Brasil

Neymar mostra que perdeu para o próprio corpo ao cogitar aposentadoria em 2026

Acúmulo de lesões desde o PSG criaram obstáculos para o camisa 10 nas duas últimas Copas, e podem tirá-lo da lista de Ancelotti

Neymar trabalha com a possibilidade de se aposentar ao final deste ano. Após afirmar, no passado, que a Copa do Mundo de 2026 poderia ser a sua última com a seleção brasileira, o camisa 10 do Santos admitiu, com todas as letras, que pode pendurar as chuteiras em dezembro, caso sinta que chegou o seu momento.

— Vou vivendo ano a ano. Não sei o que vai acontecer daqui para frente, não sei o ano que vem. Pode ser que chegue em dezembro e eu queira aposentar. Não sei. Vai ser do meu coração — afirmou, em entrevista à “CazéTV”.

Esse movimento de Neymar recupera uma máxima, que tem sido revisitada desde sua lesão mais grave no Al-Hilal: aos 34 anos, o atacante perdeu para seu próprio corpo. Nem sempre por culpa dele, como quando sofreu com fraturas e problemas musculares na França, ou na ruptura do ligamento cruzado do joelho. Mas a reta final da carreira do camisa 10 mostra uma luta para seguir praticando o esporte que ama.

E, claro, o último grande objetivo de Neymar é disputar a Copa do Mundo. Ainda que não tenha sido convocado por Carlo Ancelotti desde sua chegada à seleção brasileira, todos os passos que deu no Santos são voltados para esse objetivo. Desde seu anúncio, quando deixou subentendido a motivação pelo Mundial para retornar ao Brasil, até as decisões junto ao clube e seu estafe para se recuperar das lesões sofridas em 2025.

Neymar auxiliou Santos na reta final do Brasileirão, em 2025 (Foto: Imago)

Em seu primeiro ano no Santos, lidou com problemas na coxa, no menisco e terminou 2025 passando por operação no joelho. Todo esse cenário fez com que conseguisse disputar apenas 28 jogos na última temporada, sem conseguir ter uma sequência superior a sete partidas seguidas. Foi a pior marca do atacante — sem considerar os sete jogos disputados pelo Al-Hilal — desde 2021/22, quando ainda defendia o Paris Saint-Germain.

Número de partidas disputadas por Neymar desde o Barcelona

  • 2013/14 (Barcelona): 41 jogos
  • 2014/15 (Barcelona): 51 jogos
  • 2015/16 (Barcelona): 49 jogos
  • 2016/17 (Barcelona): 45 jogos
  • 2017/18 (PSG): 30 jogos
  • 2018/19 (PSG): 28 jogos
  • 2019/20 (PSG): 27 jogos
  • 2020/21 (PSG): 31 jogos
  • 2021/22 (PSG): 28 jogos
  • 2022/23 (PSG): 29 jogos
  • 2023/24 (Al-Hilal): 5 jogos
  • 2024/25 (Al-Hilal): 2 jogos
  • 2025 (Santos): 28 jogos

Neymar e pessoas próximas ao jogador, ao defendê-lo, citam o período que passou na França (2017-2023) como um momento que agravou sua condição física, pelo camisa 10 ser o jogador mais parado por faltas na Ligue 1. Há um fundo de verdade, já que ele acumulou problemas físicos no PSG: fraturas no osso do metatarso, lesões musculares e no tornozelo — esta que encerrou sua passagem pelo Parc des Princes.

Críticos do atacante, por outro lado, apontam que ele tem parcela de responsabilidade pelas lesões acumuladas ao longo dos anos. Também é fato, na carreira, Neymar não mostrou o mesmo comprometimento que Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, com quem chegou a rivalizar pela Bola de Ouro na última década.

No PSG e Al-Hilal, Neymar chamou tanta atenção fora de campo quanto dentro dele. Seja em partidas de pôquer, ou em viagem de Cruzeiro, ao lado dos fãs, enquanto se recuperava de cirurgia no ligamento do joelho, ele abriu margem para que duvidassem de sua entrega pelo futebol. Como resposta, postava vídeos e fotos na academia, para provar que estaria focado em sua recuperação.

Neymar aumentou número de lesões na carreira após ida ao Paris Saint-Germain (Foto: Imago)

Essas polêmicas o acompanharam no Santos. Vale destacar que a versão de 2026, mesmo que com apenas uma partida disputada até aqui, é de um atleta que mantém vivo o sonho de disputar a Copa do Mundo. Se estiver 100%, e com ritmo de jogo, Ancelotti pode dar a ele uma chance nos amistosos contra França e Croácia.

O pai de Neymar também ressaltou que a volta do atacante ao Santos marca o início de seu “último capítulo” na carreira, depois das passagens pelo futebol europeu. O contrato do camisa 10 se encerra em dezembro de 2026. Se decidir estender seu período nos gramados por mais tempo, mercados alternativos, como Major League Soccer (MLS) podem atraí-lo.

A atual versão de Neymar, no entanto, ainda pode ser útil ao Santos. Na goleada sobre o Velo Clube por 6 a 0, em seu retorno aos gramados após operação no joelho, deu uma assistência nos 45 minutos em que esteve em campo. Na temporada anterior, somou 15 participações a gol em 28 jogos (11 gols e quatro assistências), e foi decisivo para a permanência do Santos na Série A do Brasileirão.

Reta final da carreira de Neymar se assemelha a ídolos brasileiros

Ainda que impressione uma possível aposentadoria de Neymar aos 34 anos, o futebol brasileiro já viveu histórias semelhantes nas últimas décadas. Ronaldo Fenômeno lidou com traumas semelhantes ao de camisa 10 ao longo de toda a sua carreira, e “perdeu” para seu corpo ao pendurar as chuteiras em 2011, no Corinthians, também aos 34.

Ronaldinho Gaúcho também. Ainda que tenha anunciado sua saída dos gramados em 2018, disputou a última partida oficial aos 35 anos, em 2016. Dois jogadores que, ao longo de suas carreiras, se destacaram por clubes e seleção, e conquistaram aquilo que Neymar mais deseja em 2026: a Copa do Mundo.

Neymar e Ronaldo, na aposentadoria do Fenômeno em 2011 (Foto: Imago)

Com pouco a mostrar em 2026 para Ancelotti, Neymar tem em seu currículo a artilharia histórica com a camisa da seleção brasileira, à frente de Pelé. Por outro lado, idolatria ou histórico não garantiram a Romário uma vaga no Mundial de 2002, com Felipão. No caso de Neymar, nas duas últimas Copas do Mundo (2018 e 2022), ele precisou se recuperar de lesões às vésperas do torneio, mas entrou no corte final de Tite.

Há cerca de 18 nomes definidos na lista final para o Mundial, segundo o próprio Ancelotti afirmou no ano passado. Se o histórico e número de Neymar serão suficientes para o italiano cravar um espaço para o atacante, só será conhecido em março, na última convocação. Até lá, o camisa 10 tem a estrutura do Santos — reformada em parceria com o clube — à sua disposição. E lutando contra o próprio corpo.

Foto de Murillo César Alves

Murillo César AlvesRedator

Jornalista pela Universidade de São Paulo (USP), com passagens por Estadão, UOL, 90min e QuintoQuarto.

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