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Não há justificativa para a decisão da direção do Cruzeiro em renegar a história do clube e dispensar Fábio

A nova gestão do Cruzeiro dá um tiro no pé ao destratar Fábio, que se mostrou aberto à readequação e não escondeu a mágoa pela falta de diálogo

Fábio é um sinônimo da história recente do Cruzeiro. O goleiro passou 18 anos na Toca da Raposa e participou de diversas campanhas memoráveis do clube, quase sempre como protagonista. Também não abandonou os celestes no momento de maior desespero, permanecendo na Série B e se esforçando para manter a honra da instituição – tão prejudicada pelos dirigentes. Ao longo de 976 partidas, o veterano construiu uma idolatria genuína e angariou um respeito raríssimo por sua identificação com a camisa. Uma trajetória que, mesmo no fim, se encerra de maneira abrupta. Nesta quarta-feira, o Cruzeiro anunciou a Fábio que não renovaria seu contrato até o final de 2022, como queria o goleiro, aceitando inclusive se adequar ao novo teto salarial. E a lenda não escondeu sua mágoa com a diretoria liderada por Ronaldo, mas ainda ressaltando sua gratidão à torcida.

Aos 41 anos, Fábio se encaminhava ao natural final de sua carreira. O goleiro deixava a impressão de que os anos a mais na ativa eram uma maneira de auxiliar na reconstrução do Cruzeiro, em meio às penúrias causadas pela má gestão. Segundo suas próprias palavras, o ídolo visava atuar até o final de 2022, numa última tentativa de recolocar a Raposa na primeira divisão nacional. E, além do carinho da torcida, o veterano seguia com o respaldo da antiga diretoria. Em novembro de 2021, o arqueiro já tinha apalavrado seu novo contrato com os celestes. Isso mudaria com a chegada da SAF presidida por Ronaldo.

Nos dois últimos dias, Fábio participou de reuniões com a nova direção do Cruzeiro. Recebeu a notícia de que o clube não contava mais com sua presença no elenco e que o antigo alinhamento para renovar até o final de 2022 não seria mantido. A proposta era a de ficar apenas mais três meses, a fim de se despedir do time no Campeonato Mineiro, mas sem a chance de participar de mais uma disputa da Série B. Segundo a versão de Fábio, o veterano ainda teria oferecido para receber dentro do teto salarial se ficasse até dezembro, o que não foi aceito pela gestão.

Além disso, conforme o jornal O Tempo, não houve um acordo na renegociação de dívidas antigas do clube com o goleiro. Existiam pagamentos atrasados desde 2019 e também um acordo anterior no qual os celestes prometiam que a redução salarial feita em 2020, após o rebaixamento, seria compensada posteriormente. Segundo o UOL Esporte, os valores superam R$10 milhões. Fábio queria garantias e não aceitou o modelo de pagamento proposto, embora estivesse disposto a equacionar os débitos em um tempo mais longo. A administração atual preferia adiar ao máximo essa quitação, o colocando na fila de credores da associação, e não da SAF. Magoado por tudo, o arqueiro preferiu encerrar seu vínculo de 18 anos com o Cruzeiro sem sequer aceitar a ideia de ficar para o estadual. Uma decisão, ainda assim, encaminhada pela própria direção.

“Meu desejo é permanecer até dezembro de 2022. A renovação do meu contrato foi acertada com o clube, através do presidente Sérgio Rodrigues em novembro de 2021, que inclusive anunciou publicamente, faltando apenas as assinaturas dos documentos negociados. Mas esta nova administração não me deu mais essa opção. Quero deixar claro que aceitaria a readequação ao novo teto salarial, mas essa nova administração também não me deu essa opção”, escreveu Fábio, nas redes sociais. “Sempre estive pronto para ajudar o Cruzeiro, inclusive me readequando à nova realidade, o que já fiz em outros momentos de dificuldade do clube. A minha relação com vocês será eterna e está gravada na minha memória e no meu coração. O meu carinho por vocês é gigante e a maneira que tratam a mim e minha família é algo que levarei pelo resto da vida, com imensa gratidão. Só Deus sabe o que estou sentindo neste momento”.

“Sobre as informações que estão circulando, informo que, ainda em minhas férias, no dia 28/12 recebi o comunicado da diretoria pedindo uma reunião assim que eu voltasse. Compareci no dia 4 de janeiro no horário marcado para ouvir a diretoria: de todo meu coração, segui para o clube feliz e tranquilo, aberto a escutar e ajudar no que fosse preciso. Mas, para minha surpresa, a atual diretoria foi clara, que não deseja contar comigo desportivamente para 2022. Na reunião estava presente o diretor executivo Pedro Martins e Gabriel Lima, representando a atual gestão. Paulo André, que estava na sala ao lado, não teve sequer a consideração de me cumprimentar, sendo ele um ex-companheiro de clube. Em nenhum momento de conversa me deram a opção de continuar”, complementou.

“Deixei claro que sempre estive disposto a receber dentro do teto salarial, inclusive aceitando reduções do novo contrato acertado para 2022 com o presidente Sérgio Rodrigues, e ficar dentro do novo teto estipulado. Mesmo assim, em vão. Meu único pedido foi que meu contrato se encerrasse em dezembro de 2022, dentro do teto que está sendo praticado. Sei o que passo em cada jogo, em cada volta para casa, em cada lágrima de dor, em ver nossa luta em voltar para a Série A. Não me deram nem a opção de receber dentro do teto e muito menos de ajudar o clube no Campeonato Brasileiro, não me deram outra opção que não fosse finalizar minha vida no Cruzeiro ao final do Campeonato Mineiro. Me disseram que qualquer outro cenário estava inviabilizado e que eu não faço parte do planejamento para 2022. Os três meses que me ofereceram de contrato só aumentariam a minha dor da despedida, ajudar a levar o Cruzeiro de volta à Série A era meu maior sonho”, salientou ainda.

Não importa que Fábio estivesse fora dos planos esportivos do clube, seja por sua idade ou pelo próprio estilo de jogo que o novo treinador promete adotar. O goleiro é um símbolo do Cruzeiro e nunca a diretoria deveria ter ignorado isso. Sequer ofereceu a oportunidade para ele se provar mais uma vez, depois de tantos anos em alto nível. Mesmo que não fosse mais titular, Fábio é uma liderança fundamental dentro dos vestiários para esse momento de transição e com um conhecimento ímpar da instituição. Toda essa contribuição acaba dispensada de imediato.

Já a ideia de “cortar gastos” também não faz sentido, ainda mais diante da versão do goleiro de readequar seu salário – segundo informações do jornal O Tempo, seriam cortados cerca de 60% dos R$350 mil acordados inicialmente com a administração anterior. Que Fábio não tenha aceitado a proposta feita para pagar as dívidas antigas, a nova diretoria também tem obrigação de encontrar uma solução para resolver os débitos com o arqueiro que se arrastam. No que soa como mesquinharia e uma dose de retaliação, pelo fato do veterano não se curvar aos termos propostos, a história se rompe com ares de destrato e sem um aparente motivo plausível ante a falta de diálogo.

A SAF do Cruzeiro dá um tiro no pé com sua decisão. É óbvio que grande parte da torcida vai se voltar contra a ideia de ignorar Fábio. É uma ingratidão da direção que fica como mancha numa das histórias mais bonitas escritas dentro do clube. Fábio foi um exemplo de profissionalismo ao longo de quase duas décadas e, junto com isso, também um orgulho dos torcedores por seu talento. Nada mais natural que corresponder à sua dedicação. Mas não foi assim que Ronaldo, Paulo André, Pedro Martins e os novos responsáveis pela gestão pensaram.

O “novo Cruzeiro” deveria promover mudanças, mas não renegar o próprio passado. Com isso, a direção cria um inimigo que não deveria: a própria torcida. A onda negativa sobre a postura do clube começa a ser demonstrada e gera uma pressão no início do trabalho, assim como afasta o apoio da nação celeste quando mais se precisava. Há um risco inclusive de um custo financeiro maior, com os torcedores desgostosos pela forma como o assunto foi tratado, o que talvez repercuta no programa de sócios. Pode até ser que a Raposa se reconstrua mesmo com a SAF e consiga sair do buraco profundo em que se encontra. Mas não se apaga a forma fria com que se tratou uma das maiores figuras da história cruzeirense. Isso sempre vai doer na torcida, por mais que ela não tenha culpa. O reconhecimento à grandeza da Fábio, ao menos, sempre será eterno.

No fim das contas, essa história soa tão absurda que dá uma certa impressão de que pode ser revertida. Não é a tentativa da diretoria de escrever palavras bonitas nas redes sociais que aplacará a insatisfação da torcida e, a esta altura, é bem possível que os gestores tenham se dado conta da burrada que cometeram. O ponto é que a honra de Fábio foi ferida. Apesar de toda a sua entrega à Raposa, fica difícil de imaginar que o veterano volte atrás em sua decisão caso seja procurado, até pela forma como escancarou sua mágoa. A realização de um emblemático jogo 1.000 para o recordista em presenças na história centenária celeste, ao que tudo indica, ficará mesmo nos sonhos.

Fábio continuará no Cruzeiro através da memória. Das lembranças das milhares de defesas, dos muitos títulos conquistados, das atuações brilhantes, da maneira como se manteve firme pelo Cruzeiro nos momentos bons e ruins. Sua relação com o clube é daquelas que são recontadas por décadas e décadas, porque é nela que os cruzeirenses encontrarão parte de sua própria paixão e da memória afetiva. A mesma memória que não se esquecerá do ato inconcebível da diretoria e cobrará por isso a cada mínimo deslize. Este é um golpe na forma como cada torcedor celeste sente o clube, porque Fábio foi onipresente nesse sentimento durante 18 anos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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