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Paranoia contra comunistas e mais: Os bastidores da curiosa viagem da Seleção à URSS

Compras em Moscou, demanda alta por ingressos e Pelé 'gordinho' marcaram passagem brasileira na antiga União Soviética

O mundo vivia intensamente a Guerra Fria quando a seleção brasileira fez sua primeira visita à União Soviética, em 1965. Um jogo amistoso aconteceu em Moscou, no estádio Lênin, com lotação máxima e apelo “sem precedentes” para a época, segundo o governo soviético. 

Há vídeos sobre o jogo em si na internet, mas poucos ou quase nenhum detalhe sobre a visita da Seleção bicampeã do mundo (1958 e 1962) a um país do bloco socialista da Guerra Fria. 

Os registros se perderam com a imprensa da época e o foco sempre foi mais voltado para a segunda partida entre os dois times naquele ano, disputada meses depois, no Maracanã, e que também atraiu mais apelo midiático por ter reunido finalmente Pelé e Yashin, basicamente, os melhores jogadores de linha e do gol na época, respectivamente. 

Através de jornais da época, a Trivela conta as curiosidades daquela inusitada viagem, que mostram detalhes de como Moscou se preparava para receber os bicampeões do mundo e como a população aguardava ansiosamente para assistir in loco Pelé, Garrincha, Gérson, Jairzinho e companhia. 

Seleção: Comprinhas em Moscou e demanda sem precedentes por ingressos

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Capa da sessão de esportes do jornal ‘O Diário’, de São Paulo, em 1965

Era 2 julho de 1965 quando a Seleção desembarcou em Moscou, sob “condições psicológicas negativas”, segundo o “Jornal dos Sports”. Uma tempestade violenta entre Leningrado e Moscou teria deixado a delegação brasileira apavorada. 

Mas chegando lá, a recepção no Aeroporto Internacional de Sheremetyevo foi surpreendente. Além de Yashin ter ido recepcionar a delegação, uma popular artista italiana apareceu por lá, já que estava em turnê no país e não poderia deixar passar a chance de conhecer Pelé e Garrincha. 

“A surpresa maior dos jogadores foi a presença da cantora italiana Rita Pavone — em excursão na Rússia — que foi ao aeroporto levar flores para Pelé e Garrincha”, conta este outro trecho do “Jornal do Brasil”. 

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A delegação brasileira em Moscou precisava de um guia que falasse português e acabou encontrando de forma improvável. Um estudante por lá radicado, de nome Luís Bueno, tentava assistir aos treinos e ficar perto da delegação, o que era sempre negado. Mas foi ele quem levou os brasileiros ao Magazine Mundo das Crianças, descrito como um bazar de bugigangas russo pela reportagem do “Jornal do Brasil”. 

“Os jogadores estiveram durante muito tempo no Magazine Mundo das Crianças, mas não compraram nada, com exceção de Flávio (Minuano), que trouxe bonecas, roupas para bonecas e miniaturas de máquina de costura”, contava o JB. “Gérson, no caminho de volta, lamentava ter perdido uma boa manhã de sono, pois não achou nada que despertasse o seu interesse”, completou a reportagem.

Se a viagem não animava muito os jogadores até aquele momento, a expectativa dos torcedores em Moscou era enorme. Os 100 mil ingressos disponibilizados esgotaram rapidamente e as autoridades locais afirmaram que, para atender à demanda, seria necessária que a capacidade do estádio fosse quadruplicada. Foi uma procura “sem precedentes”. 

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Estádio Lênin, em 1980, durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Verão de 1980 | Foto: Imago

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Guerra Fria alimentava paranoias nos brasileiros

Moscou era o último destino de uma longa viagem para amistosos da Seleção. A imprensa da época criticou bastante a logística elaborada pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD), já que antes, o time esteve em três países diferentes em pouco mais de 20 dias, em uma época em que a aviação era muito menos desenvolvida. Antes da União Soviética em território russo, o Brasil foi à Argélia (vitória por 3 a 0), Portugal (empate por 0 a 0) e Suécia (vitória por 2 a 1) visitar os anfitriões. 

O excesso de viagens para diferentes países e continentes irritou a imprensa da época, como mostra esse trecho do “Jornal do Brasil”. “Apenas o médico Hilton Gosling e o assessor José de Almeida Filho sabem bem o que estão fazendo. O delegado Alfredo Curvelo e o tesoureiro Luís Ferreira Soares são inteiramente inúteis”, criticou o periódico. 

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O tesoureiro da delegação, inclusive, estava paranoico com medo dos russos.

O clima, claro, era reflexo da tensão da Guerra Fria. “O último (Luís Ferreira Soares) tem tanto pavor dos russos que dorme com a cama atravessada na porta do quarto, a fim de impedir uma invasão comunista”, denunciou o jornal. “O tesoureiro Soares, além de temer a invasão do seu quarto, reclama de tudo e de todos os russos, como se estivesse em seu país, deixando a impressão de que vai exigir a qualquer momento que lhe sirvam feijoada”, completou. 

Pelé “gordinho” foi capítulo à parte na viagem

Conhecido, entre muitas coisas, como um atleta fisicamente à frente de seu tempo, Pelé foi alvo de críticas por parte do “Jornal do Brasil”.

“Pelé se descuidou até mesmo com sua forma física. Já está com 77 quilos — três quilos e meio acima do seu peso normal”, diz um trecho da reportagem.

Um dia antes do jogo, o camisa 10 da Seleção treinou com um macacão de lã, o que segundo o jornal, foi uma estratégia — comum na época — para que Pelé perdesse peso mais rápido. 

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O momento de descuido citado faria parte de um desencanto do craque com a sua atual fase. Na mesma reportagem, é citada a “estafa espiritual” que estaria preocupando a comissão técnica, jogadores e jornalistas. “A verdade é que Pelé não suporta mais ser apontado, até mesmo pelos membros da Comissão Técnica, como a ‘salvação da pátria’”, escreveu o JB. 

“Ultimamente, não se vê mais o sorriso nos lábios de Pelé. Não se ouve mais uma piada sua mexendo com o companheiro e até raramente se pode vê-lo a não ser nas horas das refeições ou no campo do treino”. 

Perguntado se estava animado com a excursão e sobre seu ano na Seleção, Pelé respondeu que “estava doido para que ela acabe, a fim de rever sua noiva”. Na época, ele tinha um relacionamento com Rosemeri dos Reis Cholby, sua primeira esposa, em casamento que durou de 1966 até 1978. 

O excesso de peso, no entanto, não atrapalhou em nada o desempenho de Pelé. O craque decidiu o jogo com dois belos gols — o primeiro, em pancada de canhota em chute de fora da área. E o segundo em bela jogada individual que terminou em finalização com o bico da chuteira. Ainda sobrou tempo para uma assistência para Flávio Minuano, o camisa 9 da Seleção naquele dia: 3 a 0 para o Brasil diante de mais de 100 mil “camaradas”.

O esperado encontro entre o melhor jogador e o melhor goleiro do mundo foi frustrado logo de cara. Yashin, lesionado, ficou fora da partida, mas isso não impediu com que eles tivessem um momento juntos naquela viagem. 

Antes do jogo no Lênin, o goleiro soviético entregou a Pelé um samovar, uma espécie de bule super tradicional na Rússia, usado, obviamente, para aquecer o corpo nas baixas temperaturas da região. 

Esporte era coisa séria na União Soviética e futebol teve relevância

O forte futebol soviético não servia apenas para entreter o povo e orgulhar o Bloco Socialista da Guerra Fria. Ele foi usado como uma forma de promover a União Soviética no Ocidente, estreitando laços culturais e políticos com outras nações. Durante o período em que o Bloco existiu (1922 a 1991), vários amistosos foram realizados contra seleções do mundo inteiro, dentro do território socialista e fora dele. 

Esporte era algo importante no regime. O conjunto sempre foi uma potência olímpica e o legado permanece até hoje na Rússia, que segue colhendo os frutos de uma cultura esportiva forte — mesmo após a dissolução da URSS, em 1991, os russos estiveram em todos os top 5 no quadro geral de medalhas em Jogos Olímpicos.

E com o futebol não era diferente. A seleção local era forte, venceu a primeira edição da Eurocopa, realizada na França, em 1960, e conquistou quatro medalhas olímpicas (Ouro em Melbourne 1956, Seul 1988 e Bronze em Munique 1972 e Montreal 1976). 

Além de Lev Yashin, tido como um dos melhores goleiros de todos os tempos, a URSS produziu atletas do mais alto nível: Olga Korbut, lendária ginasta, Viktor Saneyev, do atletismo e Sergei Belov, considerado um dos maiores jogadores de basquete da história, entre muitos outros. 

Zur Fussballweltmeisterschaft in England Die Mannschaft der Sowjetunion (Russland). U.B.z. stehend v.l. Trainer Nikolai
Seleção soviética de futebol em 1966 | Foto: Imago
Foto de Nelson Coltro

Nelson ColtroCoordenador de conteúdo

Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Coordenador das redes sociais da Trivela e vira e mexe apareço no site.

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