Brasil

Como futebol brasileiro quebrou recorde de contratação mais cara quatro vezes em dois anos

Chegada de Paquetá supera marca de atleta mais caro do Brasil, em posto que havia sido assumido por Gerson ainda neste mês

A chegada de Lucas Paquetá ao Flamengo se tornou a contratação mais cara da história do futebol brasileiro. Por 42 milhões de euros (R$ 263,25 milhões), o meio-campista desembarcou no Rio de Janeiro e já disputou sua primeira partida com a camisa rubro-negra na Supercopa do Brasil, contra o Corinthians.

Quebrar o recorde de contratação mais cara se tornou algo comum no Brasil ao longo dos últimos anos. Desde 2024, o topo do ranking foi superado em quatro ocasiões. Em todas estas chegadas, clubes brasileiros conseguiram repatriar ou seduzir jogadores que atuavam na Europa ou em times do exterior.

Recordes no mercado de transferências

Em 2024, com a contratação de Thiago Almada, junto ao Atlanta United, da Major League Soccer (MLS), o Botafogo assumiu o posto no ranking de jogadores mais caros do futebol brasileiro. À época, o clube alvinegro pagou US$ 25 milhões (R$ 137,4 milhões) para contar com o jogador na campanha dos títulos da Libertadores e Campeonato Brasileiro naquele ano.

O recorde de contratação mais cara foi superada no ano seguinte, com a chegada de Vitor Roque ao Palmeiras. A gestão de Leila Pereira, na mesma temporada em que superou R$ 1 bilhão em arrecadação, pagou US$ 25,5 milhões (R$ 154 milhões) para repatriar o jogador do futebol espanhol. À época, o atacante defendia o Betis, emprestado pelo Barcelona.

Na mesma temporada, Samuel Lino (Flamengo) e Danilo (Botafogo), em julho, se aproximaram do valor pago pelo Palmeiras por Vitor Roque. Ambos, inclusive, custando mais do que Almada para chegar ao Brasil. Com a contratação de Paquetá, o top 5 jogadores mais caros do futebol brasileiro é formado, inteiramente, por negócios selados entre 2025 e 2026.

Lucas Paquetá em jogo do West Ham
Lucas Paquetá em jogo do West Ham (Foto: Imago)

Nesta temporada, aliás, o recorde já foi superado duas vezes: primeiro com Gerson, contratado pelo Cruzeiro junto ao Zenit (R$ 168,8 milhões), e agora com Paquetá. Ambos os acordos também foram selado logo no primeiro mês da janela de transferências, que se fecha em março.

Os quatro clubes envolvidos no top 5 se dividem em dois grupos: Palmeiras e Flamengo, que se reestruturam ao longo dos anos, desde o início da década de 2010, até chegar a este patamar, e Cruzeiro e Botafogo do outro lado, que se reergueram com maior rapidez após a chegada de investidores externos por meio da Sociedade Anônima do Futebol (SAF).

As 5 contratações mais caras do futebol brasileiro

  1. Lucas Paquetá (West Ham para o Flamengo): 42 milhões de euros
  2. Gerson (Zenit para o Cruzeiro): 30 milhões de euros
  3. Vitor Roque (Barcelona para o Palmeiras): 25,5 milhões de euros
  4. Samuel Lino (Atlético de Madrid para o Flamengo): 22 milhões de euros
  5. Danilo (Nottingham Forest para o Botafogo): 22 milhões de euros

César Grafietti, economista, sócio da consultoria MCO/CON e um dos responsáveis pelo modelo de Fair Play Financeiro, aponta à Trivela que a surpresa não está nos novos montantes, mas sim em como esses valores não eram vistos no passado.

— O Brasil tem a sexta maior liga do mundo em termos de receita. É natural que esse dinheiro comece a circular não só internamente, mas também fora. A grande dificuldade de isso não ter acontecido antes, ou o que não motivou esse movimento, foi o fato de os clubes não terem capacidade financeira do ponto de vista do equilíbrio — defende o economista.

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Investimento passa por reestruturação dos clubes

No caso do Flamengo, que acertou as vindas de Samuel Lino e Lucas Paquetá desde o último ano, o processo foi iniciado em 2013, na gestão do então presidente Eduardo Bandeira de Mello. Com Luiz Eduardo Baptista, o Bap, em 2025, o clube rubro-negro alcançou uma arrecadação recorde no futebol brasileiro de R$ 2,1 bilhões.

Esse crescimento permitiu ao Flamengo “cometer loucuras” no mercado, mas que não prejudicam seu orçamento para o ano. Antes de selar a vinda de Paquetá, o clube havia oferecido um pacote, avaliado em 32 milhões de euros (cerca de R$ 200 milhões), na tentativa de tirar Kaio Jorge do Cruzeiro, proposta que foi recusa pelo dono Pedro Lourenço.

Bap já afirmou, em outras oportunidades, o desejo de que o Flamengo se torne o “Real Madrid das Américas”. Essa arrecadação recorde em 2025 foi possível, também, pelo sucesso esportivo (títulos de Campeonato Brasileiro e Libertadores), assim como as receitas por premiação do Mundial de Clubes, organizado pela Fifa nos Estados Unidos.

Gerson teve breve passagem pelo Zenit antes de retornar ao futebol brasileiro (Foto: Imago)

Palmeiras e Flamengo também disputaram a competição. O clube de Leila Pereira superou a marca do bilhão em receitas, e investiu mais de R$ 700 milhões de jogadores na última temporada. Já a SAF de John Textor, apesar de problemas esportivos e administrativos ao longo do ano, também pôde realizar contratações pontuais — e milionárias.

— A partir do momento em que você tem clubes de ponta, especialmente, mais equilibrados, eles passam a ter dinheiro para se comportar de maneira semelhante ao perfil médio dos clubes europeus. A gente nem acha que vai brigar com o City, com o Barcelona ou com o Real Madrid, mas dá para disputar ali aqueles atletas de clubes de meio de tabela para baixo — aponta Grafietti.

Patrocinadores e novos acordos comerciais

Assim como maior parte dos clubes brasileiros, essa receita também é impulsionada por acordos de patrocínio com casas de aposta. Na última temporada, Flamengo e Palmeiras chegaram a acordos com empresas do ramo pelo espaço central da camisa. Em 2025, 12 dos clubes do Brasileirão contam com acordos com casas de aposta no patrocinador master.

Novos acordos pelos direitos de transmissão também impulsionam as receitas. Flamengo e Palmeiras entraram em rota de colisão no último, tanto na esfera esportiva quanto fora dos gramados, pelos acordos firmados pela Libra para a venda destes direitos para a TV Globo.

Essas verbas, entretanto, representam um aumento nas receitas que os clubes até então recebiam. Bap, aliás, também se mostrou contrário que o Flamengo receba “somente” quatro vezes mais do que um clube de menor audiência do Brasileirão. As chegadas de novos nomes da Europa, entretanto, pode movimentar ainda mais dinheiro no futebol brasileiro.

— As contratações começam a ser positivas, porque mostra que o Brasil passa a ser um mercado que não só vende, mas que também compra. Então, o universo do futebol passa a olhar o Brasil de uma outra maneira, com um pouco mais de força. Isso chama a atenção para o campeonato. Seria muito mais interessante se nós tivéssemos uma liga que estivesse sendo divulgada de uma forma mais organizada, mais ostensiva — pontua Grafietti.

Foto de Murillo César Alves

Murillo César AlvesRedator

Jornalista pela Universidade de São Paulo (USP), com passagens por Estadão, UOL, 90min e QuintoQuarto.

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