Roger sai respeitado do Grêmio. Mas para onde vai o clube?
Antes de ser demitido do Internacional, Argel Fucks disse que não ficaria uma semana desempregado. Roger Machado talvez demore mais para voltar a trabalhar, depois de sua saída do Grêmio, anunciada na última quarta-feira, porque sabe que pode esperar pelo projeto certo. Saiu em alta do clube gaúcho, com a imagem de um treinador moderno e estudioso que, evidentemente, ainda precisa ser confirmada em outro trabalho de alto nível.
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No Grêmio, seria mentira dizer que deu tudo certo. Roger não teve uma boa campanha continental – caiu nas oitavas de final da Libertadores -, nem conseguiu o título gaúcho, que o Tricolor não vence desde 2010. Depois do ótimo terceiro lugar no último Campeonato Brasileiro, esboçou uma briga pelo título na atual edição do nacional, mas, com uma única vitória nos últimos nove jogos do Brasileirão, e sem vencer há seis partidas, distanciou-se da ponta (11 pontos) e está na oitava colocação.
E o pior: jogando mal. É difícil lembrar a última boa partida do Grêmio. Essa sequência teve empates sem gols com América Mineiro e Santa Cruz, os dois últimos colocados do campeonato. Contra o Atlético Mineiro, criou muitas chances, mas desperdiçou as oportunidades e ficou no empate por 1 a 1. Os últimos dois jogos fora de casa foram trágicos. Levou 4 a 0 do Coritiba e 3 a 0 da Ponte Preta. O time realmente não está em um bom momento.
Roger pode ser criticado por algumas escolhas. Por exemplo, sua mudança de esquema, do 4-2-3-1 para o 4-3-3, não se traduziu em melhores resultados ou um futebol mais bem jogado. Na realidade, até coincidiu com a queda brusca de rendimento. Nessa nova formatação, Luan foi deslocado do centro do ataque para os lados do campo e não conseguiu repetir as boas atuações de antes da Olimpíada. O técnico até retomou a tática anterior nos últimos dois jogos, contra Palmeiras e Ponte Preta, mas não conseguiu voltar a vencer.
Roger não baseou a mudança em conceitos rasos, achismos ou capricho. Em entrevista ao Zero Hora, disse que foi resultado de observação e estatística, o que condiz com seu perfil. Não funcionou direito, mas, quanto maior o lastro de conhecimento por trás de uma decisão, maiores as chances dela dar certo. Nenhum técnico acertará 100% das vezes.
“Eu sempre falava da relação de contribuição dos jogadores ofensivos dentro do processo defensivo. Quando o número de bolas roubadas era acima de 30 e, em cada três roubadas, uma era feita por um jogador de ataque, tínhamos um aproveitamento muito alto de vitória. Mais do que exigir que jogadores de lado me dessem mais do ponto de vista ofensivo, talvez devêssemos mudar a característica desses jogadores que fazem a marcação mais alta. E teria que ser um jogador mais forte na marcação, mas que tivesse jogo. Por isso, o nome médio-apoiador, em vez de volante. Mais do que o número da camisa, exercitam a função no espaço que ocupam. Com uma formação nova, tenho estrutura igual, mas com um jogador bem definido, como Maicon, contra o Atlético Mineiro. Na linha de pressão, passei a ter dois médios com poder de marcação, um meia e dois atacantes à frente”
O técnico gaúcho passou por Juventude e Novo Hamburgo antes de chegar ao Grêmio e, principalmente no Brasileirão do ano passado, montou um time excelente em vários aspectos. Tinha intensidade, saída de bola rápida e com passes curtos, marcação alta, que sabia propor o jogo e contra-atacar. No geral, o coletivo funcionava muito bem. Nesse contexto, até Douglas, de fina qualidade técnica, mas não exatamente dinâmico (menos ainda aos 34 anos), começou a se destacar. Mas o elenco tem um teto, e o Grêmio parece estar batendo com a cabeça nele.
Porque vale lembrar a situação que Roger encontrou ao chegar ao Grêmio. Assumiu-o depois de quase eliminá-lo nas quartas de final do Campeonato Gaúcho com o Novo Hamburgo (perdeu nos pênaltis). Felipão havia acabado de deixar o cargo de técnico de um clube com pouco dinheiro, elenco enfraquecido e que apostava no trabalho com jovens revelações para ser competitivo. Nos treinamentos, Roger conseguiu acelerar o processo e levou a equipe à Libertadores. Fez a torcida sonhar com mais. No entanto, se houve alguma melhora na situação geral do Grêmio, foi muito sutil. Ainda faltam peças de qualidade, tanto para o time titular, quanto como opção.
Pelo menos no discurso oficial, a diretoria gremista sabe que o principal culpado pela queda de rendimento não é Roger. “O técnico Roger Machado pediu demissão e não comanda mais o Grêmio”, anunciou o presidente Romildo Bolzan Junior, depois da derrota para a Ponte Preta. “Foi um pedido dele, de forma irrevogável. Ele conduziu muito bem nosso projeto e gostaríamos de contar com ele. Mas em uma situação de autoavaliação, ele pediu para sair. Tivemos que aceitar. Tentamos convencê-lo do contrário, mas não foi possível”.
Segundo Romildo, Roger entende que sua saída talvez seja necessária para estancar a sangria do clube. O presidente gostaria que o técnico estivesse à frente da retomada. Não foi a primeira vez que o profissional balançou: contra o Coritiba fez uma “avaliação da situação”. Desta vez, pediu demissão mesmo e deixou o Grêmio com 58,8% de aproveitamento, após 94 partidas: 48 vitórias, 22 empates e 24 derrotas.
O seu futuro está tão incerto quanto promissor. Muito provavelmente será um dos primeiros nomes das listas de qualquer clube grande que precisar de um novo treinador, seja nesta reta final de Brasileirão, seja no começo do ano que vem. Até lá, pode intensificar o seu hábito de devorar livros sobre táticas. O Grêmio, por outro lado, não consegue começar e terminar uma temporada com o mesmo treinador desde 2007, com Mano Menezes. O novo nome precisa ter um impacto parecido ao de Roger para que o tricolor gaúcho mantenha-se competitivo. Não será fácil encontrá-lo.