Não estamos dando importância demais a um inofensivo vídeo do Robinho cantando funk?
O Palmeiras não ganha o Campeonato Paulista há sete anos. O Santos, mesmo na sua sétima final consecutiva, precisa do título para referendar um time jovem. Há as 20 contratações de Alexandre Mattos, os garotos da Vila, Oswaldo de Oliveira contra um jovem interino, Robinho e Valdivia. Mas a dois dias da decisão do estadual de São Paulo, parece que tudo se resume ao vídeo de um funk e à motivação que isso vai trazer à equipe de Palestra Itália.
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Quem olha o noticiário um pouco exagerado sobre o inofensivo vídeo vazado na internet com Robinho cantando uma música provocativa ao Palmeiras tem essa sensação. Não foi nada mais que uma brincadeira interna dos jogadores do Santos. Tanto que as imagens nem deveriam ser vazadas e, segundo Lucas Lima, o elenco está em busca do seu dedo-duro. Mas mesmo que tenha sido produzido com o intuito declarado de provocar o adversário, qual é o problema?
O conteúdo não foi ofensivo. Não sou o maior especialista de funk, mas a letra exalta o Santos, a Vila Belmiro, Pelé e a história do clube muito mais do que cutuca o Palmeiras. O nome do adversário é citado uma vez, o que é irrelevante. Poderia não ter sido citado de maneira nenhuma e, no contexto atual, todos saberiam qual era o alvo da brincadeira que, aliás, é muito mais saudável do que as que estamos nos acostumando a ver nos estádios.
O futebol paulista parece infectado pelo vírus dos gritos homofóbicos na hora do goleiro bater tiro de meta. As torcidas de Palmeiras e Corinthians, pelo menos, fizeram isso em quase todas as partidas do Paulistão. Sem contar as vezes que as arquibancadas de vários clubes ao redor do país confundem racismo com brincadeira. Se me perguntarem, prefiro muito mais um funk absolutamente inofensivo a piadas carregadas de preconceito.
Deveríamos estar acostumados às brincadeiras sadias. O futebol brasileiro produziu grandes craques, mas também provocadores de primeira linha, como Renato Gaúcho, Romário, Edmundo e Vampeta, embora esse último às vezes desse uma bola fora. Quando chegou ao Flamengo em 1995, o Baixinho mandou a torcida do Vasco “levar lenços ao Maracanã porque ela choraria muito”. Agora recentemente, Walter falou que “deitaria e rolaria” para cima do rubro-negro, mas o Fluminense perdeu. Os jogadores rivais comemoraram deitando e rolando. Muita gente deu risada.
Que, no final das contas, convenhamos, é para o que o futebol serve. Aposto que muitos torcedores do Santos se divertiram com o vídeo do Robinho, um elemento a mais para uma final que já tem muitas atrações. Até alguns palmeirenses devem ter achado engraçado e vão, muito provavelmente, responder a brincadeira se o time deles for campeão, assim como os jogadores alviverdes. Faz parte do jogo, ninguém vai perder ou ganhar por causa disso.
Isso é bom ficar claro. Custo a acreditar que o Palmeiras precisasse dessa provocação para se motivar a vencer o estadual pela primeira vez em sete anos e um título de primeira divisão em três. Sem falar da afirmação de um grupo inteiro recém-contratado e da recuperação da auto-estima do torcedor após uma temporada na qual quase foi rebaixado. Sabe o que ajuda a motivar nessas horas? Mais de 13 milhões de torcedores, centenas de milhares de reais depositados mensalmente (e em dia) na conta, uma preleção como a do Zé Roberto no começo do Paulista, ou, melhor ainda, uma como a de Marcos antes da final contra a Ponte Preta em 2008.
Caso o Palmeiras seja campeão no domingo, será porque venceu em casa por 1 a 0 e soube, tática e tecnicamente, manter a vantagem na Vila Belmiro. Caso o Santos seja campeão, será porque Dudu errou um pênalti, Cleiton Xavier perdeu um gol feito, e o seu time teve essa competência de vencer bem dentro de casa. Ou, e o futebol tem dessas, por causa de um escorregão na hora de cobrar uma penalidade decisiva, uma bola na trave ou um drible que entrou. O vídeo que vazou na internet é ínfimo nessa equação. Meramente uma piada e nada mais.