Brasil

O fim dos fundos de investimento vai mesmo afetar o futebol brasileiro?

Veio o anúncio e, junto com ele, o medo. O comitê executivo da Fifa baniu os investidores do futebol. Isso significa que um empresário não poderá mais deter porcentagem dos direitos econômicos dos jogadores. Aquela história que vemos bastante no Brasil, onde um agente compra um atleta, repassa ao clube e mantém uma parte da pizza, visando ao lucro na hora da revenda. Nos bastidores, a decisão era esperada para o ano que vem e muito menos drástica. Ainda haverá um período de adaptação, mas como que ela vai impactar o futebol brasileiro?

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Para começar, vamos deixar claro que a decisão da Fifa, boa ou não, é completamente eurocêntrica. Mais especificamente, é um afago à Inglaterra, a principal interessada. Desde que Kia Joorabchian levou Carlos Tevez e Javier Mascherano para o país, a Premier League não permite que jogadores fatiados sejam escalados. Logo, os clubes ingleses precisam necessariamente comprar a totalidade dos direitos econômicos para contratar alguém.

Na Europa, quem vai se dar mal é Portugal, com 36% dos seus atletas controlados por fundos de investimento, segundo um relatório empresa espanhola KPMG, e o Leste Europeu que, segundo o mesmo documento, tem entre € 361 e € 452 milhões de euros em jogadores fatiados. A América do Sul vai sofrer, principalmente clubes que dependem muito da venda de jogadores, como os uruguaios. No caso do Brasil, o impacto pode ser grande, mas nem tudo mundo pensa dessa forma.

O gerente executivo do Vitória, Marcos Moura Teixeira, acredita que pouca coisa vai mudar porque os principais empresários já estão se adaptando a isso. Com clubes de aluguel, eles compram os jogadores e repassam às equipes “de verdade”. Claro que isso funciona apenas com os grandes profissionais, como Eduardo Uram, dono da Tombense, Juan Figer, do Rentistas, e a Traffic, do Desportivo Brasil.

Moura cita a Tombense de Uram para explicar. “Por exemplo, ele tem um jogador que estava no São Paulo, volta para a Tombense. Ele aceita que o salário dele vai ser R$ 5 mil e, quando ele for para outro clube, vai ganhando R$ 50 mil, R$ 100 mil, R$ 150 mil durante aquele período, mas ele é mantido sob contrato nesse primeiro clube”, diz. Por outro lado, se isso fosse aplicado na prática, os clubes brasileiros poderiam se beneficiar. Ganhariam independência em relação aos empresários e, para Moura, esse processo implicaria necessariamente uma redução de salários de jogadores e treinadores. Sobraria mais dinheiro para contratar.

“Não vejo outra maneira de fazer isso sem uma limitação de endividamento, de orçamento anual. Não poder ser endividar além do mandato do presidente, não poder antecipar receita”, comenta. “O futebol do Brasil teria que fazer uma readaptação total à realidade financeira dele. Senão, o clube sem dinheiro para comprar jogador vai ter que continuar pagando para o empresário. Terá que ser uma negociação de um clube para outro, mas se esse dinheiro vai ficar dentro do clube a gente não sabe. No fim das contas, como esses empresários são os donos do clube, dão um jeito de tirar o dinheiro de lá”.

A Fifa já está de olho para identificar esses clubes de aluguel. Já identificou um uruguaio e dois argentinos por meio do Transfert Market System, mas é muito difícil acusá-los de alguma coisa. O uruguaio Rentistas, de Juan Figer, por exemplo, joga a primeira divisão do país e está inclusive na terceira colocação do atual campeonato. Como provar alguma coisa? “Eles estão muito mais organizados e profissionalizados do que o mercado efetivamente. Eu garanto que todos eles já contrataram os melhores advogados”, diz Moura. “Teria que criar uma legisção. Por exemplo: os jogadores só podem ser vendidos depois de um ano ou seis meses”.

Eduardo Carlezzo, especialista em direito internacional, acredita que é possível haver critérios bem claros para identificar esses clubes que servem apenas como ponte entre negociações. Com o comunicado de imprensa que a Fifa emitiu em mãos, ele não vê nenhuma possibilidade de essa mudança de legislação não modificar bastante a forma como o futebol brasileiro realiza seus negócios.

“Não vai haver muitas alternativas para os investidores”, afirma. “Esse impacto deve ser forte nesses clubes, que hoje têm grande parte de suas receitas comprometidas com dívidas tributárias e trabalhistas. Em um primeiro momento, teremos um impacto forte na capacidade de contratação dos clubes brasileiros, já que não poderão mais contar com o auxílio de investidores”.

Como Moura, ele acredita que no médio e longo prazo, à medida que os clubes consigam equacionar as dívidas, a medida pode ser positiva porque eles serão detentores de 100% das receitas de transferências. Até porque, segundo Carlezzo, a maioria das cessões de direitos econômicos não envolvem dinheiro. Os clubes cedem de graça para convencer o jogador a assinar contrato. A venda fragmentada para ter verba para o cotidiano representa menos de 10% dos acordos.

“Embora os clubes estejam endividados no Brasil, as receitas subiram bastante. Eles têm receitas equivalentes a clubes da Espanha e da França. A liga é a sexta mais importante do mundo. Os clubes brasileiros são a elite do futebol mundial. Lógico que tem problema, que tem endividamente e que na Inglaterra tem muito mais dinheiro que no Brasil. Para mim, me preocupa muito mais o que acontece no Uruguai, um país onde os clubes tem receitas de televisão quase inexistentes, muito pequena, e os clubes dependem exclusivamente da venda de atletas. O Uruguai será muito mais afetado que o Brasil”.

A tendência, caso as coisas aconteçam da forma como a Fifa prevê, é que os empresários tenham menos poder na hora de negociar com os clubes, mesmo que consigam se adaptar. Estarão com os movimentos mais restritos e, em médio prazo, pode dar mais independência às equipes brasileiras, caso elas consigam se estruturar. O problema é que essa profissionalização que esperamos nunca consegue sair do condicional.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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