Brasil

O craque mais à frente

Existiam muitas diferenças entre o Alex que chegou do Guarani ao Beira-Rio em 2004 em relação ao que partiu para a Rússia no último mês. Maturidade, domínio de fundamentos, inteligência tática e até mesmo melhor condição física foram condições que o reforço levado pelo Spartak de Moscou adquiriu em quase cinco anos no Internacional. Havia ainda uma sensível diferença em Alex: de ala-esquerdo em sua chegada, ele foi negociado como o segundo atacante no 4-3-1-2 de Tite.

Alex, que alcançou a Seleção Brasileira graças ao seu desempenho em 2008, é um exemplo de jogador talentoso no futebol brasileiro que, conforme adquire maturidade e apresenta atuações decisivas, vai sendo escalado mais perto do gol. Hoje, os sintomas mais claros dessa situação podem ser vistos em Hernanes e Ramires, as maiores ausências nas convocações recentes de Dunga.

Questionado por que não havia chamado o principal jogador do Cruzeiro para a Seleção, Dunga respondeu que, para se lembrar de Ramires, precisava excluir Kaká. Mas também poderia ser Júlio Baptista. Ou mesmo Elano. E até Josué!

Em sua resposta, o treinador gaúcho primeiramente mostrou que tem a maturidade de uma criança de quatro anos e, que não digeriu bem os comentários – manipulados, aliás – de Ramires sobre a pouca atenção que recebem os jogadores em atividade no Brasil. Em segundo lugar, mostrou também que desconhece as características dos que podem ser classificados como craques no futebol brasileiro de hoje.

Ramires, que chegou a jogar como lateral-direito nas categorias de base, foi levado do Joinville ao Cruzeiro por Wilson Gottardo como um volante. Na equipe cruzeirense que terminou entre os primeiros do Brasileiro de 2007, atuava na cabeça da área, ao lado de Charles, atrás dos meias Wagner e Leandro Domingues. 

Para dar mais proteção à defesa, Adílson Batista alterou o desenho da equipe, posicionando Fabrício como o volante destacado na retaguarda de um losango, em que Ramires descia pelo lado esquerdo, normalmente em diagonal, e aparecia como elemento surpresa na área adversária. Mais solto, o jogador amadureceu, ganhou importância e, com a inconstância de Wagner e a saída de Guilherme, além de seus próprios méritos, virou o craque do time. Definitivamente.

Assim, o esquema tático mudou de novo em 2009. Por Ramires, que virou um segundo meia, em um remodelado 4-2-2-2, com Fabrício e Marquinhos Paraná como volantes. Trata-se de uma cultura do futebol brasileiro e até mesmo uma carência. Como temos pouco talento, deixemos os que temos mais perto do gol. Daí também a afirmação do 3-5-2 como padrão para os clubes, que normalmente se ressentem de bons meias e têm laterais que só sabem apoiar. 

O exemplo de Hernanes

Fenômeno parecido acontece com Hernanes no São Paulo. Ala com Paulo Autuori, ele ganhou vida em 2007 jogando como o meio-campista mais recuado no 3-4-1-2 de Muricy Ramalho. Foi o esteio definitivo para a saída de Josué, então um dos jogadores mais importantes da equipe.

Acontece que o substituto de Josué foi crescendo demais. Quando o esquema passou a ser 3-1-4-2, foi Jean quem se transformou no homem mais recuado e foi Hernanes quem se tornou a referência na armação de jogadas. Como no trepidante São Paulo e Palmeiras do Parque Antártica no último Brasileiro, em que o então camisa 15 tomou para si as rédeas da partida. Ou contra o Botafogo, no Engenhão, em que armou o contra-ataque e apareceu dentro da área para finalizar e dar a vitória decisiva para o tricampeonato.

O Hernanes volante, no São Paulo, não existe mais. Tanto que ganhou a camisa 10 e, contra o América de Cali há duas semanas, atuou como o principal meia na ligação de ataque são-paulina. A carência de talentos fez com que Muricy definitivamente o transformasse no dono da equipe. O meia que se pedia desde a saída de Danilo já estava lá. 

A questão é que o avanço de jogadores como Alex e, especialmente Hernanes e Ramires, tem prejudicado a Seleção Brasileira. Dunga, que se mostra incapaz de convocar os dois melhores jogadores em ação no futebol brasileiro, opta por Josué e Gilberto Silva. Quando se ressente de uma alternativa, recorre a Felipe Melo. Exatamente um exemplo oposto do fenômeno que ocorre no Brasil.

O exemplo de italianos e argentinos

Se a tendência do futebol brasileiro é ter o jogador talentoso mais perto do gol, as culturas italianas e argentinas são diferentes. Nem melhor, nem pior. Diferentes. Felipe Melo, que é meia de origem, se transformou no homem de meio-campo mais recuado da Fiorentina. Cesare Prandelli adota normalmente um 4-3-3, com um volante preso – que é Felipe – e dois volantes/meias saindo pelos lados. Embora em esquema tático diferente, algo parecido com o que faz Pirlo no Milan – normalmente respaldado por Gattuso e Ambrosini.

Felipe, que tem talento para a saída de bola, força para a finalização e capacidade de combater, encontrou seu melhor futebol em Florença. Com a camisa da Fiorentina, adquiriu respeito no competitivo futebol italiano e…a primeira convocação de Dunga!

Os argentinos Cambiasso e Gago, dois que carregaram o peso de substituir Fernando Redondo na seleção, são os mais talentosos meio-campistas de Internazionale e Real Madrid. E os mais recuados também. 

Nesse momento, um dos desafios de Dunga na Seleção Brasileira é, justamente, fazer com Hernanes e Ramires algo semelhante ao que fez Cesare Prandelli com Felipe Melo. Se o cruzeirense joga de meia, por que não readaptá-lo ao seu antigo posicionamento? Se o camisa 10 do São Paulo concorre com Kaká na Seleção, por que não trazê-lo mais para trás? 

Questão sem resposta. E que ajuda para uma Seleção que promete apresentar os mesmos defeitos em seus próximos jogos.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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