Brasileirão Série B

Cortina de fumaça? Vitória votou mudança no estatuto em meio a possível troca de nome

No espaço de um dia, Vitória anunciou de possível troca de nome e convocação de sócios para votação em mudanças importantes pontos do estatuto - tratada como irregular pela oposição

O título da segunda divisão do Campeonato Brasileiro e o consequente acesso à Série A parecia ser a última notícia bombástica envolvendo o Vitória em 2023. Mas o futebol brasileiro é uma caixinha de surpresas e, na última sexta-feira (1), o clube baiano anunciou a abertura de uma votação entre os sócios torcedores para decidir se o nome da equipe passará a ser “Fatal Model Vitória”, em alusão ao patrocinador, uma site de anúncios de acompanhantes, que estampa a camisa rubro-negra desde fevereiro desse ano.

No dia seguinte, sábado (2), aconteceu uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) para trazer uma votação ainda mais importante, referente à grandes mudanças no estatuto do Leão – a oposição trata como irregular e escondidas pelo anúncio da troca de nome como uma “cortina de fumaça”.

No fim, as trocas no estatuto do Vitória foram aprovadas com 60,6% dos 193 sócios torcedores presentes (117 votos a favor e 76 contra). Mas por que as mudanças são tratadas como irregulares pela oposição e quais pontos foram alterados? A reportagem da Trivela entrou em contato com pessoas ligadas ao Vitória para entender essa história.

Quais foram as mudanças aprovadas no estatuto do Leão?

No total, 12 artigos do Vitória foram alterados, com diversas mudanças nos parágrafos. Dentre as principais e mais questionadas está no art. 53, inciso V, onde antes o Conselho Deliberativo (CD) fiscalizava, acompanhava e examinava a gestão das finanças do clube, contrato com empresas, dentre outras questões orçamentárias. Agora, no entanto, o CD tem menos poder, pois necessita de autorizações da diretoria do clube para fiscalizar contratos e outros documentos.

Como era o Art. 53:

Art. 53. Compete ao Conselho Deliberativo:

V – fiscalizar a gestão, acompanhando e examinando a qualquer tempo a execução orçamentária, o movimento financeiro, documentos, atos celebrados ou em vias de celebração.

Como é agora o Art. 53:

V – Monitorar a gestão, acompanhando e examinando a qualquer tempo a execução orçamentária, o movimento financeiro, solicitar documentos, atos e contratos celebrados.

Há ainda muitas mudanças em relação à transparência referentes às finanças do clube, restringindo ou colocando “entraves” para o envio de documentos que enviem essas informações. Para ler todas as mudanças no estatuto do Vitória, clique aqui.

O artigo 108 também é motivo para discussão e reclamações dentre os sócios. No caso, com a aprovação, agora os funcionários que recebem alguma remuneração do Vitória podem ser eleitos para o Conselho Deliberativo – antes, era proibido em qualquer setor do clube.

– Tem menos de 18 meses que esse estatuto já foi alterado e adequado. Você não precisa nenhuma alteração agora, não tem nada de urgente no estatuto para que o Vitória jogue no ano que vem. Estão tentando nessa alteração do estatuto derrubar esses controles para que não tenham que prestar conta para ninguém. Só que eles não querem fazer esse debate. As claras, não estão trazendo isso pro público em geral – disse à Trivela uma fonte que faz parte do Conselho Deliberativo do Vitória.

– As consequências da reforma de estatuto não vão ficar só para o Fabio Mota [presidente do clube], para a gestão de Fabio Mota, vão ficar para o resto da história do Vitória. Então, ao invés de estarem se debatendo ponto a ponto e explicando por que querem afrouxar os controles, eles só estão dizendo que essas mudanças são necessárias, que os sócios confiem neles, compareçam à Assembleia e votem lá – emendou.

Em entrevista à Trivela, o presidente da Comissão de Adequação do Estatuto, Edgar Silva Neto, tratou apenas das mudanças referentes ao Conselho Fiscal, que, segundo o executivo, agora executa apenas as funções previstas no conceito do que é um órgão fiscalizador e não entra nas competência do Deliberativo e do Gestor.

– Na realidade não houve afrouxamento de controle, houve apenas uma adequação técnica. […] Apenas que o Conselho Fiscal passou a ser, efetivamente, o Conselho Fiscal. E não mais um Conselho que não tenha essa competência para decidir sobre os negócios prévios. Houve um ajuste para a tecnicidade do Estatuto – disse Edgar.

A Trivela entrou em contato com o presidente Fábio Mota, dono da gestão que propôs as mudanças no estatuto, mas o mandatário recomendou contato com o presidente do Conselho Deliberativo, que também não conseguiu atender à reportagem.

Fábio Mota, presidente do Vitória(Foto: Victor Ferreira/ECV)

Tempo de discussão não foi adequado, segundo torcedores contrários às mudanças

Antes mesmo da aprovação, a primeira contestação de alguns sócios foi o tempo de aprovação das mudanças no estatuto pela Comissão de Adequação do Estatuto, acontecida em 16 de novembro, até a votação do último sábado (2) – período de menos de três semanas. Para eles, deveriam haver um período maior de discussão porque as mudanças são sensíveis demais para serem debatidas em um curto tempo.

Ainda citam que a reunião não contou com o quórum estatutário mínimo necessário, levando em contato o artigo 39 do estatuto do Vitória, que prevê que uma AGE será convocada apenas por requerimento de um quinto dos sócios adimplentes e com direito a voto. No caso, a oposição alega que deveriam ser 76 votos (foram 66).

– O rito, o processo previsto em estatuto, não foi sendo seguido. Muitas pessoas que fazem parte da Comissão [de Adequação do Estatuto] alegam que não fizeram parte dessas discussões, a proposição veio da diretoria, foi encaminhada o início da reforma de estatuto, que passa por várias etapas, em uma reunião que não tinha o quórum mínimo, então não poderia acontecer – detalhou o membro do CD do Vitória.

Edgar Silva Neto defendeu a velocidade do caso, pois, no próximo ano, o clube jogará a primeira divisão e precisava rever alguns pontos do estatuto – sem citar, especificamente, qual.

– O que acontece é que a maioria da oposição sabe, mas parece esquecer, é que nós estamos às véspera de final do ano. Passando para uma mudança muito grande de patamar, mudando de série B para série A, com uma série de situações que precisavam ser ajustadas ainda no ano de 2023 para que o clube pudesse entrar no exercício de 2024 – explicou Egdar, emendando:

– Por conta das regras estatutárias que tínhamos [antes], realmente precisava que as coisas fossem feitas com velocidade, mas foram feitas com total transparência, porque todo o conteúdo, o objeto de modificação, ele partiu de uma comissão múltipla composta por membros da situação e da oposição – concluiu o presidente da Comissão de Adequação do Estatuto.

Essa velocidade também pega carona com o título nacional do clube baiano, conquistado em 14 de novembro. Em clubes associativos, é normal que as votações fiquem mais “fáceis” para situação quando as coisas dão certo dentro de campo.

A ata da reunião da Comissão de Adequação do Estatuto só foi divulgada 23 de novembro. Na última quinta-feira (30/11), aconteceu a oportunidade para enfim os pontos serem debatidos, mas mal houve discussão na reunião.

– Na reunião de quinta [30/11], que seria para apreciar os destaques dos conselheiros, não teve discussão quase nenhuma sobre os pontos, porque o presidente do Conselho Deliberativo, Nilton Almeida, é aliado de primeira linha do Fabio Mota [presidente do Vitória]. Ele [Nilton] não permite que essa discussão se dê dentro do Conselho de Liberativo, ou seja, não há interesse nenhum em debater essas questões – completou a fonte.

A velocidade para se tratar o tema também se deu no envio da proposta aos sócios, que receberam os pontos a serem alterados no estatuto apenas um dia antes da AGE, justamente quando foi divulgado o possível “Fatal Model Vitória”.

Outro ponto para o questionamento da oposição é que o estatuto já teve uma grande troca em julho de 2022 e não havia necessidade eminente de novas alterações. Na ocasião, outrora um clube de pouquíssimo sócios e, consequentemente, pouca representatividade, o Vitória tornou-se um clube mais aberto, de maior transparência e participação.

Os opositores querem entrar com um processo de ajuização da AGE do último sábado (2), fato que pode anular as mudanças no estatuto.

Entenda o “Fatal Model Vitória”

A votação para possível troca de nome acontece pela plataforma do sócio torcedor “Sou Mais Vitória”, a partir de 1º até 10 de dezembro. Também acontecerá uma petição online para os torcedores que não sejam sócios participam da eleição – a ver como será a fiscalização disso, porque fãs de outros clubes podem tentar atrapalhar o que realmente a torcida do Leão quer.

Além do nome, os sócios do Leão também vão definir se o Estádio Manoel Barradas, o Barradão, ganhará o nome da empresa de acompanhantes.

Caso se torne Fatal Model Vitória, o clube receberia R$ 200 milhões do patrocinador, em acordo válido por 10 anos. Se for apenas o naming rights do estádio, serão R$ 100 milhões, pelo mesmo período. Vale destacar que escudo, uniforme e cores do Leão não sofrerão alterações e os valores não são acumulativos, ou seja, mesmo que se aprove os dois, não serão investidos R$ 300 milhões.

– É apenas uma enquete. Ninguém está aqui para vender o nome do Vitória. Quando o Vitória recebe uma proposta como essa, você tem a obrigação de tornar pública, de ouvir as pessoas. Cada um tem sua convicção. Recebemos duas propostas: uma para vender o nome do estádio por dez anos, e outra para o nome do clube. Estamos simplesmente fazendo uma enquete para ouvir o que o torcedor acha disso – disse Fábio Mota, presidente do Vitória, em entrevista coletiva.

O nome do Barradão poderia ser alterado pela diretoria rubro-negra por conta dos naming rights, mas para o nome do Vitória é uma situação mais complicada. Se aprovado pelo sócio, a mudança iria ainda para discussão no Conselho Deliberativo e passaria por votação em Assembleia Geral Extraordinária (AGE).

Caso ambas as propostas sejam recusadas, nada irá mudar no acordo comercial entre a empresa de acompanhantes e o clube, que seguirão como parceiros.

A assessoria de imprensa da Fatal Model divulgou release à imprensa com declarações da diretora de comunicação da empresa, Nina Sag. Na fala, a executiva detalhou como a patrocinada tem objetivo de ampliar a parceria com o clube e torná-lo mais forte nos próximos anos. Ela definiu a possível troca de nome do Vitória como “disruptivo no futebol brasileiro”.

– Nossa proposta tem o objetivo de tornar o Vitória ainda mais forte para as próximas temporadas e ampliar a parceria que já é um sucesso. Seja qual for a proposta escolhida, ela será destinada de maneira integral para o departamento de futebol do clube, possibilitando melhorias na infraestrutura, capacitação de profissionais e contratação de jogadores. A presença de uma marca no nome de um clube é algo disruptivo no futebol brasileiro. Queremos que o torcedor faça parte dessa ação tão importante – afirmou a executiva do Fatal Model.

A parceria Fatal Model e Vitória começou em fevereiro desse ano, inicialmente como patrocínio das mangas do clube. Em julho, o vínculo foi renovado até o fim de 2024 e passou a estampar a parte abaixo do patrocinador master. Desde o início, o acordou rendeu críticas de torcedores, imprensa e pessoas ligadas ao clube, que defendeu publicamente defendeu a marca e até criou uma campanha “respeito, segurança e dignidade” por ataques sofridos contra a patrocinadora. O episódio de troca de nome também rendeu mais repercussão negativa nas redes sociais.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de eSports no The Clutch. Além disso, atuou como assessor de imprensa no setor público e privado.
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