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Os jogos da Máfia do Apito que nunca foram refeitos

O domingo mal havia começado e a bomba havia caído. O STJD, representado pelo seu presidente Luiz Zveiter, anunciou que 11 jogos do Campeonato Brasileiro estavam anulados e teriam de ser disputados novamente. A decisão tomava por princípio que todas as partidas apitadas por Edílson Pereira de Carvalho estavam sob suspeita e era mais fácil apagar todas dos registros. A polêmica começou, e até hoje não terminou. O Corinthians foi campeão com três pontos de vantagem sobre o Internacional, sendo que os paulistas conquistaram quatro pontos em seus dois duelos que foram refeitos – o time havia perdido ambos da primeira vez. Essa questão pauta a maioria dos debates sobre o tema desde que ele surgiu, há exatos dez anos, e muitos esquecem que nem todas as partidas ligadas ao escândalo foram anuladas.

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A Máfia do Apito tem como personagem mais famoso Edilson Pereira de Carvalho, mas o esquema incluía outra figura da arbitragem. Nagib Fayad, o responsável por comprar resultados de jogos para vencer apostas, tinha como primeiro contato Paulo José Danelon, também um árbitro da Federação Paulista. As negociatas ocorriam havia meses quando o caso foi revelado à redação da revista Veja – que levou as informações ao Ministério Público, que deu início às investigações.

O fato de as autoridades só terem tomado conhecimento quando o esquema já estava em prática foi usado como um dos argumentos para se anular todos os jogos apitados por Edílson na Série A de 2005. Afinal, alguns jogos já haviam sido realizados e o STJD considerou arriscado anular só alguns simplesmente porque outros ocorreram no começo do campeonato. Por esse mesmo motivo, os encontros apitados por Danelon e Edílson em toda aquela temporada ficaram em xeque. E não foram poucos.

Edílson havia trabalhado em dois jogos da Libertadores, um da Copa Sul-Americana e 12 do Paulistão. Danelon esteve em dez do estadual e quatro da Série B nacional. Veja a lista:

Jogos apitados por Edílson Pereira de Carvalho

Libertadores
Banfield 3×2 Alianza
Santo André 2×1 Palmeiras

Copa Sul-Americana
Juventude 1×3 Cruzeiro

Campeonato Paulista
Marília 1×0 Corinthians
Mogi Mirim 2×4 Santos
Ituano 1×0 União Barbarense
Portuguesa Santista 1×0 Palmeiras
Santos 3×0 Corinthians
Palmeiras 3×1 Santos
São Caetano 2×2 Internacional-SP
Atlético Sorocaba 0x2 Portuguesa
América-SP 4×1 Palmeiras
Guarani 0x2 Corinthians
São Paulo 1×2 Ponte Preta
União São João 1×3 União Barbarense

Jogos apitados por Paulo José Danelon

Campeonato Paulista
Atlético Sorocaba 0x0 Portuguesa Santista
Paulista 4×1 São Caetano
Santos 0x0 Guarani
Marília 2×2 Ituano
Corinthians 3×0 Ponte Preta
Ituano 1×4 Palmeiras
Guarani 1×1 Atlético Sorocaba
Portuguesa Santista 1×0 Santo André
Portuguesa Santista 0x1 União São João
Marília 1×1 Santos

Série B
Paulista 4×0 Guarani
Portuguesa 0x4 Ituano
Guarani 2×1 Santo André
Ituano 2×1 Marília

Alguns desses 29 jogos foram importantes. Não no topo da tabela, mas embaixo. No Paulistão 2005, o São Paulo seria campeão do mesmo jeito. O problema ficaria embaixo. O único time que não teve uma partida sequer apitada por Edílson ou Danelon foi o Rio Branco de Americana. Todos os outros conquistaram e perderam pontos com um dos dois em campo, e o cenário na luta contra o rebaixamento mudaria significativamente. Nem tanto pela pontuação em si (a Portuguesa Santista assumiria o lugar do União Barbarense no Z-4), mas pelo fato de que vários clubes teriam partidas novas a realizar, com o potencial de conquistar mais pontos. Um exemplo é o América de Rio Preto, que goleou o Palmeiras com Edílson no apito e teria dificuldade de repetir o resultado. O União São João e o União Barbarense, com três jogos cada, poderiam reagir.

Tabela_Paulistão 2005

O mais traumatizado foi o União São João, que foi rebaixado por perder em Araras para o União Barbarense na última rodada daquele Paulistão, com Edílson no apito. Desde então, o clube nunca mais conseguiu se recuperar financeiramente e acabou se licenciando no começo de 2015, desistindo da quarta divisão paulista. A diretoria não teve dúvidas em apontar o árbitro como o responsável por essa fase.

Algo parecido ocorreu na Série B, ainda que apenas quatro jogos tenham influência da dupla de árbitros. Danelon apitou só duelos entre clubes paulistas, mas eles tiveram implicação direta na luta para fugir da queda e na fase semifinal. No topo da tabela, o Guarani precisaria pontuar no jogo que seria refeito para se classificar (tirando o Vila Nova) e a configuração dos dois quadrangulares da segunda fase poderia ser diferente. Na parte de baixo, o Paulista entraria na zona de rebaixamento, assumindo o lugar do Vitória. Caso o clube de Jundiaí pontuasse no joo refeito (contra o Guarani), quem cairia seria o Ituano, que venceu dois jogos com Danelon no apito e precisaria vencer um deles para passar o rubro-negro baiano.

Tabela_Série B 2005

O dois jogos da Libertadores apitados por Edílson foram os únicos inócuos. Ainda que o árbitro tenha admitido que o Banfield x Alianza estivesse no esquema de apostas de Gibão, o jogo não tinha implicações na classificação do grupo (o time argentino passou, o peruano caiu). O Santo André x Palmeiras também não traria alterações significativas. De qualquer forma, o torneio já havia terminado e qualquer decisão sobre ele era alçada da Conmebol, que lavou as mãos no caso da Máfia do Apito.

As partidas do Paulistão e da Série B também passaram em branco pelo momento da denúncia. O Campeonato Paulista já estava encerrado e os elencos de alguns clubes do interior estava desmobilizado. No caso da Segundona nacional, a segunda fase já estava em andamento e o STJD achou inviável anular os jogos, correndo o risco de também cancelar a segunda fase devido à alteração na tabela.

Desse modo, o tribunal decidiu apagar apenas os jogos da Série A, que ainda estava no meio do returno (faltavam 13 rodadas para o final do campeonato) e, por isso, teria mais condições de ter uma nova tabela, incluindo 11 jogos novos. Foi o que aconteceu, e muitos dos resultados não se repetiram. O Corinthians, que havia perdido em seus dois encontros com Edílson Pereira de Carvalho, e essa é a parte da história que todos se lembram. Mas houve uma outra, o que só mostra como o esquema da Máfia do Apito era grande, e como é difícil ter de lidar com casos como esse.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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