Brasil

Volta de Paquetá ao Flamengo traz reflexões importantes sobre as promessas brasileiras

Desde que meia deixou o futebol brasileiro, muita coisa mudou nos gramados daqui

Estou escrevendo isso sentado no Maracanã, esperando o jogo entre Flamengo e Internacional (marcada pela hora insana de 19 horas) e, enquanto a torcida está chegando, estou refletindo sobre mudanças. Hoje é o primeiro jogo do Lucas Paquetá nessa sua segunda vez como rubro-negro, e fica impressionante a diferença entre o Flamengo que ele deixou em 2018, e o “Malvadão” para onde ele volta em 2026.

O Flamengo atual é campeão do Brasil e da América do Sul — mas não é o suficiente. Como uma versão futebolística de um vilão de 007, quer o mundo. Eu até acredito que o nascimento do Mundial de Clubes faz parte do projeto da compra — de longe — mais cara na história do futebol brasileiro. A nova taça da Fifa fornece os meios e os motivos por trás da operação – o clube já está sonhando com o título mundial de 2029.

Torcida do Flamengo fez mosaico para Paquetá no Maracanã
Torcida do Flamengo fez mosaico para Paquetá no Maracanã. Foto: Imago

O Flamengo que o Paquetá deixou mais de sete anos atrás era bem mais modesto, fato que, de uma certa maneira, ajudou a carreira dele.

Sem o elenco da profundidade impressionante de hoje em dia, o Flamengo dava mais oportunidades para os seus talentos da base. O jovem Paquetá atuava como um 10, flutuava pelos lados, fazia o segundo homem do meio campo e até jogava de centroavante. Pegava experiência e aceitava responsabilidade. Com 20 anos já foi um dos componentes mais importantes do time.

Seria bem difícil hoje em dia — como tem sido para Matheus França, Lorran, Matheus Gonçalves. Um jogador da base do Flamengo que atua como meio ofensivo agora tem a concorrência de De Arrascaeta, Carrascal e o próprio Lucas Paquetá, ou seja, três jogadores de seleções sul-americanas.

O cenário mudou. Claro, nem todos os clubes são Flamengo. Enquanto alguns desfrutam de abundância, outros sofrem com transfer ban.

Matheus Gonçalves é o novo reforço do Al-Ahli
Matheus Gonçalves é o novo reforço do Al-Ahli (Foto: Imago)

Mas acredito que não é somente o Flamengo que mudou bastante nesses últimos anos. É o futebol brasileiro em geral.

Vamos voltar para 2018, o último ano antes da saída para Europa de Paquetá. Os clubes brasileiros já tinham uma vantagem significativa financeira em cima dos seus rivais continentais. E, mais uma vez, não levaram a Libertadores. Num período de 5 anos o Grêmio, campeão de 2017, foi o único brasileiro a chegar na final.

A maneira das eliminações foi marcante. Naquele ano de 2018 eu estava trabalhando nas transmissões da Libertadores com a televisão da Austrália. Ex-jogadores daquela seleção ficaram chocados com a pobreza do futebol oferecido pelos brasileiros — muito cautelosos, e com distâncias enormes entre as linhas dos times.

Hoje, com certeza, a impressão seria outra. A velha guarda pode chiar, mas fica bem evidente a importância do Flamengo de Jorge Jesus em 2019. Finalmente, chegou alguém determinado a fazer as coisas de uma maneira diferente. Lembro bem qual foi a reação inicial a ideia dele de jogar com o quarteto ofensivo — uma frase deplorável, “time de índios.” 

Gabigol e Jorge Jesus nos tempos de Flamengo
Gabigol e Jorge Jesus nos tempos de Flamengo (Foto: Imago)

Mas o campo falou. Deu muito certo. Mostrou que dava para armar um time assim — desde que houvesse uma compactação das linhas. E esse conceito — que o time deve ser mais compacto — foi assimilado, e agora faz parte do “mainstream” do futebol brasileiro.

Hoje em dia, então, o jovem que consegue ser titular num grande clube daqui está jogando com e contra nomes melhores nomes do que alguns anos atrás, e está fazendo isso num ambiente de jogo onde, com os times mais compactos, ele tem que decidir com mais rapidez como dar prosseguimento à jogada.

Conclusão — ainda tem a necessidade de sair tão cedo para desenvolver o seu jogo? Os clubes europeus estavam — estão — querendo levar os garotos o mais cedo possível, em grande parte para tirar a chance de ficar viciado num futebol com excessos de tempo e espaço. Essa visão era totalmente válida. Será que ainda é? 

Ou pode ser que o jovem agora possa desenvolver aqui, e que além de repatriar um nome como Lucas Paquetá, o futebol brasileiro, por motivos financeiros e esportivos, poderia ser capaz de segurar um pouco mais os Paquetás do futuro?

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo