‘Foi assustador’: Um ano depois, os prejuízos da confusão causada por torcedores do Peñarol no RJ
Dia caótico no Rio de Janeiro marcou novo episódio triste do futebol sul-americano
Aquela manhã de sol no Rio de Janeiro parecia mais um dia normal na praia do Recreio, não fosse a presença de milhares de uruguaios que esperavam pela partida contra o Botafogo, pela semifinal da Copa Libertadores, no Nilton Santos. Mas o que poderia ser apenas a concentração de torcedores do Peñarol acabou virando uma das maiores confusões já vistas relacionadas ao futebol sul-americano nos últimos anos.
As cenas de violência, vandalismo e depredação de quiosques, carros, motos, ônibus e o que estivesse pelo caminho chamaram a atenção, rodaram o mundo e impactam até hoje a vida dos envolvidos — brasileiros e uruguaios.
Nesta quinta-feira (23), exatamente um ano depois, a Trivela relembra a confusão gerada pelos torcedores do Peñarol e conta como estão a vida de alguns dos brasileiros que foram afetados pela violência, além dos próprios uruguaios que foram detidos e presos no Rio de Janeiro.
Professor de surfe ainda lida com prejuízo
Um dos principais atingidos pelo vandalismo dos uruguaios foi Marcelo Barbosa. Conhecido como Marcelo Hiena, ele é professor de um projeto social chamado “Recreio Open”, que dá aulas de surfe para crianças e adolescentes de baixa renda.
Naquela tarde, ele estava na praia e teve o seu carro, que também era instrumento de trabalho, depredado, e parte do seu material, como pranchas e roupas de borracha, incendiados pelos uruguaios. Hoje, um ano depois, ele ainda tenta recuperar o prejuízo.
— Era o carro de trabalho, preciso muito dele para carregar prancha, é meu meio de transporte para chegar aqui na praia e também para sair para fazer um surfe com a molecada em outras praias — disse Marcelo à Trivela.
Sem seguro, ele contou com a ajuda de um empresário que se comoveu com a sua história para recuperar parte do prejuízo com o carro.
— Teve um senhor, empresário, que se chama Fernando. Ele viu na televisão e veio até aqui, me procurou para pagar os vidros do carro. Estavam todos quebrados e ele pagou. As outras coisas não tiveram como, não teve dinheiro para fazer uma reforma – completou Marcelo.

As lembranças daquela manhã e tarde de 23 de outubro de 2024, é claro, não são boas para Marcelo.
— Eu estava aqui próximo. Estava na praia mesmo quando começou a bagunça. Foi assustador, terrível. A cada minuto a coisa foi ficando pior. Foi muita tristeza — disse o professor de surfe.
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Entregador teve moto queimada por uruguaios
Além do carro depredado de Marcelo, os torcedores do Peñarol também colocaram fogo em três motos que estavam estacionadas perto dos quiosques. Uma destas motos era de Petterson Gomes, que trabalha como entregador e ainda pagava as parcelas do veículo.
— Aquele dia foi tenso demais. Não tínhamos ideia que passaríamos por aquilo. Já estava acostumado a ir para aquele ponto na praia, fui para me divertir como sempre fiz e de repente começou a correria. Meus amigos e eu ficamos sem entender o que estava acontecendo, até ouvir a gritaria e o corre corre — comentou Petterson à Trivela.
— Quando subimos para ver as motos, já estava tudo depredado. A minha moto nem existia mais, estava toda queimada. O sentimento maior mesmo foi de impotência, por não conseguir fazer nada.

Em um primeiro momento, o seguro informou que não cobria casos de vandalismo. No entanto, após a repercussão do caso, com campanhas e cobranças nas redes sociais, a empresa acabou dando outra moto para Petterson.
— A seguradora no fim acabou me dando outra moto. O cantor Tico Santa Cruz me ajudou bastante fazendo uma live cobrando os mesmos, e acabaram me dando outra moto — disse Petterson.
Qual a situação dos torcedores do Peñarol presos no Rio?
Depois de horas de confusão com barraqueiros e outros trabalhadores que estavam na praia e, depois, com policiais militares, 283 torcedores do Peñarol foram detidos naquela tarde na praia do Recreio e conduzidos para duas delegacias.
No mesmo dia, a maioria dos uruguaios foi liberada e conduzida para fora do estado do Rio de Janeiro, enquanto 23 ficaram presos — sendo um deles menor de idade, que foi apreendido. Os torcedores foram autuados por crimes como roubo, incêndio, dano qualificado, resistência a prisão, associação criminosa e racismo, e ficaram presos em Bangu 8, no Complexo de Gericinó.
O Peñarol e, principalmente, o ex-presidente do clube e advogado Jorge Barrera deram suporte aos torcedores. No Rio de Janeiro, o Escritório Gomes & Benfica Advogados ainda atua na defesa dos uruguaios.
Poucos dias depois do incidente, no começo de novembro de 2024, dez torcedores já tiveram as prisões preventivas substituídas por medidas cautelares, mas foram proibidos de deixar o Rio de Janeiro.

Hoje, no entanto, por acordos de não persecução penal, absolvição ou revogação das medidas cautelares, 19 torcedores já voltaram para o Uruguai. Os últimos, que tiveram as medidas cautelares revogadas, seguem respondendo o processo no país vizinho e, de acordo com a defesa, participando de todos os atos processuais. Alguns destes torcedores seguem proibidos de frequentarem estádios de futebol no Uruguai.
Apenas quatro torcedores do Peñarol seguem no Rio de Janeiro. Três foram soltos e cumprem medidas cautelares, sem poderem deixar o Brasil, enquanto um segue preso. O uruguaio que segue preso foi condenado, em agosto passado, a seis anos e três meses de prisão pelos crimes de associação criminosa com uso de arma de fogo, corrupção de menores e incêndio. Este torcedor seria integrante da barra-brava (torcida organizada) do Peñarol. A defesa recorreu da condenação no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
Relembre a confusão com torcedores do Peñarol
A confusão teria começado após um torcedor do Peñarol ter furtado um celular dentro de um quiosque na praia do Recreio. Barraqueiros e funcionários do local reagiram, dando início ao caos na altura do posto 12. Quiosques e uma padaria foram saqueadas e depredados pelos uruguaios, que ainda atearam fogo em motos e depredaram carros.
A Polícia Militar foi acionada, mas os uruguaios resistiram e a confusão aumentou, saindo da praia e se espalhando pelas duas pistas que passam pele orla. Depois, um dos ônibus dos torcedores do Peñarol também foi depredado e incendiado por barraqueiros e trabalhadores dos quiosques.

PM muda local de concentração de torcidas estrangeiras
Após a confusão generalizada no Recreio, a Polícia Militar e demais órgãos de segurança do Rio de Janeiro mudaram o local de concentração de torcidas estrangeiras na cidade.
Naquela ocasião, o local foi escolhido para tentar “isolar” os torcedores do Peñarol, que, em 2019, entraram em confronto com torcedores do Flamengo em Copacabana e no Leme, na Zona Sul do Rio. Naquela ocasião, um torcedor rubro-negro morreu após uma pancada na cabeça.
Recentemente, em jogos com grande presença de torcidas estrangeiras, a Polícia Militar tem escolhido locais diferentes de concentração. Nas quartas de final da Copa Libertadores deste ano, a torcida do Estudiantes, da Argentina, ficou concentrada no Parque Olímpico, na Zona Oeste, antes da partida contra o Flamengo. Já na última quarta-feira (22), os torcedores do Racing tiveram como ponto de encontro o Terreirão do Samba, no Centro da cidade.



