Acompanhamos a torcida do Estudiantes no Rio e vimos o que serve de lição para o futuro
Trivela acompanhou a concentração dos argentinos antes do duelo com o Flamengo, no Maracanã, e mostra o que deu certo e o que deu errado
Há quase um ano, o Rio de Janeiro foi palco de cenas lamentáveis entre torcedores do Peñarol, forças de segurança e trabalhadores de quiosques da praia do Recreio. Nesta quinta-feira (18), no entanto, em mais um dia de jogo de Copa Libertadores na capital carioca, a situação foi muito diferente.
A Trivela acompanhou a concentração dos torcedores do Estudiantes na Barra Tijuca, Zona Oeste do Rio, — cerca de 25km do Maracanã — antes do duelo contra o Flamengo, pela partida de ida das quartas de final da Libertadores.
O local escolhido para a concentração da torcida argentina foi estratégico e se mostrou uma boa opção para os próximos jogos que contarem com a presença de torcidas sul-americanas no Rio de Janeiro: o Parque Olímpico.
Localizado na área que hoje é chamada de Barra Olímpica, o Parque é aberto, com algumas áreas de fácil isolamento por parte das forças de segurança. O local foi escolhido após trocas de informações entre o próprio Estudiantes e o Batalhão Especializado de Policiamento em Estádios (BEPE).
O incidente ocorrido com torcedores do Peñarol, em 2024, fez a própria diretoria do Estudiantes avaliar outro local para a concentração dos seus torcedores. O clube divulgou nas suas redes sociais o ponto de encontro, assim como um alerta sobre punições para casos de racismo e discriminação.
No entanto, a pouca presença de torcedores do Estudiantes no local na tarde e noite de quinta-feira também indica que o Parque Olímpico apresenta um problema significativo: a distância para a Zona Sul do Rio de Janeiro. Dos cerca de 2 mil torcedores que vieram ao Rio de Janeiro, apenas cerca de 400 foram até o Parque para acompanharem o comboio com escolta da Polícia Militar até o Maracanã.
Como muitos estrangeiros costumam se hospedar na Zona Sul da cidade, especialmente em bairros como Copacabana e Ipanema, ficou claro que a maioria dos torcedores do Estudiantes optou por se deslocar direto para o Maracanã, sem a escolta da Polícia Militar.
Mas a falta de relatos de casos de violência pela cidade também aponta para uma diferença no perfil dos torcedores do Estudiantes presentes no Rio de Janeiro. Em contato com a reportagem da Trivela, muitos ressaltaram o clima de “amizade” e “família” entre os argentinos.
— Não tivemos nenhum problema. Estudiantes de La Plata é assim [apontado para os torcedores reunidos]. Fomos bem tratados pelos torcedores do Flamengo, tiveram provocações, mas com tranquilidade. Estudiantes é uma equipe família, de irmandade — disse o argentino Ramiro à Trivela.
De fato, o que se viu na concentração dos torcedores argentinos foi um clima muito diferente das imagens deixadas, por exemplo, por torcedores do Peñarol, em 2024, e do pequeno caos gerado por torcedores da Universidad de Chile, em maio, no Nilton Santos.
Inclusive, algumas famílias, com mulheres e homens de mais idade estavam presentes na torcida do clube argentino. Um pequeno grupo da “Los Leales”, barra-brava do Estudiantes estava presente, mas também em clima de tranquilidade.

A concentração no Parque Olímpico começou às 15h e os argentinos chegaram aos poucos. A falta de sinalização do ponto exato de encontro fez alguns ficarem perdidos e causou uma verdadeira peregrinação pelo local, mas por volta das 17h todos já se encontravam no ponto de partida e da onde sairia a escolta da Polícia Militar. Lá, 20 vans e um ônibus aguardavam os torcedores que partiriam para o Maracanã.
Apesar da previsão inicial de deixar o Parque Olímpico às 17h, o comboio de argentinos só iniciou o deslocamento para o Maracanã às 19h. Até lá, os torcedores do Estudiantes, muitos equipados com coolers e isopores, ficaram bebendo, confraternizando, cantando e escutando músicas argentinas, principalmente cumbia. A loja de conveniência de um posto de gasolina serviu como base para a concentração.
Torcedores do Estudiantes mostram preocupação com a PM
Mesmo com o jogo no meio de semana, alguns torcedores do Estudiantes já estavam no Rio de Janeiro desde o último fim de semana. Hospedado na Zona Sul, Mauro foi um destes torcedores. Ele elogiou o clima de paz durante estes dias, mas ressaltou uma preocupação que costuma ser comum entre os torcedores sul-americanos: a polícia militar brasileira.
— Foi tranquilo na praia, clima bom, desfrutamos com amigos e os torcedores do Estudiantes. Até agora (antes do jogo), não tivemos problemas. Mas sabemos que a polícia é brava, temos que ter cuidado. Até quando levantamos os braços, te batem — disse Mauro.

— Tudo muito tranquilo. Estamos hospedados na Barra, mas também fomos em Copacabana e Ipanema e foi tudo muito tranquilo, não teve nenhum distúrbio. Esperamos que siga assim — afirmou o torcedor do Estudiantes.
Apesar da preocupação, tudo, de fato, seguiu tranquilo. Não foram registrados incidentes na concentração da torcida do Estudiantes e no Maracanã. No Parque Olímpico, quatro carros da Polícia Militar fizeram e alguns policiais à paisana fizeram a segurança e, depois, a escolta dos argentinos para o estádio. Na chegada ao estádio, os argentinos entraram direto para o setor visitante, praticamente sem ter contato com torcedores do Flamengo.
Como de praxe, os argentinos ficaram no Maracanã até cerca de uma hora após o apito final da vitória por 2 a 1 do Flamengo. Com o gol de Carillo nos acréscimos do jogo, os torcedores do Estudiantes ainda tiveram um final de noite de alívio e comemoração dentro do estádio, por seguirem vivos para o jogo de volta das quartas de final da Libertadores, na próxima quinta-feira (25). Dessa vez, na casa dos argentinos, em La Plata.



