Mesmo com percalços, Grêmio fez valer a sua força e conseguiu o retorno imediato à elite do Brasileirão
Com os destaques de Diego Souza e do garoto Bitello, e o retorno de Renato Gaúcho, o Grêmio selou o acesso novamente nos Aflitos, contra o Náutico - dessa vez, sem batalha
Quando um clube grande é rebaixado, a explicação é quase um formulário. Crise financeira? Sim. Crise política? Sim. Elenco ruim? Sim. Muitos técnicos? Sim. O rebaixamento do Grêmio foi difícil de explicar porque não cumpriu a maioria desses requisitos – com exceção de trocas de comando. Era um time relativamente qualificado, relativamente saudável financeiramente, sem grandes problemas de bastidores. E caiu mesmo assim. Essas condições pelo menos permitiram que retornasse na primeira oportunidade, mesmo sem encantar a sua torcida, após vencer o Náutico por 3 a 0 fora de casa. Mais uma vez, o acesso veio nos Aflitos, mas sem a necessidade de uma batalha.
Em uma Série B que indicou o acesso de camisas pesadas muito cedo, antes de ficar um pouquinho mais bagunçada, o Grêmio foi o segundo clube a garantir vaga na primeira divisão, após o Cruzeiro. A campanha foi correta, com uma defesa sólida (segunda melhor), poucas derrotas (sete, uma a mais que a Raposa) e 16 vitórias. Não passeou como o clube mineiro, mas cumpriu a obrigação de um gigante que disputou a segunda divisão com uma folha salarial estimada em R$ 10 milhões, a maior da competição. Como disse o próprio técnico Renato Gaúcho, subir era o mínimo.
A queda do Grêmio começou com a saída de Portaluppi, ao fim natural de um ciclo muito vitorioso que dava sinais claros de desgaste. Tamanho era seu comando do departamento de futebol, porém, que o clube ficou sem rumo, e as tentativas de sucedê-lo (Tiago Nunes e Felipão antes do bombeiro Vagner Mancini) não funcionaram. Mancini ainda foi mantido no cargo, mas não passou de fevereiro. A aposta para comandar a temporada na Série B foi outro aceno ao passado, com Roger Machado, que tentava reconstruir a imagem de técnico promissor que sofreu golpes fortes recentemente.
No fim, sofreu mais um. Roger Machado conseguiu o título do Campeonato Gaúcho e estava na zona de acesso da Série B, com um aproveitamento de pontos razoável. A demissão chegou no começo de setembro após a primeira sequência realmente negativa, com três derrotas e um empate em quatro rodadas. O desempenho não era dos mais agradáveis. O Grêmio decidiu repetir a movimentação que o levou a um período de muitas glórias. Como em 2016, contratou Renato Gaúcho para o lugar de Roger Machado, promovendo o retorno da lenda pouco mais de um ano depois de sua saída, junto com uma reformulação mais profunda do departamento de futebol.
Renato estreou ganhando o Vasco, por 2 a 1, e conduziu as últimas voltas da Série B na ponta dos dedos. Também derrotou Sport e CSA, perdeu de Novorizontino e Sampaio Corrêa, empatou com Londrina e Bahia, antes de decretar o acesso, com duas rodadas de antecedência, no mesmo palco do épico de 2005. “Foi discreta (a comemoração). Não fizemos nada mais que nossa obrigação. O Grêmio devia estar junto com o Cruzeiro, não aconteceu, foi sofrido”, disse Renato, ainda no gramado dos Aflitos, em entrevista à RBS. “Estou arrepiado, imagina o torcedor. Ele vem sofrendo há um ano e pouco. Infelizmente, houve a queda, mas agora o Grêmio voltou ao seu devido lugar”.
O Grêmio terá eleições presidenciais em novembro que serão importantes para o futuro de Renato. Duas chapas foram inscritas: a de Odorico Roman, vice-presidente de Fabio Koff e Romildo Bozan; e a de Alberto Guerra, ex-vice-presidente e diretor de futebol. “Chega de colocarmos amadores no clube, essa que é a realidade. Nosso presidente tem que colocar a mão na massa, seja quem for, e fazer um time forte, que nosso torcedor não sofra mais e que possa voltar a conquistar títulos”, completou Renato.
Em campo, o Grêmio teve a permanência de jogadores tarimbados, como Geromel, Walter Kannemann, Diogo Barbosa, Thiago Santos e, principalmente, Diego Souza, um dos vice-artilheiros da Série B, com 14 gols e provavelmente o principal nome do acesso. Em junho, a campanha ganhou um impulso com a repatriação de Lucas Leiva, que havia se projetado, 15 anos atrás, em outro momento de reconstrução do clube, e retornou para ajudar nesta tentativa de retornar à elite. Contribuiu em 16 jogos, além de toda sua liderança, experiência e identificação com a camisa tricolor.
A grande novidade foi o garoto Bitello, destaque da vitória sobre o Náutico, com dois gols. O garoto de 22 anos trocou o time principal do Cascavel pelas categorias de base do Grêmio e teve seu primeiro ano completo como profissional no clube gaúcho, após estrear rapidamente em 2021. Ganhou espaço com Roger Machado, primeiro como volante, depois avançado no meio-campo. Foi eleito o craque do Campeonato Gaúcho e manteve a boa forma na Série B, na qual registrou oito gols e três assistências, participando de 34 das 36 rodadas disputadas até agora.
A queda do Grêmio pode ter sido apenas um acidente. O retorno imediato, aproveitando a superioridade financeira, é um indício forte. A campanha não foi perfeita, e ainda há questões importantes para o seu curto prazo que precisam ser respondidas, como o comando técnico e a presidência. Mas, após o sofrimento do ano passado, o torcedor poderá pelo menos passar os próximos meses aliviado e certo de que estará de volta ao Campeonato Brasileiro.



