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O Roubo da Jules Rimet: uma história inacreditavelmente real que virou uma boa comédia

Houve uma noite de verão, no Rio de Janeiro, em 1983, em que o item mais valioso do futebol brasileiro desapareceu. O roubo da Taça Jules Rimeté uma daquelas histórias tão surreais que parecem ficção, pela facilidade com que aconteceu e por ninguém ainda ter descoberto o seu paradeiro. E ela de fato virou ficção pelas mãos do cineasta Caíto Ortiz, no filme “O Roubo da Taça”, que chega aos cinemas em 8 de setembro.

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Bastou aos ladrões, José Luiz Vieira da Silva, negociante de ouro, e Francisco Rocha Rivera, ex-policial, entrarem na sede da CBF, na Rua da Alfândega, renderem um guardinha e desencaixarem os pregos que prendiam um vidro blindado à parede para ganharem acesso ao troféu, que exigiu três títulos mundiais para ser de posse definitiva do Brasil. O crime foi arquitetado pelo bancário Sérgio Pereira Ayres, o Peralta. Os três pegaram nove anos de prisão, mas nenhum cumpriu a pena completa.

A taça foi repassada ao ourives argentino Juan Carlos Hernandes, condenado a três anos atrás das grades. Em sua primeira versão, disse que teria derretido a Jules Rimet. Na segunda, admitiu tê-la vendido. Qual a verdade? Ninguém sabe. A Fifa acredita que ela ainda está inteira, em algum lugar do planeta, e anunciou uma força tarefa para encontrá-la.

O bom da ficção é que o cineasta pode escrever sua própria verdade, desde que bem construída. É isso que o diretor Caíto Ortiz, que também assina o roteiro do longa-metragem, tenta fazer. E o aviso vem logo de imediato: “Uma boa parte disso realmente aconteceu”. Ele afirmou que realizou uma pesquisa com jornais da época para tentar manter a história fidedigna, mas diante da ausência de muitos detalhes, assumiu certa liberdade narrativa. Os três ladrões foram fundidos em apenas dois, Rocha e Peralta, que no filme coloca as mãos na massa, ao contrário da versão real do crime. Dolores (Taís Araújo), mulher de Peralta, nunca existiu. E o paradeiro que o roteiro dá à Jules Rimet também não é verdadeiro (ou é, vai saber?).

Ortiz afirma que as partes mais malucas podem parecer ficção, mas que são essas as reais. “Uma história inacreditavelmente real”, está escrito no cartaz do longa. E, se você parar para pensar, ele tem razão. Analise direitinho na situação. Um item da importância simbólica da Jules Rimet estava vaidosamente exposto no gabinete da presidência da CBF, em um prédio de fácil acesso, protegido por um único segurança. Algum gênio decidiu guardar a réplica da taça em um cofre para despistar os assaltantes e manter a original aos olhos do público.

Conte isso para um desavisado e ele dirá que é mais verídico derrubar um helicóptero com um carro. Mas, como estamos falando da CBF, ok, pode ser. O próprio personagem do presidente Giulite Coutinho, na repercussão do crime, resume o absurdo da situação: “Como nós ganhamos três Copas do Mundo?”.

O protagonista do filme é Peralta, interpretado por Paulo Tiefenthaler, um malandrão carioca. Trabalha vendendo seguros, mas seu verdadeiro talento está em aplicar pequenos golpes, como doar sangue para faltar ao trabalho ou atrair o amigo para um esquema de pirâmide. Tem algumas paixões: a mulher Dolores, o Flamengo e o jogo de azar. É dessa última que vem a motivação para roubar a Jules Rimet, já que ele precisa levantar uma alta quantia de dinheiro em dez dias para pagar uma dívida.

Gostava de se gabar que era cartola (não era) porque um amigo lhe dava acesso ao prédio da CBF. Sua brilhante ideia para saldar as dívidas, digna de um cartola de ofício, foi roubar a réplica – pelo menos ele achava que era a réplica – da taça Jules Rimet. O crime foi bem sucedido. O problema foi encontrar um comprador para um dos maiores símbolos do orgulho nacional. Quando tentou vendê-lo ao personagem interpretado por Mr. Catra, foi escorraçado sob a mira de uma espingarda. Acaba fazendo negócio com um ourives argentino, fã de futebol, que, em vez de derretê-la, guarda-a em um fundo falso no assoalho. Como na realidade, os responsáveis pelo crime são presos, mas a taça tem um final alternativo, que você precisará ir ao cinema para descobrir.

O futebol é apenas a temática de “O Roubo da Taça” e quase nenhuma referência exige um profundo conhecimento de bola para ser compreendida – fatos básicos sobre a Jules Rimet são contextualizados em uma narração da personagem de Taís Araújo.  Há momentos ótimos, como a cena em que os investigadores da Polícia Civil questionam Giulite Coutinho, que precisa explicar por que a réplica estava no cofre, e a taça verdadeira, exposta ao público. Em certo momento, o dirigente perde a paciência e brada: “A CBF é uma instituição séria”. Melhor piada do filme.

“O Roubo da Taça” é uma comédia despretensiosa. Caricata, às vezes um pouco rasa, mas sem ser muito escrachada e exagerada. Arranca risadas naturalmente, e os personagens, mesmo o ladrãozinho sem vergonha do protagonista, inspiram simpatia. Nenhuma obra prima do cinema brasileiro, mas o filme diverte durante a uma hora e meia em que ele pede a sua atenção.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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