Anatomia da queda: Os graves e diferentes erros que levaram o Sport ao rebaixamento vexatório
Goleada para o Flamengo decretou queda mais do que anunciada da equipe pernambucana para a Série B de 2026
A derrota do Sport para o Flamengo por 5 a 1 neste sábado (15), em partida atrasada da 12ª rodada do Campeonato Brasileiro, sacramentou matematicamente o rebaixamento da equipe pernambucana para a Série B.
Durante todo o Brasileirão de 2025, o único momento em que o torcedor do Sport pareceu estar próximo da sensação de saborear uma vitória foi quando se apegou às pequenas conquistas. “O time competiu“. E nada mais.
As palavras do penúltimo técnico a comandar o elenco, Daniel Paulista [demitido no fim de outubro], podem começar a resumir como foi a trajetória do clube pernambucano no Campeonato Brasileiro, durante a sua pior campanha na história até aqui, desde o início da era dos pontos corridos.
Mas não são suficientes para descrever o período agonizante na competição, em uma equipe que lutava, rodada a rodada, para respirar na tabela, sonhando com uma sequência dos três pontos que parece ter desaprendido a conquistar, visto que o time conseguiu a sua primeira vitória — das duas únicas na competição — contra o Grêmio, após 17 jogos.
Sport viveu drama inédito
Antes de entender como o Sport descarrilhou — apesar dos fortes investimentos –, é importante dizer que as palavras de consolo de Daniel Paulista, o terceiro técnico da equipe neste Brasileirão, não foram proferidas de forma aleatória.
Em meio à escalada de motivos e números para se envergonhar, com a chegada do técnico, a equipe saiu da estagnação e passou a alcançar o patamar de “pelo menos competiu” — o que não se converte em satisfação, já que os resultados não foram revertidos em uma sequência de vitórias (o que, desde a 21ª rodada, era somente o que importava), na tentativa de permanecer na primeira divisão.
Daniel Paulista conquistou 14 pontos em 18 jogos. Já Pepa, que esteve no início da competição, somou só dois em sete partidas. Por fim, António Oliveira, em sua passagem relâmpago, teve um mísero ponto em quatro rodadas.

Durante o Brasileirão, inclusive, o clube tentou corrigir a rota, passando por reformulação de elenco e dirigentes, com chegadas e saídas. Mudanças, inclusive, consideradas tardias. Além, claro, na falta de assertividade nas escolhas iniciais dos jogadores.
Isso se deu, de acordo com o diretor de futebol do Sport, Enrico Ambrigini, à formação de um elenco diferente do DNA do clube, com peças trazidas ainda pelo técnico Pepa e pela antiga gestão do departamento de futebol, que iniciaram a temporada.
— Às vezes, você aposta mais em intensidade, e a aposta do Sport não foi em intensidade, foi em posse de bola, em ser um protagonista do jogo, até alinhada ao primeiro treinador [Pepa]. É um estilo de jogo que traz resultado, mas (pode não acontecer) quando você coloca ele em um cenário de Sport, onde o DNA do clube às vezes não é de posse de bola –, declarou em entrevista ao “ge”.
Outro fator que incomodou na gestão de Pepa foi a falta de regularidade nas escalações. A mudança frequente na equipe titular retardou o entrosamento do grupo. Um dos exemplos foi o jogo da semifinal do Campeonato Pernambucano contra o Santa Cruz, ainda em março.
Na ocasião, o treinador trocou seis peças e modificou todos os setores do time, em comparação ao primeiro confronto entre os clubes, ainda na primeira fase do torceio.
Àquela época, o treinador ainda não havia repetido uma escalação sequer no ano. Os resultados surtiram efeito contra o Tricolor, mas o Rubro-Negro sofreu para superar o Retrô na final do estadual, decidida nos pênaltis.
Com mudanças ou não na escalação, o fato é que o Leão não conseguiu alcançar bons resultados no início do Brasileirão, resultando no fim do ciclo de Pepa em maio. Entretanto, o encontro de uma torcida em busca de resultados e uma direção de futebol com o objetivo de corrigir seus próprios erros chegou ao limite sob o comando de António Oliveira, escolhido para assumir a vaga deixada com a saída de Pepa.
A passagem relâmpago de Oliveira — que durou apenas quatro jogos, com uma goleada de 4 a 0 para o Cruzeiro logo na estreia — deu fim não somente ao trabalho do português à frente da equipe, mas também de toda a equipe de gestão do futebol. Até que veio a tão aguardada e pedida reestruturação.

Ambrogini chegou ao Sport em maio, em meio a uma reformulação do departamento de futebol. Com passagens por Cruzeiro, Figueirense, Real Valladolid, Inter de Limeira e Athletico, o profissional foi contratado para a “implementação de um modelo de gestão mais moderno, eficiente e sustentável”.
— O que é que a torcida mais valoriza em um clube? Não é posse de bola, mas sim dedicação, entrega, raça. Esse foi o nosso diagnóstico. A gente tentou trocar um pouco a posse de bola para um estilo mais de intensidade, correria, entrega. A gente melhorou esse grau de entrega no elenco e na nossa visão é o que vai fazer o Sport sair desse fundo do poço que a gente tá hoje –, contou Enrico ao “ge”, na época.
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Reestruturação e perda de espaço dos jogadores
O que seria pensado como um plano de investimento para o Sport ainda no começo da temporada, pode ser considerada agora como mais uma questão a ser resolvida. Um elenco que teve no começo do ano um investimento de aproximadamente R$ 60 milhões em 15 contratações termina o ano negociando a saída de vários jogadores.
A equipe rubro-negra iniciou 2025 com os reforços portugueses Gonçalo Paciência, João Silva e Sérgio Oliveira, que eram vistos como peças-chave para a disputa da Série A e foram trazidos ainda pelo técnico Pepa.
Mas o destino no clube foi diferente do esperado. Sem resultados positivos na competição nacional, Pepa foi demitido na sétima rodada. Mas o projeto luso ainda permaneceu. Desta vez, sob o comando de António Oliveira, que não passou de quatro jogos.
E se os atletas já haviam perdido espaço no time, com a chegada de Daniel Paulista, passaram a ter o desfecho encaminhado na Ilha do Retiro. Gonçalo Paciência chegou a entrar na lista de jogadores a deixar o clube, mas reverteu a situação e cumprirá o contrato com o rubro-negro, que segue até o final de 2025.

Pelo Leão, Paciência soma 20 jogos, cinco gols e uma assistência. A queda no rendimento, contudo, foi a motivação da perda de espaço no clube pernambucano, de acordo com o próprio Daniel Paulista.
Sérgio Oliveira, que custou R$ 15 milhões ao Sport no início da janela por dois anos de contrato, jogou apenas 17 partidas pelo Leão este ano, marcando um gol. O meia chegou a ficar um mês longe dos gramados após sofrer uma lesão ligamentar no tornozelo, mas voltou a atuar ainda no returno do Brasileirão.
Entre os portugueses, João Silva foi o que mais atuou. O zagueiro foi relacionado em 21 partidas, marcando um gol.
Aliás, a debandada não aconteceu unicamente do lado dos portugueses, mas em boa parte do time inicial. O Sport oficializou mais recentemente a rescisão de contrato com o zagueiro Antônio Carlos e o volante Du Queiroz.

Outro jogador que permaneceu no clube pernambucano é o zagueiro Lucas Cunha. Este, por sinal, chegou a ser colocado à despertar interesse do Novorizontino, mas as equipes não chegaram a um acordo e o jogador voltou a ser utilizado.
Cunha veio ao Recife emprestado pelo Red Bull Bragantino até o fim do ano, mas participou apenas de 11 jogos, sendo a última vez que vestiu a camisa do Sport no dia 1º de junho, na derrota para o Mirassol.
Ainda no setor defensivo, outra saída do Leão foi o zagueiro Matheus Baraka, emprestado ao Vitória das Tabocas até novembro de 2025 para a Série A2 do Estadual.
Saídas do Sport
- Thiago Couto (goleiro)
- Dalbert (lateral-esquerdo)
- Chico (zagueiro)
- Fabricio Domínguez (volante)
- Titi Ortíz (meia)
- Gustavo Maia (atacante)
- Arthur Sousa (centroavante)
- Carlos Alberto (atacante)
- Matheus Baraka (zagueiro)
- Antônio Carlos (zagueiro)
- Du Queiroz (volante)
— O que tinha sido feito antes, foi montado um time com uma ideia de perfil de jogo. Então, quando a gente chega, junto com o Daniel [Paulista], a gente identifica que precisava mudar o perfil alinhado também com quem iria chegar, que era o Daniel. Pensando nisso, a primeira decisão não é contratar novas pessoas ,e sim [identificar] quem que não se encaixa no perfil que a gente vai ter que mudar. Por isso, primeiro tirar para depois trazer. Todas as tomadas de decisão são alinhadas com o treinador –, explicou Enrico Ambrigini.
Novo perfil, retorno ao DNA do clube… sofrimento contínuo
A virada de chave para o novo perfil do elenco então parecia começar. Com a chegada dos profissionais remunerados, o diretor geral Enrico Ambrigini — ocupando um cargo inédito no clube — e o executivo de futebol Thiago Gasparino.
Os pouco mais de 90 dias da gestão trouxeram a mudança de perfil do futebol do clube, no embalo da pausa do Brasileirão para o Mundial de Clubes. Na ideia de gestão sustentável, 11 atletas deixaram o Sport por empréstimo, para a chegada de novos reforços que, por sinal, foram negociados em transações com valores mais baixos do que o início da temporada, como esperado.
Daniel Paulista buscava um elenco que “brigasse pela bola”, em outras palavras, que fosse mais combativo. E, inicialmente, o que se podia ver era o alinhamento entre o estilo do técnico e os jogadores.
E os resultados remetem, na verdade, ao que foi pontuado no início deste texto. Houve competitividade — incluindo a vitória contra o Grêmio, o empate contra o Bahia e Vitória— apesar dos resultados serem amargos com as chances desperdiçadas, especialmente nos jogos contra o Santos e o São Paulo, onde o clube pernambucano abriu o placar, mas cedeu o empate nos minutos finais dos jogos.

O Leão também amarga as limitações. E diante dos números, é sempre mais fácil entender a fase da equipe rubro-negra. No setor ofensivo, a artilharia da equipe é comandada por Pablo, com oito gols, sendo o último deles marcado no jogo contra o Flamengo em 15 de novembro, que encerrou uma seca que se arrastava desde o dia 3 de maio, na derrota para o Fluminense por 2 a 1.
Desde então, o protagonismo do setor ficou com Derik Lacerda, centroavante recém-chegado no Sport e que tem tido atuações de destaque no grupo, marcando seis tentos em 17 jogos. Mesmo assim, foi apenas uma passageira luz no fim do túnel. Na última quinta (6), o Leão anunciou que Derik não faz mais parte dos planos do elenco por “episódios de indisciplina”. Ele deve voltar ao Cuiabá, com quem ainda tem contrato.
Já na defesa, há de se destacar as atuações do goleiro Gabriel que, de fato, tem salvado o Leão de humilhações ainda maiores.
Mas apesar das tentativas, a engrenagem da equipe rubro-negra seguiu sem fluir mesmo na Ilha do Retiro. Agora, o Sport também acumula a pior campanha como mandante desde a fundação do clube, há 120 anos.
Até a 22ª rodada, foram doze jogos sem triunfos em solo pernambucano, contando com o Campeonato Brasileiro, Copa do Nordeste e Campeonato Pernambucano. Com o título de pior mandante do Brasileirão, o Sport venceu pela última vez em casa no dia 21 de setembro, contra o Corinthians, por 1 a 0.

E não bastasse toda a humilhação em campo, ainda coube a informação vexatória de que o elenco e comissão técnica tiveram os seus salários do mês de setembro atrasados. Parte da dívida foi quitada ao final de outubro.
As rodadas passaram, o fracasso do time se concretizava jogo após jogo, até o último suspiro foi dado por Daniel Paulista ao anunciar que o clube precisava começar a planejar 2026.
— Acho que o Sport precisa de um momento de reflexão. Sentar, analisar, ver o que foi feito de errado, e foi feito muita coisa errada, muita coisa que infelizmente não deu certo — declarou.
A afirmação dada na coletiva de imprensa após a partida contra o Internacional, rendeu uma convocatória pelo presidente Yuri Romão. Com o desgaste no cargo evidenciado pelo próprio treinador, no dia 28 de outubro, o Sport comunicou a saída do técnico no que pareceu ser um referência “ao último que ficar apaga a luz”.
A partir daí, era contagem regressiva para o fim da agonia, que já era tão aguardada para por fim em um ano vexatório, mas que serviu como exemplo para nunca mais se repetir.
Fora de campo, novas crises e o ponto final
Os resultados em campo refletiram um ano que, nas palavras do presidente Yuri Romão, foi um fiasco. Apesar das diferentes crises vividas pelo rubro-negro, o dirigente afirmou que a temporada não define todo o período em que ficou à frente do clube e que os resultados negativos se limitam ao campo.
— O ano foi um fiasco em relação ao futebol, exclusivamente ao futebol. Mas queria dizer que a gestão foi um livro e esse ano foi um capítulo do livro. A gente não pode simplesmente tirar o mérito de ter trazido o clube até aqui na situação que a gente encontrou no final de 2021, uma situação muito perigosa, à beira de uma intervenção –, declarou.
Ainda sobre as decisões, o presidente disse ter se sentido sozinho nas tomadas de decisões: “Fiquei muito só na presidência esse ano, no início, tomando decisões que poderiam ter sido mais conversadas com pessoas do meio”.

Temporada, inclusive, que somou diferentes problemas como atraso de salário e de pagamento de negociações de jogadores a clubes, além da venda de mando de campo. A última, com grande repercussão após o anúncio de que a partida contra o Flamengo, no dia 15 de novembro, seria realizada na Arena de Pernambuco.
— Se tem uma coisa que me arrependo foi ter assinado esse contrato, mas as vezes as circunstâncias nos levam. Os valores que foram ofertados (R$ 3 milhões), o fato do jogo ser na Arena, dentro de nossa cidade, e a queda de receita que a gente estava tendo, isso nos obrigou a fazê-lo. A negociação eu não participei, até porque era contra, mas fui obrigado a fazer. Os funcionários do clube, os diretores, ficaram à frente da negociação –, afirmou Romão.
E se a queda já era eminente há rodadas de distância, com o Leão na lanterna do Campeonato Brasileiro durante 31 rodadas, a pressão para que Yuri Romão deixasse a presidência do Sport crescia. Até que o momento chegou.
Na manhã da sexta-feira (14), na véspera da partida contra o Flamengo e do eminente rebaixamento, Yuri Romão afirmou que deixará o cargo ao fim do ano, no que desconsiderou o termo renúncia, mas a “antecipação de uma eleição”, após uma série de reuniões com lideranças rubro-negras.
— Nessa última reunião, a gente tomou uma decisão que o presidente Yuri Romão fica até o dia 31 de dezembro. Ao final desse período a gente chama a auditoria, E logo após a auditoria, convocamos uma eleição pra que se escolha um novo dirigente para tomar conta do Sport. Provavelmente será um mandato tampão e no final de 2026 novamente se faz a eleição para o triênio –, declarou.

Ao longo da semana, o dirigente chegou a ter uma reunião com ex-presidentes do clube, que buscavam de Romão um pedido de renúncia, o que não aconteceu. A nova eleição ainda não tem data para ocorrer.
— Não é renuncia, estou antecipando uma eleição e fico até a chegada de um novo presidente. O novo presidente vai receber o bastão da minha mão. Vou esperar o resultado da auditoria e a publicação do balanço (para deixar o cargo) –, declarou.
Questionado sobre as dívidas em aberto, que incluem rescisões contratuais e pagamentos de jogadores, como no caso do atraso do pagamento de parcelas pela compra de Ramon Menezes ao Atlético-GO, o presidente afirmou que tem como garantir receitas para finalizar o ano.
— Poderia muito bem largar aqui e dizer assim ‘toma que o filho é teu’. Isso não faço aqui e em canto nenhum. Tenho responsabilidade com o Sport. Temos como garantir receitas para finalizar o ano se não com 100% das coisas pagar, mas vou lutar que seja 100%, muito próximo disso, inclusive essas rescisões que a gente precisou fazer ao longo do ano –, comunicou.
E mesmo com o rebaixamento declarado e a saída anunciada, o planejamento para 2026 será iniciado com Romão ainda cargo. Ele reforçou ainda que será necessário uma “análise profunda”, mas reforçou que não há garantia de permanência nos atuais cargos.
— Sobre o departamento de futebol, diante do que a gente teve esse ano, que foi trágico, a grande verdade é essa, se faz necessária uma análise muito profunda. E a gente vê quem fica e quem sai. Tenho nesse final de semana o compromisso comigo mesmo e com o Sport de chamar algumas pessoas e fazer essa análise profunda. Não tem ninguém garantido. De cima a baixo, não tem ninguém garantido — pontuou.



