Yashin: o primeiro em tudo

O clichê sobre o goleiro fala do jogador que é tão maldito que nem grama nasce onde ele fica. É bem provável que quando Lev Ivanovich Yashin jogou sua primeira partida como profissional, aos 20 anos de idade, o clichê tenha se confirmado – imagine um gramado em Moscou em 1949. Mas certamente a qualidade dele não era a causa de sua “maldição”. E mesmo numa posição ingrata, se transformou numa lenda.
A juventude de Yashin não foi diferente da maioria dos homens da sua geração: assim que Possível, estavam trabalhando em um emprego determinado pelo Estado. No caso de Yashin o emprego era na indústria militar.
Curiosamente, a carreira de Yashin não começou promissora. Em seu primeiro jogo, ele teria tomado um frangaço que lhe custaria o banco por mais uma temporada e meia. Só que, determinadíssimo desde sempre, ele não desistiu. Não só: Yashin também jogava como goleiro no time de hóquei sobre o gelo do Dynamo Moscou e seria campeão soviético em 1953.
A lenda começaria a se formar sob os auspícios de seu rival na seleção. Alexei Khomkich, goleiro do mesmo time de Yashin e da URSS, encaminharia os passos de Lev na carreira. Dali em diante, o mito só cresceu.
Yashin chegou à seleção em 1954 e jogaria até 1967 defendendo as cores do país. Venceu os Jogos Olímpicos de Melbourne e a Eurocopa de 1960. Foi escolhido o melhor jogador europeu em 1963 pela revista France Football– algo que nenhum goleiro jamais repetiu. Foi escalado em todas as seleções de “Melhores de Todos os Tempos” – ou pelo menos nas mais sérias. Foi premiado com a Ordem de Lênin em 1967 pelos serviços prestados.
Meio século à frente
Mas o que fez de Yashin um goleiro tão acima da média? Para começar, o soviético tinha um preparo físico absolutamente superior aos jogadores de sua época. É mais ou menos que comparar um jogador como o italiano Buffon a um bom goleiro dos anos 70, como, digamos, o argentino Fillol.
Yashin era também dono de um reflexo e de uma elasticidade assombrosos. Era capaz de reagir a disparos feitos à queima-roupa e se contorcer de uma maneira até então inédita. Isso tendo uma altura de 1m89 que já é elevada para os padrões de hoje, mas era ainda mais há 50 anos.
Em campo, Yashin desenvolveu uma maneira de jogar que anteciparia os seus rivais de posição em cerca de 40 anos. O goleiro dos anos 50 se limitava à sua área e só pensava no jogo defensivamente. O soviético é tido como o primeiro arqueiro a se aproximar da defesa quando em posse de bola e atuar como um libero, possibilitando o avanço dos defensores e cobrindo espaços maiores. Ainda traçando um parelelo, dizer que não haveria um van der SAR, recentemente campeão europeu com o Manchester United, se não fosse Yashin.
O “Aranha Negra”, como veio a ser conhecido por imortalizar o traje todo preto que usou durante toda a sua carreira, não deixaria o Dynamo nem depois de parar de jogar. Seguiu no clube como treinador de divisões de base mas, mais do que isso, como um ícone da supremacia soviética no esporte.
Sua imagem fazia parte do imaginário coletivo do país, que projetava um homem socialista evoluído em relação aos demais. Foi imortalizado também numa estátua de bronze que ainda está nos arredores do estádio do clube. Em 19990, Yashin morreria em decorrência de complicações da amputação de uma perna, causada entre outras coisas por agravamento de lesões no joelho. Seu nome ainda está aguardando um concorrente que possa superá-lo na história. Num último paralelo, é a mesma coisa que esperar o nascimento de um novo Pelé.



