gerais. Com um novo elenco sendo montado no América, Sandy retornou ao clube onde deu os primeiros passos na carreira profissional.

— Eu falo muito que futebol feminino é resistência pelo simples fato da gente entrar em campo. Futebol me ensinou que estamos o tempo todo em provação, em um ambiente que muitas das vezes não nos quer ali — pontua.
E, em meio aos desafios vividos na carreira e vida pessoal ao longo da última década, Sandy reforçou a importância da visibilidade e representatividade no futebol de mulheres, que foram importantes para pavimentar a própria história.
— O futebol me ensinou sobre representatividade. Hoje eu vejo que, por mais que eu não seja uma Marta ou Formiga, dando uma escala bem grande, eu sei que de certa forma eu sou representatividade para as pessoas da minha região, para as meninas da minha região, que me olham em campo e pensam: “Eu também posso estar ali” — completa.

Agora, a goleira projeta novos sonhos e busca novas conquistas. Em meio a um país que ainda pavimenta o desenvolvimento do futebol feminino, ainda com os seus percalços, a Copa do Mundo de Mulheres trouxe a possibilidade de uma nova geração viver o que antes ficava na imaginação.
— Vejo que futebol também me ensinou muito sobre resiliência e superação o meu sonho é um dia conseguir chegar na seleção e seguir caminhos assim que me deixam mais próxima desse sonho principal.



