Brasil

O Internacional não faz ideia do que quer de um treinador

Quando Vitório Piffero foi eleito, pela segunda vez, presidente do Internacional, o treinador era Abel Braga, em fim de contrato, e não houve interesse em renová-lo. Para o lugar dele, notório gestor de grupo, veio Diego Aguirre, mais tático. Quando isso não deu certo, chegou Argel, um pragmático. Quando isso não deu certo, reapareceu Falcão, mais teórico. E se dá para identificar algum padrão nos perfis desses profissionais é apenas que o Inter não faz ideia do que procura em um técnico.

LEIA MAIS: Nos dois anos sem Fernandão, a declaração de amor de um colorado

Seria reconfortante para o torcedor do Internacional pensar que essa aleatoriedade exemplar é uma exclusividade de Piffero e sua diretoria. A gestão do opositor Giovanni Luigi também seguiu a linha de não ter uma linha. Demitiu o cauteloso Celso Roth e contratou o teórico Falcão. Quando isso não deu certo, pulou para o ofensivo Dorival Júnior. Quando isso não deu certo, apostou em Fernandão, que era diretor-executivo e nunca havia sido técnico na vida. “Não é aposta; é convicção”, disse o vice-presidente do clube naquela época. Tão grande era a convicção que ela resistiu a pouco mais de quatro meses. O pragmático Dunga foi contratado em dezembro e demitido em outubro. Clemer preencheu o espaço até o fim do campeonato e, então, chegou Abel.

Evidentemente, essas descrições de técnicos são superficiais. Os profissionais – os bons, pelo menos – são muito mais complexos do que uma palavra. Mas mostra, em linhas gerais, que o Internacional pula de um perfil para outro como se fosse um monitor cardíaco. Atendo-se apenas ao ciclo mais recente de treinadores, é curioso prestar atenção nas declarações da diretoria sobre os motivos que a levaram a contratar e demitir cada um dos profissionais.

Eleito, em dezembro de 2014, Piffero tentou Tite, que preferiu o Corinthians. Descartou Roth e Mano Menezes apenas para ponderar, em 72 horas, que havia feito isso a contragosto. Foi o bastante para desagradar Mano. Disse, no dia 14 daquele mês, que “não pensava em técnico estrangeiro”. Mas contratou, uma semana depois, Diego Aguirre, técnico um pouco estrangeiro, considerando que nasceu no Uruguai. “Aguirre está no começo de carreira, mas tem mais de 10 anos de experiência. Ofensivo, pero no mucho. Gosta de um futebol compacto, de pegada, de marcação no campo inteiro. Diego Aguirre é a pessoa ideal para o Inter”, disse Piffero, ao jornal Zero Hora.

O trabalho de Aguirre ficou longe de ser ruim, com o lançamento de jovens e a semifinal da Libertadores. Mas, eliminado pelo Tigres, e com apenas duas vitórias em sete jogos do Brasileirão, a pessoa ideal de repente não era mais Diego Aguirre. “Entendemos que o nosso grupo poderia dar mais”, disse Piffero, que também citou o famoso “fato novo” que ele estava tentando criar antes do clássico contra o Grêmio. “Talvez possamos ter outro rendimento no Gre-Nal. Resolvemos fazer antes do clássico para criar uma atmosfera para o clássico que possa nos ajudar”, completou.

Não ajudou muito, já que o Internacional levou 5 a 0 do maior rival. O clube contratou Argel Fucks, outro técnico em começo de carreira com quase dez anos de experiência. A ideia era ter um treinador “mais sanguíneo”. Traduzindo: mais garra, mais força, menos sofisticação, menos “frescura”. Mais simples. E Argel, com cutucadas ao seu antecessor, descartando “invenções” e o rodízio que Aguirre pregava, deixou claro, na sua primeira entrevista coletiva, que estava ali para fazer o Internacional girar 180 graus.

Serviu a esse propósito até o sexto jogo sem vitória no Brasileirão. Na chegada da delegação colorada ao Arruda, Piffero garantiu que Argel permaneceria como técnico, independente do resultado. A não ser que o resultado fosse uma derrota: o Internacional perdeu do Santa Cruz, e Argel foi demitido, naquele mesmo domingo. O presidente colocou a culpa em “atuações muito fracas”.  Os nomes mais cotados para substituí-lo, segundo o Zero Hora, eram Guto Ferreira, Antônio Carlos Zago, Celso Roth, Mano Menezes e Abel Braga, um grupo de pessoas tão uniforme quanto uma assembleia da ONU.

E, então, escolheu Falcão, não exatamente o tipo de técnico “sanguíneo” que você espera ver perdendo as estribeiras na lateral do gramado. Havia sido demitido do Sport por ter realizado um trabalho fraco, no qual deteriorou a base que Eduardo Baptista havia deixado antes de acertar com o Fluminense. Como técnico, o Rei de Roma ainda não se mostrou preparado para colocar suas ideias em prática em um clube grande, depois de três trabalhos mais ou menos recentes (Bahia, Sport e seu segundo no Internacional, em 2011 ), que variaram de ruins para razoáveis.

Há uma explicação política. Falcão saiu do Internacional brigado com Giovanni Luigi, um dos líderes da oposição, e tem eleição no final do ano. Pelo seu tamanho como ídolo, a escolha não pode ser severamente criticada pela chapa que tentará assumir o controle das mãos de Piffero, provavelmente encabeçada por Marcelo Medeiros – derrotado por Piffero em 2014 -, que por acaso também é amigo de Falcão.

Mas, no campo e na bola, o Internacional demonstra há anos que não sabe o que quer. Quer dizer, parece que quer um técnico que vença jogos de futebol e não quer um técnico que perca jogos de futebol. Mas não pode ser tão simples assim.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo