Por que a MP do Futebol testa o tamanho do seu otimismo

Texto inclui mudanças fundamentais para o esporte no Brasil, mas alterações alimentam o pessimismo nosso de cada dia

“Mas”, sempre há o “mas”. Essa palavra parece surgir como o lembrete de que a satisfação total e irrestrita não é possível, que há sempre algum motivo para alimentar o pessimismo inerente à vida de qualquer brasileiro. Ficamos viciados no “mas”, normalmente com razão. Essa conjunção entrou na discussão da Medida Provisória que tenta induzir a profissionalização total do futebol brasileiro. Afinal, o texto original era bastante ousado e trazia mudanças profundas e fundamentais para o esporte mais popular do País, MAS foi modificado na Câmara dos Deputados antes da aprovação desta segunda no Senado.

LEIA MAIS: Governo obriga clubes a serem responsáveis, mas o principal fiscal tem que ser você, torcedor

A interferência de deputados ligados a clubes e federações no projeto de lei causa desconfiança, até pelo histórico de atuação da Bancada da Bola no Congresso, mas temos motivo para dar uma chance ao nosso otimismo. O espírito da MP foi preservado, e é por isso que grupos como o Bom Senso FC, um dos idealizadores de vários dos artigos presentes no texto, viu a aprovação no Senado como uma vitória. Uma vitória discreta, sofrendo gol em casa, mas uma vitória.

O projeto de lei é “estruturante”, como gostam de dizer os parlamentares. Isso significa que ela tem como princípio regular o funcionamento do futebol brasileiro, criando mecanismos para incentivar o desenvolvimento desse esporte como um setor da economia. Por isso, ela usou a força que o governo tinha (o fato de ser credor dos clubes) para impor regras de gestão. Ninguém é obrigado a aceitá-las, sob a condição de ficar de fora do programa de refinanciamento das dívidas com o Estado.

O importante nesse primeiro momento é que os princípios do texto foram mantidos. Os clubes terão longo prazo para pagar suas dívidas, mas terão de ser geridos como uma empresa comum que precisa fechar as contas para continuar operando. Nada de atraso de salários ou de gastar mais do que tem. O dirigente que não respeitar pode responder com seu patrimônio e ainda ter de lidar com o peso de ser o responsável pelo rebaixamento de seu clube.

As mudanças que a Câmara conseguiu impor são relevantes para os cartolas, mas não alteram a alma do projeto. A Bancada da Bola conseguiu tirar da MP as regras mais duras sobre eleições na CBF e nas federações estaduais (ainda que, agora, os clubes da Série B tenham direito a eleger o presidente da confederação nacional) e sobre as punições individuais aos cartolas por seus desmandos. Houve também uma mudança no limite de gastos de cada clube com sua folha salarial (era 70% originalmente, foi para 80%) e os prazos para redução gradual do nível de endividamento.

CONSEQUÊNCIAS: O Flamengo se prepara para dominar o futebol brasileiro, se a bancada da bola deixar

Não foi uma vitória completa, e isso dá motivos para o torcedor apertar mais uma vez o botão do “isso não vai dar em nada” e decretar mais um gol da Alemanha. Mas a MP é majoritariamente positiva. Os dispositivos principais foram preservados e, com os clubes tendo obrigação de serem sustentáveis e controlando a eleição da CBF (somando Séries A e B serão 40 votos, passando os 27 de federações estaduais), a tendência é que forcem por mudanças na estrutura do futebol nacional. As equipes não poderão se dar ao luxo de jogarem em estádios tão vazios, de realizarem tantas partidas e competições desinteressantes e de fazerem contratações populistas ou desesperadas sem justificativa financeira e técnica.

Agora, a bola está com Dilma Rousseff. A presidente pode sancionar a MP e transformá-la em lei ou vetar as alterações da Câmara e iniciar nova negociação. O clima, mesmo entre quem não gostou das mudanças dos deputados, é de vitória. E, de fato, dá para ser um pouco otimista. Pelo menos dessa vez.