Tim Vickery: Colômbia mostra o problema de gerenciar clubes de futebol como negócios
Sempre vai viver um conflito entre as duas lógicas, opina colunista da Trivela
Os incidentes na Colômbia na quinta-feira passada — o jogo entre Medellín e Flamengo que durou quatro minutos — são uma mancha no futebol em um lugar onde deveria ser muito melhor.
Pouco tempo atrás, a Colômbia ganhou o Sul-Americano Sub-17, vencendo o Brasil por 3 a 0 na semifinal e a Argentina por 4 a 0 na decisão. No ano passado, terminou o Mundial Sub-20 em terceiro lugar. O país tem talento — mas o campeonato local é muito decepcionante.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F05%2FColombia-ganhou-o-Sul-Americano-sub-17-deste-ano-scaled.jpg)
A Colômbia tem a maior população da América do Sul hispânica, e tem um povo apaixonado pelo futebol. Também, pelos padrões do continente, trata-se de um país bem descentralizado, com uma variedade de centros urbanos — e o futebol é o jogo da cidade.
Tem dois clubes grandes e tradicionais de Bogotá, dois de Medellín, dois de Cali, um de Barranquilla, um de Ibague (Tolima), mais outros das cidades menores mas importantes da zona cafetera.
Colômbia produz jogadores, mas futebol local sofre
Porque, então, o Campeonato Colombiano não é muito melhor? Parte da explicação é que os clubes no país são gerenciados como negócios. Os donos normalmente são grupos corporativos ou famílias ricas. Parece que não são muito bons para tocar a coisa — venderam mal os direitos para transmissão. Mas tem outros problemas, mais fundamentais quando se trata de futebol como negócios.
Foi exatamente esse o assunto que a gente (Allan Simon e eu) abordou na edição atual de “Futebol em Contexto”, onde falamos de 5 anos da lei SAF no Brasil.
Citei alguns trechos de “Soccernomics”, um livro referência na área escrito por Simon Kuper e Stefan Szymanski. Vou colocar dois trechos aqui;
“O futebol nem é grande negócio nem bom negócio. É até discutível se trata-se de negócios.” E, muito pertinente para o nosso debate, “quando pessoas de negócios tentam gerenciar um clube de futebol como um negócio, não é somente o futebol que sofre, mas o lado de negócios também.”
Bem-vindo ao mundo do Campeonato Colombiano!
Tem um elo na cadeia onde dá para fazer lucro — vender jogadores. O que, então, é a prioridade dos clubes colombianos? Justamente em vender os seus melhores jogadores.
Viveros é o artilheiro do Athletico Paranaense. Foi um destaque da fase de grupos da Libertadores no ano passado com o Atlético Nacional. Mas quando o clube foi eliminado da competição, dominando o São Paulo mas faltando gols, Viveros já estava na segunda divisão do Brasil.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F05%2FViveros-comemora-gol-pelo-Athletico-scaled.jpg)
Vender o jogador foi mais importante do que fazer progresso no campo. Os melhores da seleção Sub-20 do ano passado já foram vendidos — Villarreal no Cruzeiro, Barreira no Botafogo. A Colômbia sempre vendia para Argentina e México.
O crescimento do Brasil como mercado vem enfraquecendo mais ainda o campeonato local, que virou um desfile de veteranos — Rodallega (40 anos), centroavante do Santa Fe, Teo Gutierrez (41 no próximo domingo) na mesma função com o Junior Barranquilla, dois times disputando a versão atual da Libertadores.
E também tem o Medellín. Ano passado ficou no quase. Na Colômbia, jogam-se dois campeonatos por ano, mais uma copa. O Medellín estava na briga por tudo, e acabou levando nada. Iniciou o ano com uma carga de frustração — que só aumentou com os resultados deste ano.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F05%2FTorcedores-do-Independiente-Medellin-protestam-antes-de-jogo-contra-o-Flamengo-pela-Libertadores-scaled.jpg)
Apanhou por 4 a 1 contra o Flamengo no Maracanã. Obviamente não ia levar a Libertadores. E, no domingo antes do jogo em casa contra o Flamengo, nem conseguiu entrar nos primeiros oito no campeonato local e foi eliminado antes dos play-offs.
Aí o senhor Raul Giraldo, maior acionista do clube, entrou em campo e fez gestos que a torcida interpretou como uma grande falta de respeito. Não houve jeito. A torcida ficou tão revoltada, criando um clima tão hostil, que o jogo contra o Flamengo nem deveria ter iniciado. Portas fechadas seria a única maneira de levar a partida, pois a torcida foi para o estádio para atrapalhar.
Vamos supor que o senhor Giraldo estava gerenciando um verdadeiro negócio. Ele ia fazer o quê? Simples. Perdeu um segmento do mercado, ia reposicionar o seu produto (o tal de “rebranding”) para atrair um outro perfil de consumidor. Mas com o futebol, não dá. Não tem como.
Aquelas pessoas que pagam ingressos não são consumidores. Eles são o clube. Quem está mantendo viva a marca de Medellín não é o Sr. Raul Giraldo, são os torcedores — e aí sempre vai viver um conflito entre a lógica de negócios e a lógica do esporte.