Não, bandeirinha de Santos x Corinthians não tinha de ir para geladeira
O erro de arbitragem de Santos 3×2 Corinthians foi grave. Nem tanto pelos lances analisados isoladamente, mas pela incrível e improvável sequência de três impedimentos seguidos, na mesma jogada, serem ignorados. Culpa, diga-se, que não é do árbitro Flávio Rodrigues Guerra. É, sim, do bandeira Emerson Augusto de Carvalho. Depois da repercussão do lance, a Conaf (Comissão Nacional de Árbitros de Futebol) resolveu dar um mês de geladeira para Emerson.
Manuel Serapião, vice-presidente da Conaf, disse à Rádio Globo: “Conversamos com o Emerson no sentido de orientá-lo. Vamos passar um trabalho para que ele se aperfeiçoe. No último lance houve erro de posicionamento, vamos seguir aperfeiçoando. É um assistente que tem saldo positivo, mas revelou deficiência técnica. Nesse caso isso que aconteceu. Vai passar por treinamento, até por avaliação das condições físicas”. Então ele ficará um mês se reciclando, OK. parece justo suspender um árbitro (ou bandeira) que cometeu um erro capital em um clássico.
Parece justo, mas não era a melhor atitude. Não que ele deva ser perdoado, ou que os árbitros devam ser protegidos por entidades corporativistas. O problema é como a punição foi anunciada e o que isso pode ocasionar como efeito secundário.
Erros de arbitragem existem aos montes. A Portuguesa foi prejudicada por um pênalti não marcado contra o Botafogo, mas foi beneficiada por um pênalti confuso marcado a seu favor contra o Internacional. O Atlético Goianiense poderia ter vencido o Santos no Pacaembu se o árbitro não visse pênalti em uma jogada normal em Miralles. Os palmeirenses reclamam, com razão, de erros bizarros nas partidas contra Bahia e Botafogo. O Fluminense teria melhor condição na disputa pela ponta se um gol legítimo de Fred não tivesse sido anulado no confronto direto contra o Atlético Mineiro.
Nenhum desses erros foi maior ou menor que o de Santos x Corinthians. Foram equívocos absurdos, mas que não geraram punição e, em alguns casos, nem repercussão na mídia. Ou alguém aí tomou as dores da Portuguesa contra o Botafogo ou do Atlético Goianiense contra o Santos?
Desse modo, afastar Emerson Augusto de Carvalho passa uma mensagem errada a todo o meio do futebol: só vai à geladeira quem errar em rede nacional contra um clube grande. E isso não é só com o Corinthians. Vários árbitros foram punidos ou vetados nos últimos anos por atuações fracas em partidas de Palmeiras, São Paulo, Flamengo…
Ao punir o bandeira de Santos x Corinthians, a Conaf nada mais faz que aumentar o valor de determinados erros, e de dar satisfação à opinião pública em um caso de grande repercussão. Tirá-lo de circulação por completo não ajudará seu “aperfeiçoamento”, só fará ele ficar mais tenso e inseguro na próxima vez que entrar num gramado.
Se Emerson de Carvalho está bem cotado (e estava até ontem, tanto que é da Fifa e foi escalado para um clássico), muito mais sentido seria tirá-lo por algumas rodadas de jogos grandes, sobretudo de Corinthians e Santos, até o assunto esfriar. Nesse tempo, ele recuperaria a confiança em jogos sem tanta pressão e poderia retomar seu ritmo. Se mesmo assim os problemas se repetirem, aí sim, se justifica uma punição.
Agora, se ele é tão ruim a ponto de um equívoco apenas motivar “trabalho de reciclagem” que os árbitros de Santos x Atletico-GO, Portuguesa x Botafogo e Palmeiras x Bahia não mereceram, o erro não é de Emerson de Carvalho, mas de quem o escalou para um clássico. Mas acho difícil que a Conaf puna o responsável por isso.