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Monaco se sugere perfeito para Jorge se firmar na Europa, em negócio que saiu bem em conta

Qualquer rubro-negro ciente da realidade sabia que a permanência de Jorge no Flamengo estava com os dias contados. O lateral esquerdo teve uma ascensão meteórica na equipe principal. Formado nas categorias de base, ganhou moral do Mundial Sub-20 de 2015, no qual se destacou no vice-campeonato do Brasil. Voltou à Gávea já com espaço entre os titulares, em uma posição cheia de opções de renome (Armero, Anderson Pico e, por vezes improvisado, Pará), mas sem dono. O novato se firmou graças ao seu bom futebol e logo se transformou em xodó da torcida. Desde então, foi um dos melhores jogadores do time, subindo de produção no segundo semestre de 2016, apontado por muitos como o melhor lateral esquerdo do Brasileirão. O sucesso valeu a convocação inédita à Seleção, para o amistoso contra a Colômbia. E também o seu adeus, confirmado pelo Fla nesta quinta, rumo ao Monaco.

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Sem dúvidas, o Monaco fez um grande negócio. Contratou um jogador bastante promissor, com personalidade para já atuar no primeiro nível, em uma posição carente de talentos não só no Brasil. E, olhando para o custo-benefício, os monegascos pagaram relativamente barato por Jorge. O valor total é estimado em €9 milhões, menos de um terço de sua multa rescisória, estipulada em €30 milhões. Foi a maior venda já realizada pelo Flamengo, que terá direito a 70% do montante. Clubes como o Manchester City também haviam crescido o olho sobre o atleta.

Historicamente, o Monaco é um clube de grandes laterais. Manuel Amoros, Lilian Thuram, Willy Sagnol, Éric Abidal e Patrice Evra, todos com mais de 50 jogos pela seleção francesa, atuaram no principado. Além disso, Jorge seguirá os passos de outros compatriotas da posição. Maicon chegou aos alvirrubros aos 23 anos, depois de estourar com o Cruzeiro, e de lá saiu para ser campeão de tudo com a Internazionale. Mais recentemente, o exemplo é o de Fabinho. Prata da casa do Fluminense, o camisa 2 foi levado pelos monegascos às vésperas de completar 20 anos, emprestado pelo Rio Ave, após passar pelo Real Madrid Castilla. Contratado em definitivo duas temporadas depois, hoje é um dos protagonistas da equipe, embora tenha sido deslocado ao meio-campo.

E, de uma maneira geral, o técnico Leonardo Jardim tem primado pelo trabalho com promessas, potencializando algo que já era característico do Monaco. Desde que o português chegou ao Estádio Louis II, em junho de 2014, comandou Anthony Martial, Geoffrey Kondogbia, Layvin Kurzawa e Yannick Ferreira-Carrasco. Todos eles, jovens talentos que renderam bem sob as ordens do treinador e acabaram engordando os cofres do clube. Nesta temporada, não é diferente com os líderes do Campeonato Francês. A base titular dos alvirrubros possui uma baixa média de idade. Entre os destaques, estão diversos atletas abaixo dos 23 anos, como Bernardo Silva, Thomas Lemar, Tiemoué Bakayoko e Kylian Mbappé.

O ambiente, de uma maneira geral, favorece Jorge. Ele terá a companhia dos brasileiros Fabinho, Jemerson e Gabriel Boschilia (seu colega nas seleções de base), enquanto o idioma não será barreira, também por Leonardo Jardim, João Moutinho e Bernardo Silva. Outro ponto importante é que o Monaco tende a potencializar as características do novato. Lateral com virtudes ofensivas, o carioca fará parte do melhor ataque entre as cinco principais ligas europeias, em uma equipe que explora bem a velocidade pelos lados do campo. A única questão é que o reforço precisará disputar seu espaço como titular. Comprado junto ao Olympique de Marseille no início da temporada por €12 milhões, Benjamin Mendy é o dono da posição, embora tenha se ausentado algumas vezes por lesão e suspensão desde então. O jogador de 22 anos possui muita capacidade física e rodou por todas as seleções de base da França, parte agora da sub-21, mas está distante de contar com a técnica do carioca. Na ausência de Mendy, Djibril Sidibé vinha sendo deslocado da lateral direita.

Independente da titularidade imediata, Jorge será bastante útil a Leonardo Jardim. A contratação evita o deslocamento de Sidibé e traz uma ótima opção à lateral esquerda, em meses intensos aos monegascos, que seguem na disputa de quatro competições – isso com a liderança da Ligue 1 nas mãos, o duelo com o Manchester City pela frente na Champions e a decisão da Copa da Liga contra o Paris Saint-Germain. Será uma escolha tática, em partidas nas quais o treinador quiser explorar mais a ofensividade. E personalidade para se afirmar é o que não falta ao defensor. Sem sentir o peso da responsabilidade e demonstrando muita qualidade é que o jovem se estabeleceu de maneira tão contundente no Flamengo. Não há motivos para ser diferente na nova empreitada.

No fim das contas, o único que parece sair perdendo com a transferência é o Flamengo. Independente de ser o recorde, o valor total do negócio se sugere abaixo do potencial de Jorge, ainda mais em um mercado inflacionado. O clube, entretanto, optou pelo acerto em um momento no qual ajusta o time para a temporada que se inicia, agora com dinheiro em caixa para contratações. Resta saber se a lacuna deixada pelo garoto será preenchida por Miguel Trauco, reforço interessante trazido do Universitario. Mas, qualidade do peruano à parte, a impressão é a de que Jorge poderia contribuir ainda mais com a camisa rubro-negra, especialmente em ano de Libertadores. Resta aos flamenguistas, agora, desejar boa sorte.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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