Brasil

O adeus a Lula Pereira: multicampeão como zagueiro e treinador, uma voz fundamental contra o racismo no futebol brasileiro

Durante duas décadas, Lula Pereira foi um dos raros treinadores negros trabalhando nos principais campeonatos do país. Foi um exemplo de dedicação e conhecimento, com conquistas que o referendavam. Mas também se tornaria símbolo de uma discussão bastante pertinente, à qual ele mesmo dava voz, sobre o preconceito e a falta de espaços a negros nos cargos de comando do futebol brasileiro – e não só no futebol. Levantou taças no Ceará, em São Paulo, em Minas Gerais, em Santa Catarina, no Distrito Federal. Ainda assim, as oportunidades pareciam aquém da capacidade e dos próprios feitos do pernambucano.

Como zagueiro, Lula também escreveu uma grandiosa história nos gramados. O garoto seria campeão no Sport e no Santa Cruz, compondo equipes marcantes na década de 1970. Também se tornaria um dos maiores ídolos do Ceará, que abriu portas para que seu antigo capitão se tornasse técnico. Com aprendizados na Europa e uma vasta experiência em diversos cantos do Brasil, Lula dizia que era melhor como treinador do que como beque. Mais do que isso, era uma mente bastante lúcida, de quem não teve uma grande educação formal durante a juventude, mas que buscou o conhecimento e tinha base para discutir diversos assuntos. Um grande nome menos lembrado do que deveria, que o futebol brasileiro perde relativamente cedo. Aos 64 anos, Lula Pereira faleceu neste domingo, em Fortaleza, vítima de problemas cardíacos.

Luiz Carlos Bezerra Pereira nasceu em Olinda, em 6 de junho de 1956. O futebol seria um caminho desde sempre ao garoto pernambucano, crescido na periferia. O esporte estava em seu próprio sangue, afinal. O pai, jogador profissional, abandonou a família quando Lula tinha apenas um ano e sua mãe ainda estava grávida de outra criança. O menino foi criado por seu tio materno, Zé Paulo, que também atuou profissionalmente. Era goleiro do Fluminense na década de 1940, além de jogar depois no América de Recife. Apesar disso, a infância do futuro zagueiro seria bastante humilde. Precisou trabalhar desde cedo.

Durante a semana, Lula pegava mariscos na lama para ajudar no almoço da família – conforme contaria à revista Placar, em 1977. Aos sábados e domingos, vendia laranjas e picolés na porta dos estádios em Recife. Em suas visitas ao Aflitos e à Ilha do Retiro, o menino conseguia entrar sem ingresso para oferecer seus produtos aos torcedores e aproveitava para espiar os jogos. Sua inspiração era Tomires, antigo ídolo do Flamengo que passaria depois pela defesa do Sport. Também admirava Bita, “O Homem do Rifle”, atacante lendário do Náutico nos anos 1960 e que também defendeu as cores do Santa Cruz.

Zé Paulo seria uma influência para que Lula Pereira se aproximasse também do trabalho de um treinador durante a adolescência. O tio comandava Ferroviário de Recife, que disputava o Campeonato Pernambucano, e Lula costumava acompanhá-lo durante os treinamentos. Sua carreira, entretanto, começou antes na várzea. O jovem atuava nas equipes amadoras, até ganhar uma chance para se testar no Sport em 1971, aos 15 anos. O zagueiro agradou na peneira e logo ficou na Ilha do Retiro.

Na mesma época, Lula conheceu o pai, de maneira curiosa. Durante uma pelada, amigos mostraram a foto de um homem que se parecia bastante com o rapaz, nas páginas da revista Placar. Havia sido campeão do primeiro turno do Campeonato Baiano com o Jequié. De fato, era seu pai, Geraldo Pereira, que antes havia defendido Sport e América de Recife. Apesar do encontro, o jovem seguiu trilhando seu próprio caminho e fez parte de momentos bastante prolíficos das categorias de base do Leão.

Lula participaria do tricampeonato juvenil com o Sport a partir de 1972 e, até por esse sucesso, logo começaria a ser pinçado aos profissionais. Um dos grandes responsáveis por sua transição foi Cilinho, a quem o beque tratava feito um pai. Famoso por seu trato com a base, o treinador lançou uma equipe cheia de pratas da casa em 1973, que garantiu ao defensor o prêmio de revelação do estadual. Já em 1974, Lula acabou apontado como o melhor zagueiro do Pernambucano. Era um jogador com relativa qualidade técnica, mais lembrado por sua agressividade para pressionar na marcação e por sua virilidade.

O grande ano do Sport naquele período foi 1975. Os rubro-negros encerraram um jejum de 13 anos sem conquistar o Campeonato Pernambucano, na maior seca da história do clube. As grandes referências naquela campanha eram o técnico Duque e o artilheiro Dadá Maravilha. Aos 19 anos, Lula Pereira não seria titular na partida decisiva contra o Náutico, mas era um nome recorrente entre os titulares no miolo da zaga. Geralmente compunha o setor ao lado de Alberto ou Djalma, apesar das dificuldades de adaptação ao sistema de Duque, por vezes abusando da truculência. E o ápice de sua história na Ilha também marcaria um ponto final em sua trajetória por lá, para trocar de lado na rivalidade.

O contrato de Lula Pereira com o Sport se encerrou logo após o título, sem um acordo para a renovação. O responsável por comprar seu passe seria o Santa Cruz, numa rara transferência entre rivais. Os tricolores sondavam o defensor desde antes, mas ele recusava as investidas, reiterando seu compromisso com os rubro-negros. Entretanto, aceitaria a oferta diante da recusa do Leão em pagar o que desejava. ” Tenho que gostar do clube que reconhece meu valor, que me paga o que mereço. Agora sou realmente tricolor. Passo a ser um jogador do Santa Cruz. Vamos começar a luta e tentar mostrar aqui todo nosso futebol. De qualquer maneira, não posso ter queixa de Seu Duque nem do Sport. Como um profissional, tento buscar melhores dias noutro clube. Só isso”, comentou, ao Diário de Pernambuco, na época do acerto.

A própria torcida coral seria convocada para contribuir na contratação do novo xerife. O Santa Cruz logo de cara precisaria pagar metade dos 200 milhões de cruzeiros fixados no negócio com o Sport e, para isso, o clube esperava lotar as arquibancadas no jogo contra o Goiás pelo Campeonato Brasileiro para alavancar a arrecadação. Também foram colocadas urnas ao redor do Arruda, para que os torcedores fizessem doações. E, aqueles que quisessem desembolsar uma quantia maior, eram convidados a ir à sede tricolor para uma doação em cheque nominal.

Lula precisou de meses para recompensar o investimento e fazer parte de uma equipe igualmente histórica do Santa Cruz. O zagueiro logo ganharia a posição de titular no time durante o Brasileirão de 1975, primeiro sob as ordens de Carlos Froner e depois de Paulo Emílio. Compôs o miolo de zaga ao lado de Levir Culpi. Era um elenco tricolor bastante forte, ainda com a presença de ídolos como Nunes, Ramón, Givanildo e Luís Fumanchu. E que acabaria marcando uma das maiores campanhas do futebol pernambucano na elite nacional.

Nem foi uma boa primeira fase do Santa Cruz, que avançou no limite à etapa seguinte do campeonato, um ponto à frente do Goiânia. O time cresceu mesmo na segunda fase, quando emendou vitórias contra Corinthians, Coritiba, Atlético Mineiro, Palmeiras e America do Rio. Dono da segunda maior pontuação em sua chave, atrás apenas do fortíssimo Internacional, o Tricolor seguiu em alta para a terceira etapa do Brasileirão. Chegou a vencer Inter, Grêmio, Sport e Náutico, embora o feito mais lembrado tenha ficado à última rodada. O Santa visitou o Flamengo no Maracanã e os cariocas dependiam apenas de um empate para avançar. Entretanto, o Tricolor realizou uma das maiores atuações de sua história, elogiada como “moderna, eficiente, objetiva e, sobretudo, cheia de garra e amor à camisa” pelo Diário de Pernambuco. A vitória por 3 a 1 no Rio de Janeiro colocou a equipe coral na semifinal.

O desembarque do Santa Cruz seria seguido por um carnaval nas ruas de Recife, com uma multidão festejando os jogadores. “Lula, o zagueirão”, como era chamado, estava entre os mais queridos. Mas o sonho acabaria no duelo decisivo contra o Cruzeiro, dentro do Arruda. Palhinha marcou o gol decisivo aos 45 do segundo tempo e garantiu a vitória dos mineiros por 3 a 2. A forte equipe celeste conseguiria ali sua classificação à Libertadores de 1976, que conquistou meses depois. Já o Santa manteria a equipe forte até o final da década, com outras boas campanhas nacionais, mas domínio especialmente no estadual.

O Santa Cruz chegou longe no Brasileirão de 1976, quando sucumbiu ao Internacional nas quartas de final. Também faria bom papel em 1977, ficando a um ponto em sua chave de repetir nova aparição na semifinal. Lula Pereira era um nome importante a este sucesso, ainda que se revezasse com Levir Culpi e Alfredo Santos no miolo da zaga. Ao mesmo tempo, o Santa conquistou o Campeonato Pernambucano em 1976, 1978 e 1979. Era a consagração definitiva daquela geração. Lula, inclusive, seria sondado pelo Flamengo na época – que já tinha levado Nunes. Porém, não houve negócio pelo zagueiro.

Insatisfeito com a negativa dos dirigentes do Santa, Lula Pereira acertou sua transferência ao Ceará em 1980, atraído também pelas boas relações dos cartolas locais com o Flamengo. O zagueiro esperava usar a boa fase no Vozão como um trampolim ao Rio de Janeiro. No fim das contas, virou capitão e uma referência na defesa, que não deixaria mais de vestir a camisa alvinegra. Seriam anos também vitoriosos ao clube, que levou o Campeonato Cearense em 1980 e 1981, antes de recuperar a taça em 1984 e em 1986. Já a melhor campanha nacional aconteceu no Brasileirão de 1985, quando o Ceará avançou à segunda fase e ficou a quatro pontos das semifinais, superado pelo Brasil de Pelotas. Um empate contra o Flamengo no Maracanã, aliás, selou a eliminação dos cariocas.

Como jogador, Lula Pereira totalizou 235 partidas com a camisa do Ceará. É considerado como um dos maiores ídolos do clube. Entretanto, precisou encerrar a carreira relativamente cedo, em 1986. Aos 30 anos, o rompimento do tendão de Aquiles levou o beque a pendurar as chuteiras. O Vozão, ainda assim, abriria novas portas ao capitão. Foi por lá que ele iniciou sua carreira como treinador logo na sequência. Trabalhou primeiro nas categorias de base e conquistou o título sub-20 em 1988, com 22 vitórias em 22 jogos e 110 gols anotados. Depois, Lula também foi alçado à equipe principal e realizou um trabalho especialmente voltado à base.

No início dos anos 1990, Lula Pereira aprimorou seus conhecimentos sobre o futebol. Primeiro se tornou assistente de Cilinho no Rio Branco de Americana. Depois, rodou pela Europa para conhecer o trabalho dos clubes de ponta. Passou um tempo no Barcelona, no Bayern de Munique, no Ajax e no Milan. A partir de então, sua carreira como técnico principal decolou. E o primeiro grande feito aconteceu em Santa Catarina, à frente do Figueirense. O Furacão passou 20 anos sem levar o estadual, até que o jejum fosse interrompido em 1994. Lula estava à frente dos alvinegros, que derrotaram o Criciúma de Lori Sandri na decisão e selaram uma das conquistas mais importantes da história do clube.

Os bons trabalhos de Lula Pereira se emendavam, especialmente no interior de São Paulo. Sua afirmação por lá aconteceu à frente do União São João, que possuía ótimas categorias de base e chegou à elite do Campeonato Brasileiro. O ex-zagueiro era exatamente o comandante em Araras quando o título da Série B se consumou em 1996. Já em 1998, Lula conquistou mais um Campeonato Cearense, agora como treinador do Ceará. O Vozão ganhou diversos reforços graças ao treinador, que garantiu o terceiro dos quatro títulos consecutivos dos alvinegros naquele período.

Ainda assim, Lula Pereira voltou a São Paulo. Fez seu nome também à frente do Rio Branco de Americana, num time repleto de revelações e de boas participações seguidas no Paulistão. Os alvinegros seriam campeões do interior, o que aumentou a consideração ao redor do comandante. Trabalhou ainda em clubes como Guarani e Portuguesa, além de ter feito um bom processo de revelação no Botafogo de Ribeirão Preto em 2000, conquistando a Série A-2 e preparando a geração que foi vice do estadual na temporada seguinte.

Em 2001, Lula Pereira já estava à frente do América Mineiro. Em Belo Horizonte, realizaria uma parceria com Procópio Cardoso, então diretor do Coelho. Apostou numa formação repleta de pratas da casa e levou o Campeonato Mineiro daquele ano. Nomes como Ruy Cabeção, Tucho, Fabrício, Wellington Paulo e Fabiano compunham aquele time americano. E a decisão seria saborosa à equipe de Lula, que goleou o Atlético Mineiro por 4 a 1 na primeira partida, apesar da derrota por 3 a 1 na volta. Seriam 15 anos até que o Coelho voltasse a conquistar a competição, em 2016.

A grande oportunidade de Lula Pereira aconteceu em 2002, quando foi contratado pelo Flamengo. Assumia uma equipe cheia de jovens e que fazia uma campanha ruim no Campeonato Carioca. O treinador seria importante no processo de transição de alguns novatos, alguns mais tarimbados entre os profissionais (como Juan e Júlio César), outros ganhando espaço (a exemplo de Andrezinho e Felipe Melo). Contudo, na máquina de moer comandantes, Lula acabaria deixando o cargo durante o início do Brasileirão, após uma série de resultados ruins. Pesava contra também o ambiente conturbado, especialmente após o impeachment do presidente Edmundo dos Santos Silva.

A partir de então, Lula Pereira rodou por mais equipes. Teve alguns retornos ao Ceará, clube com o qual nutria maior identificação. Também criaria seus laços em duas passagens à frente do Bahia, aceitando inclusive tentar resgatar o clube na Série C. À frente do Brasiliense, conquistou o campeonato distrital de 2006, o quarto “estadual” de sua carreira. Também teria uma experiência no Campeonato Saudita, treinando o Al Hazm, capaz de livrar a equipe do rebaixamento e ser considerado um dos melhores técnicos em atividade no país.

Entretanto, depois do Flamengo, a trajetória de Lula Pereira seria praticamente restrita a clubes do Nordeste. Antes, chegou a ser indicado pelo amigo Felipão para substituí-lo no Palmeiras e no Cruzeiro, mas as conversas não evoluíram. Apesar do currículo, o treinador ganhou poucas oportunidades nas equipes da primeira divisão. Para ele, o preconceito fazia com que seu nome fosse descartado, num ambiente de raríssimos técnicos negros. Segundo suas próprias palavras, teria ouvido de empresários: ‘Olha, o presidente do clube disse que você é o cara, mas infelizmente é negro’.

“Isso não me causou nenhum remorso ou trauma. Até achei legal porque eles foram
objetivos e diretos. Pior é quando não é! Esse é o grande problema nosso! Ninguém carrega na testa: ‘gosto de negro’ ou ‘não gosto’. Se carregasse, a gente evitaria o aborrecimento, o constrangimento… É lógico que, lá dentro do meu coração, a gente diz: ‘Poxa, não era pra ser assim’. O homem deveria ter as oportunidades pela sua competência, independentemente da cor. Mas, o que a gente vê no Brasil…”, contaria em entrevista a Marcel Diego Tonini, na dissertação ‘Além dos Gramados: História Oral de Vida de Negros no Futebol Brasileiro (1970 2010)’, apresentada na Universidade de São Paulo e presente no site do Ludopédio. “Pra te dizer honestamente, só vejo falar de preconceito ou de racismo quando é dentro do campo de futebol: ou pelo torcedor ou pelo jogador que chama um ou outro de ‘macaco’, disso e daquilo. Mas, fora dessa esfera, onde que se discute isso, onde que se fala? Eu não conheço”.

Um momento marcante a Lula Pereira aconteceu durante uma participação no Cartão Verde, da TV Cultura. O treinador foi um dos convidados do programa após o episódio de racismo contra Grafite no São Paulo x Quilmes pela Copa Libertadores de 2005. O comandante faria uma série de observações e colocaria o dedo na ferida, não apenas em relação ao espaço do negro no futebol brasileiro, mas na própria sociedade. Para Lula, a discriminação deveria ser discutido repetidamente na televisão ou no rádio, com pessoas que ampliassem a visão. No entanto, poucas vezes ele via o debate com objetividade e finalidade na época. O veterano pregava o diálogo como uma maneira de confrontar a questão e melhorar as condições dos negros no país. Acreditava na reeducação, mas lamentava a falta de espaços públicos a tal abordagem.

“Uma das coisas que falo é que o negro, quando subalterno, é bem aceito. Até porque,
ele se esmera pra fazer tudo melhor que o branco e merecer a oportunidade. Mas, pra chegar a nível de comando, a coisa pega. Aí, é seríssimo! Por isso que eu digo que era necessário um levantamento mais amplo, sem faz de conta, sabe? Mas, sem revanchismo, sem violência… Afinal, isso não leva também a nada. É dialogando que as pessoas têm que se entender”, analisava, durante a entrevista a Marcel Diego Tonini. “Então, me estranha: como que nós não temos num país de alta miscigenação meus irmãos de raça galgando a condição de treinador de futebol? Não vejo no basquete, não vejo no vôlei, não vejo no futsal… Não vejo e nunca vi… E olha que assisto de tudo. Onde tem esporte, estou antenado… E tenho que estar, pois é a minha profissão. Gosto de fazer isso, mas não vejo negros como técnicos… Então, alguma coisa tá errada, né?! Volto a repetir: ninguém quer mexer nisso… Ninguém se aprofunda nessa questão”.

Lula defendia um sistema de integração e cotas mais amplas, que abarcassem não só negros, mas também deficientes e outras classes menos privilegiadas: “Basta a gente olhar pro nosso futebol e comparar quantos jogadores negros nós temos com quantos treinadores, árbitros, dirigentes, e outros profissionais negros… Há ou não há aquele processo sutil de eliminação que lhe disse? Alguma coisa tem que ser feita pra que isso mude, porque já vem de muito tempo. Com cota pra todos os meios profissionais, teríamos negros em todos os lugares! Mesmo assim, mesmo estudando, não é fácil. […] É lógico que a gente tem que respeitar a opinião de cada um, principalmente quando se trata de um assunto tão complexo como o do preconceito e do racismo, mas sempre deixo um legado pros meus irmãos: é possível vencer trabalhando, lutando, se dedicando e com honestidade”.

Lula Pereira também estampou uma grande reportagem na revista Placar em 2013, que discutia o baixo número de treinadores negros no Brasil. Completando meses sem emprego, o pernambucano afirmava que o negro era visto apenas como um tampão pelos clubes, citando o exemplo de Andrade, campeão brasileiro com o Flamengo em 2009. Também fazia uma colocação bastante pertinente sobre a amplitude da ausência de negros nos cargos diretivos do esporte: “Não temos dirigentes ou presidentes de clubes e federações negros. Assim é impossível romper a segregação e as barreiras que enfrentamos”.

Oito anos depois, o cenário não mudaria tanto. As participações de Lula Pereira no futebol seriam ainda mais limitadas, embora tenha chegado a trabalhar como diretor técnico no Ferroviário de Fortaleza em 2016. Dedicaria-se mais à carreira de comentarista, participando de programas na TV cearense, com residência fixada na capital. E não era isso que diminuía sua representatividade como um raríssimo treinador negro na elite do futebol brasileiro durante décadas e também como uma voz ativa na discussão essencial.

“Ser chamado de ‘negro isso, negro aquilo’ acontece na maioria dos estádios brasileiros. Na verdade, esse tipo de atitude não é normal porque, quando uma pessoa está me chamando de negro, é no sentido pejorativo, com a intenção de me rebaixar. Está entendendo? Lógico que não gosto. Se disser pra ti que gosto, estou mentindo. Mas, esse tipo de situação não me tira o controle daquilo que eu tenho a realizar… Também nunca quis levar isso pra frente. Você já pensou se, em cada lugar que fui trabalhar e que o torcedor tivesse me xingado, eu tivesse comprado briga? (risos) Aí, os caras não me contratariam mais”, comentava, a  Marcel Diego Tonini. “Eu sei que o torcedor é movido pela emoção e que ele se transforma quando está na arquibancada. E seja de que classe social for! Já aconteceu uma vez de partir da minha própria torcida: ‘Vá embora negro isso! Vá embora negro aquilo!’ Note. Eles não disseram: ‘Vá embora treinador!’ Não. Disseram: ‘Vá embora negro!’ Como que posso gostar disso?”.

“Todo mundo escuta e todo mundo silencia. Ninguém quer botar o dedo nesse vulcão, não. Esse vulcão está adormecido. Tá tudo bom como tá pra todo mundo – vírgula! Está bom pra quem está em cima, mas, pra quem sofre as consequências, não está bom. Não tá! A gente sabe que não está. Só que, se a gente abrir a boca, quem vai ouvir? Quem vai tomar uma atitude? Quem já foi punido por isso? Me aponte… Não vejo… Que nada! Vai pra baixo do tapete. Se vai na polícia, eles viram pra gente e falam: ‘Volte daqui dois meses’. E ninguém fala, ninguém viu, ninguém sabe… É esse o grande problema. Acho, honestamente, que deveria se punir, mas, pra mim, a maior e melhor saída é a reeducação das pessoas”, arrematava.

Em agosto de 2019, Lula Pereira sofreu um acidente vascular cerebral que o afastou de vez do futebol. O veterano tinha um quadro de arritmia, sem sintomas, e que resultou no AVC. Passou por uma cirurgia no cérebro e seguiu em tratamento para se recuperar das limitações nos movimentos e na fala. Com a saúde debilitada, o veterano faleceria neste domingo. Deixou três filhos, nenhum deles ligados ao futebol, mas com formações em Direito e Medicina. A educação, tão defendida por Lula Pereira e à qual ele não teve grande acesso durante a juventude, seria um caminho à transformação que o veterano também praticou dentro de sua casa.

“Eu só gostaria de dizer uma última palavra pros meus irmãos de raça negra e para aqueles menos favorecidos, como os deficientes, que são deficientes eficientes… Todos eles também merecem ter as suas oportunidades. Espero que continuem se preparando a nível de educação e de conhecimento para buscar, de forma conciliadora, com argumentos, o seu lugar. Porque não vai ser no grito e nem com guerra, como já vi muitos apregoarem: ‘Falta guerra neste país. Tem que sangrar, tem que matar!’ Não… Não. Nós temos que alcançar e buscar o nosso espaço com educação e com conversa. Devemos sentar todos e discutir: ‘O que é que você acha e sente? E você? E você? E você?’ É muito importante as pessoas sentirem! Uma vez, disse isso para um branco: ‘Eu queria que você passasse trinta dias como negro. Que descesse Jesus aqui na Terra e o transformasse em negro. Aí, você vai ver como é que é!’ Está me entendendo?”, analisava, na entrevista para a dissertação de Marcelo Diego Tonini.

“Quero que não desistam e que continuem lutando de forma organizada, no sentido de se preparar melhor para as oportunidades. Porque, se eles se prepararem de igual pra igual, não dá. Tem que ser mais, tem que ter algo a mais. Até porque, nós, negros, temos que provar três, quatro, cinco vezes pra mostrar que temos capacidade!… A não ser que os nossos senadores, deputados federais, presidentes, ministros ou alguém faça uma extensão dessa cota pra tudo nesse país. Afinal, a lei lá do homem, do Afonso Arinos, não foi respeitada, não. Nunca foi respeitada! Isso é o que eu deixo pros meus amigos de raça: continuem lutando porque eu estou aqui lutando também”, finalizava. “Acho que sou um cara que sirvo para educar e para fazer com que as outras pessoas tentem, pelo menos, seguir parte do meu caminho. Eu não lamento. Só tenho a agradecer a Deus e às pessoas que me deram oportunidade. De uma forma ou de outra, eu tive. Poderia e deveria ter muito mais pela minha competência, honestidade e dignidade! Acontece que só isso, não é suficiente… infelizmente”.

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Uma das bases principais ao texto, além de artigos publicados na imprensa e de materiais disponibilizados pelos clubes, é a entrevista a Marcel Diego Tonini na dissertação ‘Além dos Gramados: História Oral de Vida de Negros no Futebol Brasileiro (1970-2010)’. Fica a recomendação de leitura à conversa com Lula Pereira e ao próprio material amplo disponibilizado pelos parceiros do Ludopédio.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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