Brasil

Troféu da Copa do Brasil no canto de um armário, 19 anos depois, retrata fase do Paulista

Título conquistado pelo clube interiorano é guardado sem pompa, às vésperas de transformação do clube em SAF

O Estádio Jayme Cintra é palco de um rito de passagem para quase todo jundiaiense que chega aos 18 anos. Mas, infelizmente para o Paulista de Jundiaí, fundado em 1909, tal rito não tem qualquer relação com o time de futebol da cidade, atualmente na quinta divisão do Campeonato Paulista, que manda jogos no simpático estádio.

É no entorno do Jayme Cintra, no bairro Jardim Pacaembu, que os jovens munícipes fazem seus exames práticos para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação, a CNH.

Em alguns dias do mês, uma multidão se aglomera por ali, enquanto espera por seu turno ao volante. Tomando a localmente famosa “Turbaína” (com “R” mesmo) Ferraspári e comendo as típicas coxinhas de queijo da cidade, em um quiosque do local.

Em meio a testes de proficiência em balizas, ladeiras e outras habilidades práticas, muitos nem sabem que, no primeiro andar do edifício do estádio, está uma relíquia conquistada pelo Galo Da Japi há exatos 19 anos neste dia 22 de junho: a Copa do Brasil de 2005.

Mas, justiça seja feita com os projetos de motoristas da pacata e próspera cidade distante 60 km da capital do Estado: mesmo quem entra no prédio não encontra a honraria com facilidade.

Taças do Paulista de Jundiaí. A Copa do Brasil de 2005 está no canto inferior esquerdo (Foto: Diego Iwata/ Trivela)

Na prateleira de baixo

O cobiçado troféu, que o São Paulo, por exemplo, só conquistou no ano passado, está armazenado sem pompa, na prateleira de baixo de um antigo armário vitrine. Em um salão sem requinte algum e até mal iluminado, que é pouco mais que uma antessala para o corredor que leva aos escritórios da administração do clube.

Em visita ao local, a Trivela só identificou a taça ao se abaixar para pegar uma caneta. E viu ali, gravada em uma placa metálica, pregada à base da peça de beleza questionável, que mescla vidro fosco e translúcido, a identificação: “Copa do Brasil 2005 – Campeão” — ao lado de um escudo da CBF.

Outras pessoas que visitavam o local no mesmo dia que a reportagem também se perguntavam onde estaria o troféu conquistado com vitória sobre o Fluminense na ida da decisão (2 a 0, no Jayme Cintra) e empate sem gols na volta, em São Januário. Em uma campanha que também deixou pelo caminho Juventude, Botafogo (oitavas), Internacional (quartas) e Cruzeiro (semifinal).

Salão onde estão os troféus do Paulista de Jundiaí, no Estádio Jayme Cintra (Foto: Diego Iwata/ Trivela)

Muitas encarnações

Diante de mais um renascimento, a tendência é que o maior troféu da história do Paulista esteja mais bem localizado. E que haja festividades para marcar o aniversário de duas décadas do feito nada simplório, em meio ao primeiro ano de trabalho do grupo que deve assumir o clube até o final de 2024.

Em aproximadamente 110 dias, a agremiação deve iniciar mais uma encarnação, possivelmente como Paulista de Jundiaí SAF. Nada drástico para quem já se chamou Lousano Paulista (1995-1998), Etti Jundiaí (1998-2002) e Jundiaí Futebol LTDA (2002).

Copa do Brasil de 2005, conquistada pelo Paulista de Jundiaí (Foto: Diego Iwata/ Trivela)

Pedro Mesquita, ex-chefe do banco de investimentos XP, assinou um memorando de intenções no último dia 14 para adquirir 90% da Sociedade Anônima, cuja criação está em vias de acontecer. Uma vez criada a SAF e feito o aporte financeiro obrigatório, a EXA, empresa criada por Mesquita para gerir o negócio, assume o clube.

Pés no chão

Não é a primeira vez que o Paulista tenta se tornar uma SAF. No fim de 2022, a agremiação iniciou tratativas com a empresa Two Me. Estava tudo acertado. Mas, na data combinada, a companhia não depositou os R$ 300 mil que o clube pedia para dar abertura ao processo, reconduzindo tudo ao estágio zero.

Dessa vez, a história parece diferente. Em entrevista coletiva concedida no último dia 14, Pedro Mesquita e Rodrigo Peternelli, presidente do clube, falaram com entusiasmo do projeto.

– Estamos muito felizes com a assinatura desse memorando, pelo qual estamos trabalhando há bastante tempo. Acreditamos que o futuro do clube está na transformação em SAF, e precisamos manter os pés no chão até a efetivação da proposta. Agora, mais do que tudo, nosso foco se mantém no Paulistão da segunda divisão, onde estamos classificados à segunda fase e ainda temos muito trabalho pela frente – disse o presidente.

Longo prazo

No evento, Mesquita ressaltou que a ressurreição do Paulista será um processo de longo prazo.

— Não esperem milagres do dia para a noite — disse o economista, que deve ter como um dos consultores do projeto o ex-zagueiro Paulo André, que jogou no Corinthians e passou, como dirigente, por Athletico-PR e Cruzeiro.

Mesmo com os pés no chão, os planos são ambiciosos. Nem teria como ser diferente. Atualmente, o Paulista tem uma receita anual inferior a R$ 1 milhão, e dívidas que giram em torno de R$ 50 milhões. Não há nem como sonhar em fechar essa conta sem mirar alto — nada que o clube de Jundiaí já não tenha feito.

Na época em que o Paulista conquistou a Copa do Brasil, o torneio não pagava os altíssimos prêmios que distribui anualmente. Já em 2024, o campeão do torneio vai embolsar nada menos que R$ 73,5 milhões. Mais do que o suficiente para pagar todas as dívidas do tradicional clube do interior de São Paulo.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata LimaSetorista

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.
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