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Tite no Cruzeiro: O que esperar em retorno, com influências da Seleção e semelhanças a Jardim

Depois de uma pausa de mais de um ano, técnico do Brasil nas duas últimas Copas do Mundo chega ao Cruzeiro com expectativa e dúvidas

Tite foi oficializado como o novo treinador do Cruzeiro nesta terça-feira (16). O ex-treinador da seleção brasileira nas duas últimas Copas do Mundo assinou contrato até o fim de 2026 e terá seu primeiro trabalho desde setembro do ano passado.

Com mais de um ano de pausa por motivos de saúde mental, Tite finalmente voltou ao futebol. Seu hiato anterior, com um ano de pausa em 2014 entre passagens pelo Corinthians, o transformaram como treinador. Agora, resta saber como ele deve retornar — e como o Cruzeiro pode jogar sob seu comando.

Quem foi o Tite pós-seleção brasileira no Flamengo

O trabalho do técnico do Brasil durante os dois ciclos de Copa do Mundo já é conhecido e consolidado. Tite quebrou recordes nas Eliminatórias e fez da Seleção a equipe mais coesa e competente das últimas décadas — apesar da “bronca” por não ter chegado ao título mundial.

A seleção brasileira se consolidou como um time que atacava majoritariamente em 3-2-5, com grande foco em passes curtos e manipulação dos adversários com combinações de amplitude, profundidade e jogadores habilidosos entrelinhas. A ideia era próxima a isso nas Copas de 2018 e 2022.

Houve variação no trabalho de Tite com o Brasil. Antes do Mundial da Rússia, era um time fluido, com trocas de posição, intensidade sem a bola e muita verticalidade. Já no título da Copa América de 2019, sem Neymar, teve um ataque móvel, Daniel Alves como lateral-meia e Arthur como um volante construtor dinâmico.

Tite é o novo técnico do Cruzeiro (Foto: Imago)

No Flamengo entre 2023 e 2024, o treinador misturou as duas coisas. Teve momentos de ataque posicional com atrações e ataque a espaços, mas também migrou em diversos momentos para um time que prefere aproximar diversos jogadores da bola.

Em um de seus últimos jogos à frente do clube carioca, na derrota para o Peñarol na Libertadores, isso ficou evidente. Um time com Bruno Henrique como centroavante e Léo Ortiz como volante, com constantes trocas de posição e muita movimentação para tentar quebrar o bloco baixo adversário.

Ao mesmo tempo, o Flamengo chegou a ter jogos em que controlou a partida mesmo sem a bola. Contra o Bahia, na vitória por 1 a 0 pelo Brasileirão de 2024, acabou o jogo com 37% de posse de bola, mas sofreu somente três chutes ao seu gol.

O 4-1-4-1 que Tite leva na bagagem desde o Corinthians seguiu na Seleção e também no Flamengo. E com diferentes disposições: Gerson já foi o “ponta” pela esquerda no Flamengo, Paquetá já fez o mesmo pela direita, bem como atacantes mais incisivos como Neymar, Vinicius Junior e Everton Cebolinha. Renato Augusto e Philippe Coutinho dividiam a mesma posição, bem como Paulinho e Arthur — jogadores completamente diferentes.

Fato é que Adenor manteve a consistência defensiva que sempre mostrou em seus principais trabalhos, com pressão forte, marcação por zona, compensações defensivas e o famoso “atacar defendendo”. E, com a bola, fazia experimentos a depender do adversário: ora paciente e controlador, ora vertical e “frenético”.

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Tite e Leonardo Jardim: o Cruzeiro mantém um padrão?

Existem semelhanças importantes entre os trabalhos de Tite e Leonardo Jardim. A Trivela analisou o trabalho do agora ex-técnico do Cruzeiro, que levou o time à liderança do Brasileirão com uma defesa sólida e ataques verticais bem organizados.

A defesa já é um ponto de convergência. Os dois treinadores tendem a preferir marcação por zona — um indício de que não haverá ruptura na filosofia já em um aspecto crucial da montagem do time. Mesmo que gostasse de defender em 4-1-4-1 tanto no Corinthians quanto na seleção brasileira, Tite teve momentos com o mesmo 4-4-2 defensivo de Jardim quando treinou o Flamengo.

Jardim, no entanto, parece menos flexível do que Tite na construção das jogadas de ataque. O Cruzeiro era um dos times mais diretos do Campeonato Brasileiro, com buscas constantes por lançamentos em profundidade e ultrapassagens desde a defesa. E o português montou times assim pelo menos desde o seu sucesso no Monaco, em passagem que começou em 2014.

Leonardo Jardim, técnico do Cruzeiro
Leonardo Jardim, técnico do Cruzeiro (Foto: Imago)

Tite também teve momentos de grande verticalidade em seus trabalhos, principalmente no Corinthians. Até mesmo o time campeão de 2015, que encantava na forma de trocar passes, buscava a profundidade com frequência. E a seleção brasileira também, ainda depois da Copa de 2018 — apesar de mais raros.

Com um Brasil grandemente superior aos adversários na maior parte do tempo e um Flamengo multicampeão com elenco estrelado, era natural que o treinador se encontrasse precisando montar times que vencessem defesas baixas e numerosas. Por isso seus times passaram a atacar de forma paciente, com influência do Jogo de Posição e dominando cada vez mais a bola.

Essa forma de atacar também é reflexo da forma de defender. Com uma equipe que “ataca defendendo”, geralmente há pressão pós-perda feroz e a bola é recuperada rapidamente — ou seja, o time naturalmente acaba tendo mais posse.

Como Tite pode montar o seu Cruzeiro

No Cruzeiro, no entanto, Tite tem um ponto de interrogação. É um time qualificado o suficiente para ser dominante e tem talento o suficiente para abusar de movimentações sem bola, troca de posição e jogo vertical.

É um time que tem Kaiki Bruno e William, laterais, como dois dos quatro maiores assistentes do elenco no Brasileirão (11 assistências somadas). Simboliza a capacidade ofensiva e a natureza de ultrapassagem da posição — algo que Tite já valorizou em trabalhos anteriores.

Matheus Pereira celebra gol pelo Cruzeiro
Matheus Pereira celebra gol pelo Cruzeiro (Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)

No meio-campo, o novo técnico terá muitas opções se quiser manter seu tradicional 4-1-4-1:

  • Pode ter Lucas Silva, Walace ou Lucas Romero como o primeiro volante, que historicamente em seus trabalhos é um jogador forte fisicamente, com grande capacidade de cobrir o entrelinhas e proteger a área dos meias habilidosos adversários que ocupam essa região;
  • Na dupla de meias por dentro, imagina-se que Matheus Pereira seguirá sendo o grande articulador, e pode ter ao seu lado diferentes tipos de meias, como o controlador Matheus Henrique, o dinâmico Christian ou até mesmo Lucas Silva, caso outro jogador mais físico roube seu lugar como volante;
  • Nas pontas, há grande margem para testes. Tite terá pontas agudos e clássicos, como Arroyo e Sinisterra, mas também pode usar meias pelos lados, como já fez com Gerson e Paquetá — o que abriria espaço para Matheus Pereira e o próprio Christian, que já atuou dessa forma.
  • No ataque, é difícil imaginar um cenário em que Kaio Jorge não seja seu camisa 9. Mais do que as polêmicas com Gabigol, puramente por estilo e rendimento.

A tendência é que Tite mantenha sua filosofia dos últimos trabalhos no Cruzeiro. Herda um trabalho de boas ideias e que as executou muito bem, principalmente com uma defesa forte e semelhante ao que ele próprio montaria. Com a bola, terá um elenco talentosos o suficiente para escolher a melhor forma de abordar jogos.

O hiato de um ano do treinador cria grande expectativa para o que pode acontecer na nova equipe. Fato é que, nos últimos 10 anos, Tite manteve uma média de aproveitamento superior aos 65% — um número muito positivo para o recorte temporal, e algo que poucos no futebol mundial conseguiram fazer.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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