Brasil

Sobre viver e sobre vivendo com João Saldanha

*Já era tarde de um domingo bem do modorrento, quando parei numa farmácia no Leblon. Resfriado, olhava para o bar do outro lado da rua e lamentava um fim de semana de folga sem uma cervejinha, uma gotinha de uísque, nada. Quando espero para digitar a senha do cartão, vejo um moço de chapéu na mão, calça bege e camisa branca, sentado no botequinho fuleiro em frente. Ao seu redor, as pessoas pareciam não notá-lo, o que era de se estranhar. Afinal aquele que estava ali depois das 11 horas da noite, sozinho, era sempre o centro das atenções, o detentor das conversas de bar. Como a febre já tinha passado na madrugada de sexta para sábado, resolvi atravessar a rua.

Olhei de lado, fingi que estava procurando alguma coisa no bolso. Acho meu celular, tiro ele, acendo as luzes e… Não é possível que estivesse a menos de três metros de João Saldanha. Era muito delírio, mas não estava nem aí. Iria falar com ele no Leblon, no inferno, com febre, de cadeira de rodas, de todas as formas possíveis. O “iria” é muito particular desse que vos conta, porque a timidez ainda é minha marca natural. Mas não posso perder essa chance. Trocar dois dedos de prosa com esse homem era o que sempre sonhei na vida, e até, com certeza, quando atingir a eternidade, ao lado do cara.

Me aproximei mais, observei que ele acabara de abrir um uísque, a qual a marca ainda não tinha percebido. Mais perto, já convivendo com uma certa inquietude da parte do homem, percebi que era um Ballantines, cujo papelzinho da lacre estava à mostra no bolso da camisa.

– Senta aqui logo, meu amigo. Tá com medo de alguma coisa, porra?

É, era comigo mesmo. Aquele gaúcho, de Alegrete, que viu e viveu 700 anos em 73, que aprendeu a lutar desde a infância, dentro de casa, sob o signo dos maragatos e ximangos, que diz ter assistido a todos Mundiais enquanto estava vivo, que teve inúmeras brigas, fez amigos, admiradores, inimigos e invejosos em profusão. Era ele, era Saldanha que estava me esperando.

– Sei que não tá bebendo esses dias. Mas, eu também estou devagar, tô me cuidando. Aprendi com essa vida daqui… – me explica ele, parecendo lamentar os excessos, a boêmia característica da sua turma e dos seus hábitos. Embora, para uns, Saldanha não bebesse tanto assim, era evidente que se não fosse do fígado, seria do pulmão a causa da sua morte. Por sinal, bem observado…

– Olha, não sei nem o que tá acontecendo, mas quero um copo pra mim (faço um sinal para o carinha lá de dentro, que mais parecia o mesmo da farmácia do outro lado da rua. Ele logo me dá um copo e traz um cinzeiro junto).

No que Saldanha levanta a mão e faz que ele deixe apenas o copo para mim

– Te juro que não é ironia, mas já era hora de parar com cigarro, né… – levanto a bola pra ele.

– Vem cá, você mal me conhece, vai querer me regular agora – esbravejou de leve, como foi comum nos seus últimos anos de vida, em que demonstrava um certo mau humor, regulado a doses de egoísmo e mal criação.

Para quem não sabe, João Sem Medo, o João Saldanha, foi para a Copa da Itália quase escondido da família, que depois de ver todo esforço para ele ir ao Mundial, se resignou e apenas torceu para ele voltar, embora soubesse que poderia não ser da maneira como imaginava. Como se adivinhasse meu pensamento, ele derrama um pouco da bebida no chão e diz:

– Antes eu tivesse partido em 1982. Em que Copa de merda que eu fui morrer. A Itália deveria ser proibida de organizar um torneio desses. Futebol de lá morreu. No fundo mesmo, tirando a pizza, sobra pouca coisa naquela terra – disse João, sem que eu tirasse o olhar pedagógico com que bebia e escutava suas alfinetadas.

– Pois é, 1982 era uma Copa que queria ter assistido, se não estivesse nascendo… – tento descontrair para em seguida querer ouvi-lo um pouco sobre temas atuais – E o que você acha dessa que está por vir? O Brasil do Dunga te agrada? Logo ele que foi execrado em 90…

– Bom, para começar, o Dunga foi execrado, como você está dizendo, como qualquer jogador é escurraçado quando perde alguma coisa, tamanha covardia dos nossos dirigentes. Eu sempre achei que o mal do nosso futebol são os dirigentes, não os jogadores. Havelange é um exemplo disso. Confiei nele para depois  me trair por trás. Esse de agora, o Ricardo, também vai na mesma linha. Quem perde são eles, quem ganha sou eu. É fácil assim, não é? – suspende a falação Saldanha para observar a morena estonteante de 40 e poucos anos que passeia de short e top com um cachorrinho na nossa frente – Olha, se casei cinco vezes naquela época, hoje em dia já tava na minha décima mulher. E ai dela que saísse na rua desse jeito… – brincou, meio que a sério, o machista João Saldanha.

Uma das controversas e polêmicas facetas de Saldanha, um guerreiro do campo, da política, das ideias e dos ideais, era a teimosia dele. Chateado com a mulher, teve a estupidez de pedir a ela que preparasse um lanche antes de correr para o hospital. Detalhe: a moça em questão era esposa dele, estava grávida e tinha a bolsa estourada, onde dentro dela nasceria um Saldanha.

João brigou muito. Eduardo Viana, Havelange, Octávio Pinto Guimarães, Castor de Andrade, dirigentes partidários. João brigou com Manga (ex-goleiro dele mesmo no Botafogo), com Yustrich (ex-técnico do Flamengo), com dono de farmácia, com milico, João brigou até com presidente. E me espantava que até então ele não se irritara comigo nem com nada no bar.

– Mas eu não quero falar sobre Copa do Mundo, não. Chega. Assunto chato. Copa do Mundo é o grande balcão de negócios desse futebol de merda de hoje. Era aquilo tudo que eu sabia que ia acontecer e lutei para que não acontecesse. Agora vocês que se fodam vendo times cheios de brasileiros, argentinos e africanos jogando por Portugal, pela Holanda, pela França. É o cúmulo… – esbravejou ele.

– É, mas a verdade é que encanta toda uma geração ainda. Você sabe disso. Viu sua primeira Copa novinho, no Uruguai, né. Eu não vejo a hora de ver minha primeira Copa lá dentro.

– Ué, e tá esperando o quê para isso? – me pergunta, em tom de desafio. Sem me deixar responder, ante minha centelha de medo…

– Meu amigo, primeiro que ninguém disse que era fácil. Depois que, como dizia meu irmão Nelson Rodrigues, espero que você já tenha ouvido falar nele, sem coragem não se chupa nem um picolé – disse Saldanha, deturpando um pouco a frase rodriguiana, que em vez de coragem falava em “sem sorte” – Mas é o tipo de coisa que não vai cair do céu. Esteja certo disso. Vai fundo, não deu, vida que segue – disse Saldanha, olhando fundo nos meus olhos, enquanto não entortava o pescoço para observar outras coroas que passeavam àquela hora, tarde da noite no Leblon.

Enquanto pensava nas palavras dele, prestava atenção nos sapatos, impecavelmente engraxados, parecendo que acabaram de sair de uma tinturaria. Para tentar mudar de assunto, lembrei a ele que hoje, na verdade no dia seguinte ao nosso encontro, seria inaugurado uma estátua em homenagem a ele, o grande cronista, jornalista, guerrilheiro, líder, técnico de futebol, enfim, a grande personalidade dessa vida que foi João Saldanha.

– Ô, garoto, tu quer saber mais que eu, porra? É claro que tô sabendo dessa frescurada. Grandes merdas, me colocam lá e depois vem um desses babacas e pixam a minha figura lá… Sei até que esse bostão do presidente de vocês vai lá falar umas besteiras, vai dizer que me conhecia, que isso, aquilo. Vou te contar, olha, se tivesse por aí, o caldo ia engrossar. Como é que pode, o cara tem o Brasil na mão, a simpatia e a reverência de todo o mundo e se contenta com essa coisa de eleger sucessor, de mudar uma coisinha ali, outra aqui. Não se fazem mais socialistas como antigamente – disse o militante eterno do Partido Comunista Brasileiro, de quem foi fiel soldado, em diversas missões profissionais, seja como técnico, como profissional de imprensa ou, digamos, profissional liberal não remunerado.

Saldanha viveu a vida que quis. De família rica, tradicional no Sul, veio parar na Zona Sul, a de maior poder aquisitivo da ex-capital federal. No entanto, escolheu o caminho do socialismo, das camadas populares, justamente o público que mais se identificou e foi ovacionado em toda sua carreira na crônica esportiva. Dizem que, para ganhar reconhecimento no Partidão – onde a maioria era de origem proletária -, teve que se casar com uma mulher mais pobre e “virar um deles”.

– Hoje é tudo uma pouca vergonha. A política e o futebol é tudo uma baixaria só. Mas veja só: acompanho essa merda toda lá de cima. E fico puto da vida ao ver que os times são todos vendidos por qualquer patrocinador que ofereça pouco mais de mil reais em um mês. É nome no short, na meia, no suvaco. Porra, daqui a pouco vai ter marca de camisinha pendurada na bunda dos caras. É ridículo…

De uma hora pra outra, Saldanha parou de falar. Olhou pra mim, deixou umas moedas de cruzado na minha mão e se levantou.

– Vai aonde, João? – perguntei com a maior naturalidade do mundo.

– Vou pra vida, garoto. E levanta daí – me falou ele jogando as minhas moedas no chão. Não entendi nada, mas obedeci antes dele completar. – Vai pra casa, vai trabalhar, vai namorar, sei lá. Vai viver. Sem medo.
Andando devagar, João foi se afastando até fazer sinal para um táxi. De dentro do carro, ele me saldou com a mão na altura da testa, como de costume. Para mim, foi pela última e única vez.

* Esse texto foi publicado no Yougol, em antigo endereço, dias antes do meu aniversário, em setembro de 2010. Hoje, João faria 95 anos.

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Equipe Trivela

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