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Oswaldo merecia ser criticado, mas (ainda) não merecia ser demitido

O furacão que demite treinadores a granel no Campeonato Brasileiro acertou mais um. A curta passagem de Oswaldo de Oliveira pelo Palmeiras chegou ao fim, após um péssimo início de torneio, com apenas uma vitória em seis partidas. A falta de evolução do time e os resultados contra equipes de orçamentos muito menores, como Joinville, Figueirense e Goiás, cobraram o preço, mas esse boleto parece um pouco superfaturado. Era a hora de aumentar a cobrança, talvez um ultimato, mas não de encerrar o trabalho.

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Seis meses atrás, o Palmeiras era um clube sem perspectiva, sem dinheiro e sem jogadores, a um gol do Vitória de ser rebaixado à segunda divisão pela segunda vez em três anos. O elenco foi completamente reformulado. Ficaram os jovens, os estrangeiros e Fernando Prass. Chegaram 22 jogadores. Oswaldo ganhou uma página em branco para começar a desenhar o time da maneira que quisesse, tanto que trouxe jogadores de confiança (Lucas, Gabriel, Rafael Marques e Fellype Gabriel, que nem estreou), mas sem nenhum esboço.

Sempre foi muito claro que precisaria de tempo para concretizar pelo menos a primeira versão do que estava planejando. E, então, vieram as lesões. Quase todos os jogadores do elenco sofreram pequenas, médias ou grandes contusões. Allione começou o ano como titular e está há alguns meses fora. Arouca demorou para estrear. Cleiton Xavier ainda não tem condições de jogar 90 minutos e Robinho machucou-se, entre outros. Poucas vezes foi possível repetir escalação, o que é particularmente ruim para um time tão cru.

A diretoria também tem os seus erros nesse processo, e já que estamos falando de lesões, vamos começar pelo processo de renovação do Valdivia, que não está sendo bem conduzido. Oswaldo conta com o jogador, titular desde as finais do Paulista, mas não sabe até quando pode contar com ele. A incerteza atrapalha tanto quanto as declarações do chileno sobre o assunto. O próprio Alexandre Mattos admitiu atraso de pagamentos a Cleiton Xavier e deixou o jogador insatisfeito. Houve também a bronca do diretor de futebol ao elenco, em público, antes do treinamento, e na frente de toda a imprensa, o que só serviu para aumentar a pressão.

Dois buracos no elenco eram claros desde janeiro: a falta de um zagueiro mais experiente e de jogadores que soubessem fazer gol. Os atacantes contratados não tinham currículos goleadores para mostrarem, e alguns erros bizarros da defesa evidenciam que os atletas desse setor ainda têm muito a evoluir. Mattos montou bem o grupo, melhor do que muitos executivos fariam, mas também não entregou o Bayern de Munique a Oswaldo de Oliveira.

Mesmo com esses problemas, o Palmeiras fez uma campanha acima das expectativas no Campeonato Paulista. Se ainda jogava meio aos trancos e barrancos, conseguiu eliminar o Corinthians, no Itaquerão, e massacrou o Santos no Palestra Itália. Se Dudu acertasse aquele pênalti no jogo de ida, o título estadual poderia ter mantido o time no embalo para o começo do Brasileirão e certamente daria mais tranquilidade para as primeiras rodadas. Mas bateu na trave e fez toda a diferença no ambiente da Academia de Futebol. Principalmente porque a evolução do time estancou, o grande pecado de Oswaldo de Oliveira e a principal fonte de insatisfação. A mesma angústia que o torcedor sentiu na segunda rodada do Paulistão contra a Ponte Preta voltou contra Joinville, Figueirense, Goiás e os reservas do Atlético Mineiro, quatro jogos nos quais foram conquistados apenas dois pontos.

O Palmeiras foi o time que mais passes errou no Campeonato Paulista (730) e continua sendo no Brasileirão. Foi também o clube do estadual paulista que mais errou cruzamentos, incríveis 350 para um time sem nenhum grande cabeceador no ataque, e no torneio nacional perde apenas para o Flamengo nesse quesito. Como nos primeiros meses, está em terceiro lugar no ranking de mais finalizações corretas, uma estatística que pode chocar o torcedor com a impressão de que o Palmeiras não chuta a gol, mas muitas delas são fracas, desesperadas ou na mão do goleiro.

Apesar de ter uma boa posse de bola, ainda cria muito poucas jogadas claras de gol e sofre para vencer adversários mais fracos. Passou três partidas sem marcar antes do dérbi, contra Joinville, Goiás e ASA. Além dos resultados, há um problema de desempenho, e Oswaldo de Oliveira tem, sim, que ser cobrado por isso. Mesmo com todas as ponderações acima, era obrigação do time, entrando no sexto mês de trabalho, ter atuado melhor nessas primeiras rodadas. Mas a impressão que passa é que a diretoria do Palmeiras estava passeando com a namorada quando viu uma mulher mais bonita e mudou de direção. A saída de Marcelo Oliveira do Cruzeiro soou como música nos ouvidos de diretores que contratam treinadores sem convicção. Há escudo melhor para as críticas da torcida e da imprensa do que contratar o atual bicampeão brasileiro? Poderiam até gostar de Oswaldo, mas a lua desaparece quando o sol nasce.

Criticar não significa necessariamente demitir. A primeira cobrança tem que ser por um ajuste de percurso, e isso foi feito, o que atrasa um pouco mais o desenvolvimento de um trabalho que parte do ponto zero. Oswaldo montou um time que mantém a posse de bola, joga mais espaçado dentro de campo e com a defesa alta. Geralmente com um centroavante.  Falhou mais do que funcionou até agora. Mudou para enfrentar o Corinthians. Sem Cristaldo ou Leandro Pereira, o Palmeiras ganhou mobilidade no setor ofensivo. Resultado excelente no Itaquerão. Bom desempenho contra o Internacional, mas um lance fortuito envolvendo Fernando Prass e Rafael Moura custou os três pontos. Péssimo em tudo contra o Figueirense. Três das próximas quatro rodadas são no Allianz Parque, contra Fluminense, São Paulo e Chapecoense. Seria um bom termômetro para descobrir se a realidade é mais o jogo do Corinthians ou do Figueirense.

Mas exigiria paciência do torcedor, e o palmeirense não tem mais para dar. A reformulação do elenco recuperou a sua esperança, depois do que aconteceu ano passado, e ele está ansioso para ver o time brigando pelas primeiras posições. O problema é que o dirigente não pode entrar nessa. Qual o momento para demitir o treinador? Não é obrigatório esperar um determinado número de jogos ou meses. Tem que ser quando estiver absolutamente claro que o trabalho não dará certo, porque atrapalha muito começar tudo de novo. E Oswaldo de Oliveira ainda não passava essa sensação.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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