Bastidores: Como a CBF usa a psicologia para transformar a arbitragem
Trivela conversou com João Ricardo Cozac, pós-doutor em Psicologia Esportiva, que tem trabalhado na Granja Comary com os árbitros
Em 2025, as recorrentes polêmicas com os árbitros no futebol brasileiro chegaram em um dos momentos mais quentes após o clássico entre São Paulo e Palmeiras, marcado por controvérsia em pênalti não dado ao Tricolor. Exatamente uma semana após esse clássico, em outubro, a CBF incluiu uma novidade na preparação dos profissionais do apito: o acompanhamento de um psicólogo esportivo.
A mudança começou na 5ª Concentração de Árbitros do Quadro Nacional, realizada no dia 12 do mês passado, na Granja Comary, e se tornou uma atividade contínua. João Ricardo Cozac, pós-doutor em Psicologia Esportiva, explicou à Trivela o seu trabalho e como tem preparado os juízes, alvos de muitas críticas.
— O convite [para trabalhar como psicólogo dos árbitros] surgiu a partir da visão da Comissão de Arbitragem da CBF de que era necessário ampliar a estrutura de suporte ao árbitro, especialmente nas dimensões mental, emocional e comportamental. O futebol moderno não se sustenta apenas com preparo físico, domínio da regra e tecnologia. Ele exige estabilidade psicológica, tomada de decisão sob pressão e capacidade de manter foco mesmo diante de contextos hostis — disse o especialista, antes de detalhar sua função:
— O meu papel é justamente desenvolver esses pilares, fortalecendo o árbitro como ser humano e profissional de alta performance. Trabalhamos confiança interna, regulação emocional, velocidade cognitiva, autorregulação, foco e tomada de decisão.

Árbitros aprendem a lidar com erros
O caso do Choque-Rei, marcado por ataques de torcedores, do clube prejudicado e até da imprensa ao árbitro Ramon Abatti Abel, afastado da Série A pela CBF por quase um mês logo depois do erro e suspenso por 40 dias pelo STJD na última quarta-feira (19), é um exemplo do peso da função dos homens do apito.
Cozac explica que as falhas em uma partida não devem servir como uma punição aos árbitros, mas como uma forma de aprender.
— O erro na arbitragem tem uma carga emocional enorme, porque ele ganha repercussão e pressão imediata. Quando isso ocorre, trabalhamos acolhimento emocional, análise técnica sem culpa, reorganização cognitiva e recuperação da confiança. Também aplicamos estratégias de regulação e protocolos de retorno para o jogo seguinte. Os árbitros lidam muito bem com esse processo. São maduros, responsáveis e bastante comprometidos em transformar o erro em aprendizado e não em punição interna.
A preparação também envolve um treinamento para que o árbitro, entendendo que errar é algo que vai acontecer, “limpe” a jogada da suposta falha da mente durante o jogo e mantenha o foco, evitando uma possível “compensação” ao time que se sentiu lesado. “Não existe espaço para compensação. Existe espaço para profissionalismo e autocontrole, e os árbitros têm demonstrado evolução admirável nesse aspecto”, disse o psicólogo.
— Trabalhamos a capacidade de limpar emocionalmente o lance anterior para que ele não contamine as decisões seguintes. O árbitro precisa entender que o erro é parte do jogo e que ele deve manter seu critério técnico independentemente da emoção do momento. Ele aprende a retomar o foco, controlar a ativação, utilizar sua respiração, reorganizar a atenção e seguir a partida com serenidade.

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Como é o dia a dia do psicólogo dos árbitros do Brasileirão
O trabalho psicológico dos árbitros, além de lidar com os erros, serve para treinar a mente do árbitro para tomar decisões rápidas e não se afetar pela pressão externa.
— O treinamento psicológico afina três aspectos fundamentais: a velocidade cognitiva, que melhora a capacidade de perceber e processar rapidamente as situações; a regulação emocional, que impede que o árbitro seja dominado pela pressão externa; e a confiança interna, que sustenta a tomada de decisão firme mesmo diante de ambientes hostis — explica João Ricardo Cozac.
Para isso, o atendimento aos árbitros brasileiros traz trabalhos específicos de respiração, controle emocional e outros, seja na Granja Comary, onde tem a estrutura de um consultório para conversas individuais e são realizadas reuniões de rodas de conversa, ou à distância. “A ideia sempre foi garantir que o trabalho acompanhe o árbitro durante toda a temporada, e não apenas em momentos isolados”.
— Nas concentrações presenciais realizamos atendimentos individuais, simulações, dinâmicas e sessões específicas de treino psicológico. Entre essas fases presenciais, mantemos um acompanhamento direcionado para casos particulares, trabalhamos protocolos de recuperação pós-jogo, reuniões técnicas e supervisões contínuas — expôs o psicólogo do esporte.
— Além disso, organizamos ciclos mensais de desenvolvimento com foco em aspectos emocionais, cognitivos, fisiológicos e neurovisuais — completou.
No dia a dia, o profissional expõe os árbitros a situações que buscam simular o estresse e a velocidade de raciocino para que torne a experiência prática. Na próxima ida à Granja, no fim do mês, Cozac levará um novo aparelho neurofeeback para trabalhar atenção e foco.
— Criamos simulações que reproduzem situações de alta pressão, como sequências rápidas de estímulos, cenários de tomada de decisão em tempo reduzido, exercícios com limitação visual utilizando óculos estroboscópicos, sessões com aparelhos de treinamento mental para ajustar o nível de ativação e reproduções de momentos críticos que exigem retomada emocional imediata.
Cozac assume ‘lacuna’, mas vê juízes comprometidos
Quando chegou à CBF, por não ter uma estrutura voltada à psicologia esportiva, o especialista assume que “naturalmente” se criou lacunas, mas ele destacou a vontade dos árbitros em aprender e valorizar o trabalho mental.
— Encontrei um grupo muito comprometido, atento e consciente da importância do preparo psicológico. […] O que mais se destacou foi a vontade de aprender, de desenvolver novas ferramentas e de se preparar melhor para as demandas emocionais e cognitivas que o jogo impõe. Eles se engajaram desde o primeiro momento, participaram de todas as atividades e demonstraram grande solidez emocional para trabalhar esses temas.
Questionado se encontrou alguma resistência, pelo histórico conservador do futebol nessa área — há dois anos, a Trivela revelou a presença tímida de psicólogos no Brasileirão –, Cozac negou e voltou a elogiar os juízes.
— Tanto os árbitros quanto a Comissão de Arbitragem da CBF abraçaram o trabalho desde o início. Existe uma compreensão muito clara de que o futebol moderno exige preparo mental, emocional e cognitivo. Eles reconhecem a importância desse processo e se colocam como parceiros diretos da construção desse novo momento da arbitragem brasileira — finalizou.



