Brasil

Paulistinha, laboratório, ‘coroa’: Estadual mudou de status no Palmeiras da retomada, mas sempre teve peso

Ao longo de nove temporadas, derrotas e conquistas estaduais tiveram pesos diferentes no Palmeiras da 'retomada'

Foi em 2015, com o presidente Paulo Nobre, a Crefisa como patrocinadora e o Allianz Parque como casa, que o Palmeiras iniciou uma arrancada de 13 títulos em nove temporadas. Destes, três foram Campeonatos Paulistas.

Ao longo deste período, o Estadual teve pesos diferentes no clube. Mesme entre os conquistados, houve os mais ou menos comemorados, de acordo com o enredo que o time viria a escrever na temporada. E não deve ser diferente com a edição de 2024, no qual o Alviverde estreia neste domingo (21), às 16h, contra o Novorizontino, em Novo Horizonte.

Menos ou mais importantes, o Paulista nunca deixou de refletir e implicar em algo relevante no Palmeiras. Mesmo quando desprezado e chamado de “Paulistinha” numa derrota em casa, nos pênaltis, como em 2018. Muito, quando exorcizou o fantasma desse mesmo campeonato, com uma vitória nos penais sobre o mesmo Corinthians, no mesmo Allianz Parque, em 2020.

A Trivela voltou brevemente no tempo para relembrar as participações do Verdão nos últimos nove estaduais e o que elas trouxeram para o clube.

2015 – O primeiro degrau

Paulo Nobre deu uma guinada de audácia quando trouxe Alexandre Mattos e 14 jogadores para montar um Palmeiras de respeito, em 2015. Turbinado pelo dinheiro da Crefisa e o sempre lotado Allianz, o Verdão do técnico Oswaldo de Oliveira era o primeiro time do clube a decidir um Estadual desde 2008, então última conquista Paulista do clube.

Na ida, o Verdão vence por 1 a 0 no Allianz Parque, gol de Leandro Banana. Na volta, na Vila Belmiro, o time que tinha Prass, Zé Roberto, Valdivia, Cleiton Xavier e Dudu perde por 2 a 1 no tempo normal, e por 4 a 2 nos pênaltis, para o Santos.

Lucas, do Palmeiras, disputa lance com atleta do Santos, na final do Paulista de 2015 (Foto: Cesar Greco/ Palmeiras)

A derrota pegou mal na diretoria e minou o trabalho de Oswaldo, que cairia durante o Campeonato Brasileiro, dando lugar a Marcelo Oliveira. Se tivesse ganhado o Paulista, ele talvez tivesse conquistado fôlego.

E, com Oswaldo campeão, Marcelo Oliveira talvez não tivesse vindo ao clube, e o Palmeiras talvez não tivesse conquistado a Copa do Brasil no final daquele ano. Entre outras razões porque Gabriel Jesus pouco tinha espaço sob comando de Oswaldinho.

2016 – Caminho aberto para o Cucabol

Foi no Estadual, após a demissão de Marcelo Oliveira, em março, que Cuca começou a construir o Palmeiras que conquistaria o Campeonato Brasileiro no fim da temporada.

A eliminação nos pênaltis, na semifinal do campeonato, contra o Santos, foi o esboço o time que venceria o torneio nacional com Roger Guedes, Dudu e Gabriel Jesus como protagonistas.

Róger Guedes bola com o jogador do Santos durante semifinal, do Campeonato Paulista, Série A1, no Estádio da Vila Belmiro. (Foto: Cesar Greco / Fotoarena)

2017 – A Ponte no caminho de Eduardo Baptista

Após a saída de Cuca, Eduardo Baptista, de pouca experiência em grandes equipes, foi escolhido a dedo por Alexandre Mattos para manter o Palmeiras em alta no ano seguinte. Deu tudo errado.

Baptista e seu time caíram diante da Ponte Preta na semifinal, com direito a uma derrota por 3 a 0 na ida, no Moisés Lucarelli. A vitória por 1 a 0 na volta não bastou. Justo a Ponte, onde o técnico começara e firmara sua carreira.

O jogador Borja, da SE Palmeiras, disputa bola com o jogador da AA Ponte Preta, durante partida de volta, válida pela semi final, do Campeonato Paulista, Série A1, na Arena Allianz Parque.

A saída de Baptista traria Cuca de volta ao clube. O paranaense não fez milagre para classificar o time na Copa Libertadores, tampouco conseguiu fazer o Palmeiras chegar ao bi do Brasileiro. Alberto Valentim ainda seria efetivado pouco depois, também sem sucesso.

2018 – O VAR informal

Assim como em 17, Mattos escolheu um técnico jovem e com estilo de jogo moderno para comandar o Verdão. O escolhido foi Roger Machado.

Roger não estava indo mal na Libertadores e chegou à final do Paulista com mérito, inclusive vencendo o jogo de hoje na Neo Química Arena, por 1 a 0 (gol de Borja).

Na volta, o juiz Marcelo Aparecido Ribeiro de Souza anulou um pênalti após o quarto árbitro dizer que o lance fora normal.

O quarto árbitro em questão estava longe do lance e não havia por que sua palavra valer mais do que a do juiz em campo e logo atrás da jogada. A não ser que ele tivesse visto o lance em alguma tela – algo que era proibido até então, já que não havia VAR.

O quarto árbitro Adriano de Assis Miranda, do jogo entre as equipes da SE Palmeiras e SC Corinthians P, durante partida válida pela final (volta), do Campeonato Paulista, Série A1, na Arena Allianz Parque.

O Verdão perdeu a final, e Mauricio Galiotte, presidente do Palmeiras, chamou o campeonato de “paulistinha”. A derrota acendeu o alerta em relação ao trabalho de Roger, que cairia em julho, meses depois.

A derrocada fez o clube mudar seu pensamento completamente. E em vez de técnicos jovens e modernos, o clube foi atrás do completo oposto. E foi com Felipão que o Palmeiras ganhou seu décimo Campeonato Brasileiro.

2019 – Derrota pesou pouco

Talvez tenha sido o Paulistão cuja eliminação pesou menos no futuro do clube. A derrota do time de Felipão para o São Paulo de Mancini/Cuca na semi pesou pouco diante do bom ano que o time veio a ter na sequência.

O Palmeiras chegou a ter uma campanha impecável no Brasileiro e na Libertadores, torneio no qual chegou às quartas. A queda diante do Grêmio e o fracasso no Brasileiro, sim, custariam o cargo de Scolari, substituído por Mano Menezes.

O jogador Ricardo Goulart, da SE Palmeiras, disputa bola com o jogador Liziero, do São Paulo FC, durante partida valida pelas semi final (ida), do Campeonato Paulista, Série A1, no Estádio do Morumbi.

2020 – Para ratificar as mudanças

Último torneio que o Palmeiras decidiu sem Abel Ferreira, o Paulista de 2020 foi catártico. Depois da queda de Mano no Brasileirão do ano anterior, uma experiência sem a qual clube e técnico poderiam ter passado, o Palmeiras apostou em um velho ídolo: Vanderlei Luxemburgo, que fizera uma campanha bastante respeitável com o Vasco no Brasileirão.

Em terra de Paulistão, Luxemburgo é Rei. E nem mesmo a pandemia de Covid impediu Luxa de levar o Verdão ao título, contra o Corinthians, nos pênaltis, 12 anos após o último Estadual do clube – também vencido por Vanderlei, em 2008.

O jogador Patrick de Paula, da SE Palmeiras, comemora a conquista do do Campeonato Paulista, Série A1, na arena Allianz Parque contra a equipe do SC Corinthians P. (Foto: Cesar Greco)

O gol do título ter sido de Patrick de Paula era a chancela que o clube precisava para ratificar a mudança de pensamento: parar de gastar e apostar maisd nas categorias de base

Luxa até iniciou o Brasileiro, mas os maus resultados logo o colocaram na rua. Para seu lugar, veio um desconhecido e jovem português chamado Abel Ferreira.

2021 – Bola “no rabo”

Após ganhar a Libertadores e a Copa do Brasil, Abel teve sua primeira decisão de estadual em 2021. Empatou sem gols no Allianz Parque e perdeu no Morumbi.

– Futebol é assim. O jogador chuta, a bola vai na bandeira de escanteio, bate no rabo de um jogador nosso e entra na baliza – disse o treinador, em referência ao gol de Luan, que teve desvio no volante e decidiu o jogo (2 a 0).

O jogador Mayke, da SE Palmeiras, em jogo contra a equipe do São Paulo FC, durante partida válida pela final, volta, do Campeonato Paulista, Série A1, no estádio do Morumbi. (Foto: Cesar Greco)

A derrota até poderia ter feito um estrago maior, pois veio na esteira de derrotas para o Flamengo, na Supercopa, e Defensa Y Justicia, na Recopa – além da eliminação na Copa do Brasil diante do CRB.

Mas nada disso aconteceu. E Abel, que declarou que o Estadual era só um laboratório para o ano, seguiu firme no clube para ganhar o bi da Libertadores.

2022 – Virada espetacular

O Palmeiras perdia por 3 a 0 no Morumbi quando Raphael Veiga teve uma falta meio sem ângulo para cobrar ao fim do jogo um das finais. E converteu.

Ali, com o 1 a 3, muitos palmeirenses perceberam que o jogo da volta estava aberto. Afinal, um mero 2 a 0 daria o título ao Verdão. Para não deixar dúvidas, o Palmeiras fez logo 4 a 0 e vingou a derrota do ano anterior com sobras.

O jogador Raphael Veiga, da SE Palmeiras, chuta para marcar seu gol contra a equipe do São Paulo FC, durante partida válida pela final, volta, do Campeonato Paulista, Série A1, na arena Allianz Parque. (Foto: Cesar Greco)

Ali foi criada a confiança que levou o Palmeiras até a semifinal da Libertadores e ao título do Campeonato Brasileiro.

2023 – Mais um 4 a 0

Já que nenhum dos grandes se qualificou – o Santos nem passou da fase de grupos – o Palmeiras encarou o Água Santa na decisão. E, na ida, perdeu por 2 a 1.

Um mísero 1 a 0 daria o título ao Palmeiras, que teve um Allianz Parque lotado para encarar o time de Diadema. Sem dar margem para o azar, o Verdão fez 4 a 0, repetindo a goleada da decisão anterior, para ficar com o bi.

O jogador Gabriel Menino, da SE Palmeiras, comemora seu gol contra a equipe do EC Água Santa, durante partida válida pela final, volta, do Campeonato Paulista, Série A1, na arena Allianz Parque. (Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)

Já embalado pela conquista da Supercopa sobre o Flamengo, o Palmeiras se engrandeceu com a conquista, o segundo título de uma tríplice coroa que se completaria com o bicampeonato brasileiro.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata Lima

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023
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