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O novo treinador do Flamengo é o senhor Vanderlei, e é difícil entender o porquê

Foi uma notícia para deixar qualquer rubro-negro sem reação. “Vanderlei é o novo técnico do Flamengo”. Tudo bem, era de se esperar a demissão de Ney Franco, ainda que a diretoria tenha respaldado o técnico menos de 24 horas antes. Mas… Vanderlei Luxemburgo? Talvez você tenha até olhado a data da reportagem, para ter mesmo certeza de que não era nenhuma pegadinha. Não, não era. Luxemburgo é a aposta dos flamenguistas para tirar o time do caos em que se encontra no Brasileiro, na última posição e sem vencer há sete rodadas.

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É difícil de entender qual foi a intenção na escolha. Talvez alguma mística relacionada ao técnico que já teve muito nome, mas que não faz um bom trabalho há tempos. Tudo bem que outros nomes, como Tite e Felipão, fossem cogitados antes. Mas até espanta perceber que Luxa estivesse tão bem cotado. No Fluminense, não foi o técnico do rebaixamento de fato, mas pode ser considerado o de direito. Conquistou menos de 40% dos pontos disputados e deixou a bomba nas mãos de Dorival Júnior a cinco rodadas do fim (uma bomba que só não explodiu porque a Portuguesa foi punida pelo STJD). Não à toa, ele estava sendo cotado como novo comandante do Bragantino há dois meses.

Mesmo no Flamengo, onde o treinador teve três passagens anteriores, não há nada de tão espetacular a recordar. Sua última passagem foi razoável, não mais do que isso. Foi campeão Carioca em 2011 e classificou o time para a Libertadores do ano seguinte, em um Brasileiro no qual o Fla tinha potencial para ir além. Já na competição continental, as desavenças com Ronaldinho minaram o seu espaço. O clube preferiu o craque, e acabou caindo para Emelec e Lanús na primeira fase, já sem Luxa.

Luxemburgo é um dos grandes técnicos da história do futebol brasileiro, sem dúvidas. O problema é que está muito aquém de seu passado desde que retornou do Real Madrid. No máximo, conquistou campeonatos estaduais e vagas na Libertadores. Nada do comandante que montou equipes históricas do Palmeiras, do Corinthians e do Cruzeiro. Luxa não dá mais treinos, deixa a tarefa a seus encarregados. E a postura geralmente não é de alguém que precisa se reinventar, como deveria ser. O Flamengo é mais uma grande chance, aquela que parecia que nunca mais viria ao veterano.

O que Luxemburgo precisa agora é chacoalhar a Gávea. Mexer com os brios de um elenco que custa bastante ao clube, mas que está muito longe de ser brilhante. Montar uma equipe que realmente funcione, sem deixar rombos por todo o campo. Ney Franco teve toda a pausa da Copa do Mundo para fazer isso e não conseguiu. Ao invés de esperar alguma revolução do mineiro em tom professoral, quis apostar na pompa de Luxa. Um técnico para se impor no banco rubro-negro e fazer o time se salvar. Mas cujo histórico recente não anima.

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Enquanto isso, a diretoria do Flamengo se enrola no próprio discurso. A gestão atual trouxe ganhos inegáveis para os rubro-negros, especialmente na forma de controlar as contas, trabalhar o marketing, investir no programa de sócio-torcedor. No futebol, entretanto, deixa muito a desejar. É o sexto técnico rubro-negro em um ano e meio, sem contar interinos: Dorival Júnior, Jorginho, Mano Menezes, Jayme de Almeida, Ney Franco e Vanderlei Luxemburgo. Se a queda de Jayme foi criticada pela forma como aconteceu, a escolha de Luxa é outro ponto de questionamento à direção, até pelo paralelo que ela abre.

Porque, na mesma semana em que o Flamengo apostou na velha fórmula com Luxemburgo, a Seleção Brasileira trouxe de volta Dunga. Duas direções com discursos diametralmente opostos, mas com decisões semelhantes ao se agarrarem no passado. A CBF quer manter a posição generalesca com seu novo comandante, enquanto o Fla se apega no projeto que não acontece há tempos. Da mesma forma, parecem tiros no escuro em meio a uma transformação que é urgente.

Mano Menezes, que teve suas ideias na Seleção interrompidas pela disputa política, pulou fora do barco no Flamengo, traindo toda a confiança que a diretoria depositara nela. Deixou o clube sem muitas opções diante do planejamento no qual apostara. E, por mais que Jayme de Almeida tenha feito um ótimo trabalho, também sem rumo depois que Mano lhe virou as costas. Na base da tentativa e erro, a solução paliativa encontrada desde então, é que Luxemburgo chega. Resta aos flamenguistas torcerem por Dom Sebastião, porque é só mesmo na própria capacidade de torcer que a massa pode confiar.

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Para quem não entendeu a referência do título, ela vem da apresentação de Waldemar Lemos como técnico do clube, em 2003. Muitos flamenguistas tiveram a mesma reação com Luxemburgo, 11 anos depois:

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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