Brasil

Como treinador, Tcheco quer ajudar a reerguer o Paraná, onde começou sua trajetória

Na arquibancada da Vila Capanema, técnico do Paraná concedeu entrevista exclusiva à Trivela

Anderson Simas Luciano, o Tcheco, é sincero ao dizer que está longe de ser um ídolo do Paraná. Mas foi no Tricolor da Vila que a trajetória do ex-meia, com passagens marcantes por Coritiba e Grêmio, iniciou. Do futsal, com 9 para 10 anos, do antigo clube Pinheiros, no ginásio da Kennedy, à participação em dois dos cinco consecutivos títulos estaduais do clube, em 1996 e 1997.

E é lá que o agora treinador de 48 anos tem o maior e mais nobre desafio de sua carreira fora das quatro linhas.

Nas arquibancadas de concreto do Estádio Durival Britto, a Vila Capanema, em Curitiba, Tcheco conversou longamente com a reportagem da Trivela. Falou principalmente sobre a missão de, como treinador do Paraná, não deixar o clube, literalmente, acabar.

Sem calendário nacional desde 2022, na segunda divisão estadual desde o ano passado, com dívidas que somadas chegam a R$ 174 milhões, e em recuperação judicial, o Tricolor da Vila precisa reagir com urgência, tanto desportivamente, quanto financeiramente, para sobreviver.

— É uma responsabilidade grande estar nesse posto, pelo desafio que o clube enfrenta. O desafio de não acabar, literalmente. Eu não quero ser dramático aqui nas minhas palavras, mas é exatamente isso que pode acontecer caso a gente não suba. A perspectiva, por parte dos torcedores, da diretoria, é enorme para que a gente consiga esse acesso.

— Acho que estamos diante do momento mais crucial do clube, porque as ações trabalhistas são grandes. Se a gente subir, a SAF entra e pode contornar um pouquinho mais essa questão. Não subindo, não entra a SAF, não tem como pagar as dívidas e pode ser que o clube realmente feche as portas. Então, me encontro em um desafio muito grande, mas me sinto muito preparado, muito tranquilo — garante Tcheco.

Apoio maciço da torcida do Paraná motiva, mas também traz responsabilidade

Até agora, o Paraná soma três vitórias e uma derrota em quatro jogos na segunda divisão do Campeonato Paranaense, no qual sequer conseguiu chegar às semifinais em 2023. Os três triunfos na atual edição foram como mandante, e contaram com presença maciça da torcida paranista, que fez linda festa na Ligga Arena, no Couto Pereira e na Vila Capanema.

Se, por um lado, a média de 25.441 torcedores traz grande apoio aos jogadores do Paraná, também aumenta a pressão e a responsabilidade sobre eles. Tcheco admite que a ansiedade tem sido um problema enfrentado por sua equipe nas partidas.

— Temos o Alexandre [Herbst], que trabalha a parte da psicologia, mas tentamos fazer também o nosso, da psicologia do futebol especificamente. Não que um seja melhor do que o outro, mas com a experiência que o futebol nos deu, conversamos. A gente esperava isso, porque a gente é o time grande do campeonato.

— Temos algumas responsabilidades, e uma delas é propor o jogo para que possamos desenvolver em gols. A maioria das equipes virçao fechadas, e vemos em um nível mais elevado, Série A, Série B, que é muito difícil furar. Imagina em uma segunda divisão — reflete Tcheco.

Justamente para evitar a precipitação em muitos momentos dos jogos, o Paraná montou um elenco experiente.

Estão no grupo jogadores como o goleiro Sidão, 41 anos, ex-Botafogo, São Paulo e Vasco; o lateral esquerdo Eltinho, 36 anos, ex-Coritiba e Londrina, e o atacante Cristiano, 37 anos, ex-Juventude e futebol japonês.

Na última quarta-feira (29), o Tricolor da Vila também anunciou a contratação do volante Bruno Silva, 37 anos, ex-Botafogo, Cruzeiro, Fluminense e Internacional.

Tcheco gosta de utilizar três zagueiros em suas equipes

Tcheco gosta de distribuir suas peças em campo no 3-5-2. Foi assim que teve o trabalho mais exitoso da ainda curta carreira de treinador, ao ser vice-campeão paranaense com o Cascavel, em 2021. Ele explica as vantagens de se posicionar dessa forma.

— É um esquema muito pouco utilizado no Brasil. Então, se é muito pouco utilizado no Brasil, certamente os clubes treinam muito pouco para jogar contra esse tipo de sistema. Eu acho que é um sistema muito ofensivo, ao contrário do que todos acham, ou a maioria acha. Muito pelo contrário, eu acho que ele é muito ofensivo.

— Você acaba tirando um homem de uma linha de quatro ou para colocar no meio de campo ou no ataque, aí depende das suas ideias de jogo. Está mais do que comprovado que é um esquema muito seguro, também defensivamente — analisa Tcheco, que cita como exemplos a Seleção Brasileira de Felipão, pentacampeã mundial em 2002; o Palmeiras de Abel Ferreira; e a Atalanta de Gasperini e o Bayer Leverkusen de Xabi Alonso, finalistas da última Liga Europa.

Tcheco já recebeu convite para ser auxiliar do Grêmio, mas só quer retornar como treinador

Será que essas ideias de Tcheco ainda serão vistas na elite do futebol brasileiro? No final de 2022, o atual treinador do Paraná foi convidado pelo presidente do Grêmio, Alberto Guerra, para ser auxiliar técnico do Tricolor Gaúcho, mas recusou. Se for para retornar ao clube em que teve trajetória marcante como jogador, de 2006 e 2009, quer que seja no comando da comissão técnica. Mas sabe que tem muito pela frente até chegar lá.

Tcheco jogou no Grêmio de 2006 a 2009. Foto: Divulgação/Grêmio FBPA

— Para chegar ao Grêmio, o cara tem que comer muita grama ainda, porque é um clube de muita responsabilidade, de muita história. Quem sabe, com as experiências que eu vou ganhando, se eu tiver paciência e Deus me abençoar, um dia eu posso aparecer por lá. Mas para isso eu tenho que fazer bons trabalhos. Porque você não vai chegar lá porque é um ex-jogador, né? Tem que chegar lá com trabalhos formalizados, com embasamento, que é o que estou tentando fazer.

Foto de Nícolas Wagner

Nícolas Wagner

Gaúcho, formado em jornalismo pela PUC-RS e especializado em análise de desempenho e mercado pelo Futebol Interativo. Antes da Trivela, passou pela Rádio Grenal e pela RDC TV. Também é coordenador de conteúdo da Rádio Índio Capilé.
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