Sempre que o Paulista de Jundiaí chegava com perigo ao gol, logo após a conclusão dos lances, o DJ Alex acionava prontamente o botão que fazia ecoar no estádio um cacarejo de galo.
No sábado (14), os cacarejos só apareceram em profusão no segundo tempo. Na primeira etapa, Alex forçou a mão para apertar o botão em um lance, aos 48. Da entrada da área, Vinícius Caveira bateu, e o goleiro Curtes, do Colorado de Caieiras, desviou.
Mas, aos 12 da segunda etapa, o mesmo Caveira desviou cruzamento do bom lateral-direito Renato Marola, para fazer 1 a 0 — na súmula, o gol foi dado a Michel, contra. Àquela altura, no agregado, o resultado ia para 5 a 0.
O cacarejo logo subiu, mas foi abafado pelos gritos dos 7,3 mil torcedores do Galo da Japi, o melhor público da campanha.
Assustando também os pombos que moram na marquise da área coberta do estádio, que, vez ou outra, davam rasantes bem próximos das cabeças dos torcedores.
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Aos 37, Alex voltou a apertar o botão, quando Lobato, meia do Colorado, bateu pênalti no travessão.
Começava ali a festa do campeão da Série B do Campeonato Paulista. Que, na prática, é a quinta divisão estadual. A última profissional. Dezenove anos depois da conquista da Copa do Brasil. E que deve ser o último troféu de uma era que está perto do fim.
O título não veio. O São Caetano de Muricy Ramalho ganhou do Paulista de Zetti na ida (1 a 3, no Canindé), e na volta (2 a 0), para ficar com a taça.
Mesmo com o vice, não houve enorme tristeza. Porque eram tempos de glória. Que o clube de Jundiaí pode estar no caminho de resgatar.
Paulista pode mudar de patamar em 20 dias
Daqui a 20 dias, em 6 de outubro, Pedro Mesquita, ex-chefe da XP Investimentos, deve confirmar a aquisição de 90% da SAF do Paulista de Jundiaí. A Exa, sua nova empresa, é quem vai assinar o negócio.
O processo de diligência, iniciado em julho, com a assinatura de um memorando, está adiantado. Mas todos no clube falam com precaução sobre assunto. Possivelmente escaldados pelo fracasso de 2022, quando a empresa Two Me refugou no dia em que deveria depositar R$ 300 mil para iniciar a aquisição.
O plano de Mesquita era chegar à elite do futebol estadual em quatro anos. Com a conquista da “Bezinha”, o time do técnico Fausto Dias, confirmado na Série A4 de 2025, adiantou o processo em um ano.
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Clube terá calendário o ano inteiro
Na quarta divisão, o clube passa a ter também o direito de disputar a Copa Paulista e a ter calendário o ano inteiro, com torneios a disputar nos dois semestres — Estadual no primeiro, copa no segundo.
— O clube e a cidade sofreram muito e mereciam essa conquista. Um clube como o Paulista, de 115 anos, não pode estar na Bezinha, com todo respeito à competição — disse, à Trivela, o presidente do Paulista, Rodrigo Peternelli.
— É o nosso quarto ano de gestão, e a gente teve de arrumar a casa de dentro para fora. Recebemos muitas críticas. Tivemos de trocar gramado, reformar alojamentos, criar processos internos. Estruturar tudo para essa subida — completou.
— [Quanto à SAF] a gente tá nessa expectativa, torcendo para dar tudo certo. E, se também não vier nesse momento, a gente vai seguir trabalhando muito para subir no Paulista, degrau por degrau — disse o dirigente.
Mesmo com os pés no chão, os planos são ambiciosos. Nem teria como ser diferente. Atualmente, o Paulista tem uma receita anual inferior a R$ 1 milhão. E dívidas que giram em torno de R$ 50 milhões. Não há nem como sonhar em fechar essa conta sem mirar alto
Mais que um time, Mesquita vai comprar uma história
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Pedro Mesquita, que não esteve no Jayme Cintra na decisão, pode até achar que está apenas fazendo mais um investimento, caso adquira a SAF. Mas vai levar muito mais. Vai levar a alma e tradições de um clube que sempre flertou com a grandeza.
Como a bandeira que homenageia Giba, jogador do Corinthians nos anos 1990 e técnico lendário do Paulista: campeão do Brasileiro da Série C (2001), do Paulista da A2 (2001) e da Copa São Paulo (1997). O técnico morreu em 2014. Seu último clube foi a equipe de Jundiaí.
Ainda que, como todo clube do interior, muitos dos seus torcedores dividam seus corações com os grandes da Capital, a torcida do Paulista é orgulhosa.
— Eu fui a mais de 2 mil jogos do Corinthians. Mas quando jogam Paulista e Corinthians, eu torço para o Paulista — garantiu Odair Tiene, 74.
Um palmeirense, com a camisa do clube, foi hostilizado por membros da Raça Tricolor, uma das organizadas do Galo, quando tentou entrar na sede da torcida, para falar com um amigo.
— Aqui, você não entra. Verde aqui, só o do Guarani — disse um uniformizado, sem nem estender a mão para o palmeirense, que ficou no vácuo.
A aliança com a torcida da equipe esmeraldina de Campinas se deve, primordialmente, ao ódio em comum à Ponte Preta. E, por conta disso, camisas do Bugre se misturavam às tricolores.
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Estaduais não podem acabar
Todo ano, a mesma discussão vem à tona: os Estaduais precisam acabar para desinchar o calendário. Diante do que o Jayme Cintra mostrou no sábado, numa quinta divisão, fica difícil concordar.
Pode até ser o caso de os grandes jogarem menos, entrarem em fases mais adiantadas. Mas um estado-país, como é São Paulo, precisa comporta disputas regionais.
Que o digam os idosos, que eram boa parte do público no estádio no sábado. Ou as crianças frenéticas, penduradas no alambrado para pedir autógrafos aos seus heróis, Thomas Lamin, Vitinho e Filipinho, após a volta olímpica.
— (Na conquista da Copa do Brasil de 2005) eu estava ali — apontou para a arquibancada, o presidente Rodrigo Peternelli.
— Mas, para mim, essa, agora, é a maior conquista da nossa história — afirmou ainda, prestes a ajudar a escrever mais uma revolução no roteiro de uma agremiação com vocação para receber aportes.
Para quem já se chamou Lousano Paulista (1995-1998), Etti Jundiaí (1998-2002) e Jundiaí Futebol LTDA (2002), passar a atender por Paulista de Jundiaí SAF não é nada drástico. Ainda mais se isso vier com um caminhão de dinheiro e a promessa de novas decisões de campeonato.
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