Brasil

A senhora não sabe o que é um Palmeiras x Corinthians…

Com todos ingredientes que a altura da rivalidade tem direito, clássico que terminou em empate em Barueri entrou para a história dos confrontos

Conta Marcelinho Carioca que, mesmo jogando bem no seu primeiro ano de Corinthians, os torcedores lhe cobravam na rua – se não marcar contra eles, não adianta nada –, e o alívio só veio quando a primeira batida de falta finalmente entrou, de muito longe, no ângulo do rival. Sempre lembra Marcos que, não fossem as defesas no clássico logo que se firmou na titularidade do Palmeiras, incluindo a disputa por pênaltis, provavelmente não teria a carreira de sucesso que teve, canonizado pelo clube e campeão do mundo pela seleção.

A frase do título vem do cinema, diretamente de Boleiros, pérola futebolística de Ugo Giorgetti lançada em 1998. Enil, técnico alviverde interpretado pelo são-paulino Lima Duarte, vira um carrasco na concentração do elenco, de olho na farra dos atletas em véspera de dérbi paulista. Percebendo que o craque do time, Fabinho Guerra, tem um encontro às escondidas com uma hóspede, ele bate à porta e clama, lamenta, à personagem vivida por Marisa Orth.

“Minha senhora, a senhora não sabe o que é um Palmeiras x Corinthians”.

A história trata de saber, Enil, porque os heróis e vilões se acumulam em jogão e joguinho, em noite de partida internacional eliminatória e tarde ordinária de torneio local, não importa. À altura do duelo, que para a maioria de palmeirenses e corintianos se firmou ao longo do tempo como o maior encontro possível, esses caquinhos vão se juntando à grande história, e num domingo depois do Carnaval, em Barueri, o clássico ganhou um novo rodapé, o parágrafo que precisará falar de Cássio, Weverton, Garro, Endrick, Yuri Alberto, Gustavo Henrique e companhia, um empate por 2 a 2 com dois jogadores a menos no estouro do minuto 100, daquelas coisas que só se acredita porque se viu, não é que só se ouviu falar.

O Palmeiras fez uns 80 ou 85 minutos ótimos. Abel Ferreira foi com três zagueiros de ofício, deu campo para os alas, ganhou o meio com três jogadores de força e recuperação, e soltou Endrick para jogar atrás de Flaco Lopez, às vezes até de ponta-de-lança de fato na ausência de Veiga. O menino sobrou. Fez seu grande jogo mais à vontade desde que chegou aos profissionais, virando a maior referência técnica e física para levar o time à frente num confronto duro, pesado. Fez um gol, perdeu outro, ofereceu mais um para o parceiro de frente, trombou, deu caneta, cavou cartão, levou também, puxou para o fundo, para dentro, e transformou pedacinhos de campo em espaços maiores.

Palmeiras foi ainda mais superior na segunda etapa

Na volta do intervalo, Flaco ampliou quando o resultado já era curto demais, logo após um gol de Marcos Rocha ser anulado por um fiozinho de impedimento. O Palmeiras chegava fácil, o clássico tinha toda pinta de três ou quatro a zero, e mesmo a reta final seguia deixando claro que haveria mais espaço para a bola longa à medida do cansaço adversário. Até ali, já depois dos 40 minutos do segundo tempo, não era exagero dizer que se tratava da atuação mais firme e intensa do time em algum tempo, bastante superior nos duelos individuais e bem sólido na defesa, não deixando sobrar bola alguma para o lado alvinegro, retomando a concentração das partidas mais importantes neste início de temporada. Mas Enil bateu à porta para avisar.

O Corinthians melhorou um pouquinho, é verdade. Até ali tinha tido muita dificuldade em marcar a posse palmeirense, e a impressão era de que havia passado o jogo sem algumas definições mais claras sobre marcar os avanços pelos lados do campo. Wesley e Romero não acharam nada, Fagner e Caetano tiveram muita dificuldade, Raniele e Vera pareciam sempre em minoria no combate. Depois, com as mudanças e a sensação de um placar mais resolvido, Gustavo Silva fazia bons minutos, Pedro Henrique deu nova velocidade, Hugo e Biro entraram espertos. Ainda assim, é exagero dizer que se tratava de uma reação toda, tanto como me parece injusto afirmar que o Palmeiras se acomodou no placar, porque o time seguiu perigoso e jogando no campo de ataque. Rony mesmo teve duas escapadas já na casa dos 40.

Mas um Palmeiras x Corinthians sabe exatamente o que é um Palmeiras x Corinthians, e um lance esporádico, um tapa de gol do criticado e atualmente tão pouco afortunado Yuri Alberto, pode mudar o astral mesmo quando não parece. De novo, não foi exatamente um ponto de virada porque na sequência Cássio foi expulso e as coisas pareciam se manter mais ou menos como previsto, uma justa vitória palmeirense e alguma entrega corintiana, o mínimo para uma noite dessas. O zagueiro Gustavo Henrique, com roupa de goleiro e luvas, só torceu para a batida de falta ir para fora. Os acréscimos se truncaram por si só, choque para lá e para cá, um deles exagerado, onde caberia até vermelho para Murilo na falta em Yuri, que precisou sair. Com dois a menos, uma derradeira bola parada que precisava ser batida no gol, uma última chance. Rodrigo Garro.

O argentino cuida bem da bola, mas não apareceu tanto diante de um jogo que coletivamente seu time não conseguiu competir e criar de verdade. Ele já tinha um bonito chapéu em Ríos, quando chutou para fora; em outra sobra, tentou encher o pé e também bateu longe. Não jogava mal, mas não fazia diferença, normal, um novato num time ainda em formação contra um rival bem encaixado. Mas baixou a perna esquerda de Neto, o poder decisivo de Marcelinho e a estrela de um gol para história num fim de dérbi feito Ronaldo quebrando o alambrado em Presidente Prudente. Garro tirou tanto, mas tanto, que traiu até o golpe de vista de Weverton. O goleiro, depois de mais uma jornada tão segura, titubeou em se esticar na bola que beliscou a trave e contornou toda a rede. Talvez não quis oferecer um escanteio a mais e acabou sendo vazado. Um golaço corintiano com falha palmeirense. Um empate por 2 a 2.

É uma delícia o futebol porque às vezes o jogo nos conta tanta coisa e no fim o resultado despenca como uma pedra que desce o morro e atropela tudo que vê pela frente. Ainda que não tenha sido totalmente isso, é justo destacar o poder de reação do Corinthians, porque não é todo fevereiro que se evita uma derrota para seu maior antagonista e terminando sem goleiro, sem centroavante, com oito na linha e sem nem gente para ir para área, num chute em que absolutamente tudo deu certo, por mais que o empate não tivesse se desenhando, nem houvesse tamanha atuação para isso. Também faz parte alertar que o Palmeiras vacilou novamente num final de jogo, mesmo que o time seguisse podendo fazer mais um até o limite, e que o lance que define o humor da semana tenha acontecido de forma bastante atípica, uma pane de seu confiável goleiro num chute que, um tapa para escanteio depois, talvez nem se destacasse na edição dos melhores momentos.

Ganhou quem assistiu um clássico com tudo que lhe cabe: boas atuações, muita entrega, ótimos personagens, situações pitorescas e corda esticada até o último fiapo de lance, quando o Palmeiras quase vence num frango do goleiro improvisado, de bola evitada em cima da linha. Ganhei também vendo a preliminar, um excelente Vitória x Bahia, fazendo valer a retomada de um clássico de Série A em Salvador com duas viradas e festa rubro-negra num Barradão pós-folia. Terminei ganhando revendo Boleiros, porque sempre é um domingo de lembrar que era uma vez o futebol. Logo hoje, véspera de Palmeiras x Corinthians… Olha nela, olha nela, Edil.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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