Brasil

Muito além da camisa: como as cores influenciam a identidade e outras tantas relações ao redor do futebol

As cores dos clubes possuem uma influência enorme no entendimento do futebol e na construção de muitas relações, da violência entre torcidas à escolha de patrocinadores

Por Beatriz Sardinha e Lucas Zacari

Tricolores, alvinegros, alviverdes, rubro-negros, colorados – isso sem contar a tão famosa Amarelinha. Todos esses apelidos de clubes de futebol e da seleção brasileira têm um denominador comum: a presença da cor. Nos hinos, na comunicação institucional, nas bandeiras, praticamente tudo que remeta a um time de futebol terá na coloração a sua base e a percepção natural de qual clube é.

As cores dos times passam a ser um regimento na vida dos torcedores e as cores dos clubes rivais, por vezes, não são mais toleradas pelos fanáticos. Parece improvável, mas todo um funcionamento das negociações dos clubes com as marcas, das interações dentro das cidades e até mesmo das expressões ideológicas e sociais passam por uma primeira relação: a cor utilizada para tal será a do meu time?

As tribos dentro do futebol

O esporte, sobretudo o futebol, compartilha um aspecto que é intrínseco à convivência da espécie humana: o pertencimento a um grupo. Desde as civilizações mais antigas, a organização em grupos pautada por interesses e objetivos semelhantes é presente e importante para a convivência das pessoas. 

Para representar esses agrupamentos, são essenciais os símbolos, bandeiras, roupas, ritos, cânticos, ícones – tudo que pudesse criar a unidade dessa população e, principalmente, identificar quem era pertencente a qual grupo. Essa representação é a mesma que se apresenta nos arredores dos estádios em dias de jogos, com a unicidade de cores presente quase que majoritariamente, reunindo pessoas que não se conheciam anteriormente por um único fator: seu time de coração. 

Pesquisadora e mestre em Design pela PUC-Rio, Eliane Rocha fala sobre o valor simbólico das agremiações do futebol. Ela comenta sobre os valores fundamentais legitimados na cultura futebolística, geralmente associados a uma aura religiosa. “Há uma dimensão religiosa na iconografia das agremiações de futebol, já presente e disseminada na cultura brasileira. Os símbolos gráficos estão vinculados aos valores simbólicos fundamentais, ao sagrado, e são venerados como legítimos dentro da cultura do futebol. Nós lhes atribuímos uma aura religiosa. No sentido de estabelecer uma conexão do aspecto, considera-se oportuna uma observação inicial a respeito das cores e de sua relação com o sagrado”, explica a pesquisadora.

E são esses tons cromáticos que, inclusive, acendem e impulsionam as rivalidades locais. Para Jorge Avancini, Vice-presidente de Marketing e Mídia do Internacional, as cores são a forma de se afirmar como torcedor e como clube. “A gente dá muita importância, é aquela cultura quase que militar, de proteger a bandeira, que é o teu grande símbolo. É o domínio teu como senhor do castelo, que é o estádio”, afirma.

Isso é ainda mais forte no Rio Grande do Sul, em que o estado é praticamente dividido entre o vermelho do Inter e o azul do Grêmio, um dos principais e mais tradicionais clássicos do país. Para efeito de comparação, segundo pesquisa realizada em 2014 pelo Ibope, o estado é o que menos possui entrada de outras equipes em relação ao Brasil todo, com praticamente 92% dos torcedores gaúchos sendo ou colorados ou gremistas. Com isso, a rivalidade entre os dois acaba sendo impulsionada por essa sensação de, em cada momento, poder estar rodeado de rivais, tendo que ficar sempre a postos com suas cores.

Ao entrar em mais detalhes sobre a cor vermelha, Eliane fala sobre sua influência nas emoções do Gre-Nal: “O Sport Club Internacional, o Colorado, se autodenomina ‘o time da paixão’. Outras cores podem associar seu simbolismo e significados emocionais. Definitivamente a cor constitui um elemento fundamental na construção da identidade de cada clube.” O vermelho, por exemplo, é a cor que prevalece nas cerimônias religiosas católicas. “Essa primazia não é gratuita, pois além de ser a cor empregada pela poderosa Irmandade do Santíssimo Sacramento, responsável pelo transporte do corpo de Cristo na procissão da Quinta-feira Santa, é a cor que significa uma das três virtudes teologais. Entre a fé, a caridade e a esperança, a cor vermelha significa a fé”, comenta Eliane.

tiveram a presença de torcida mista e, pelas diferenças das cores dos times, é muito fácil de diferenciar o colorado do gremista [Imagem: Lucas Uebel/ Grêmio FBPA]
Diante disso, as relações com os clubes, por muitas vezes, ultrapassam as quatro linhas do gramado. Fred Fagundes, jornalista e torcedor gremista, aponta como essa noção de defesa das suas cores, impulsionada pelos próprios clubes, torna-se intrínseca aos fanáticos: “O torcedor se sente parte do clube. Então quando ele ganha um produto que tem as cores do rival, ele sente como se estivesse traindo o clube, parece que alguém irá julgá-lo”.

Apesar dessa relação conflituosa entre o vermelho e o azul dentro do Rio Grande do Sul, essa rivalidade visual poderia ter tonalidades diferentes e, no mínimo, curiosas. Na fundação do Internacional, de acordo com o site oficial do clube, a escolha da cor surgiu a partir de uma votação envolvendo os grupos de carnaval de rua local: os Venezianos, que tinha o alvirrubro em suas indumentárias, e o alviverde dos Esmeraldinos. 

Avancini aponta um aspecto complementar das cores utilizadas pelo Inter, a partir da Revolução Federalista: “Os dois grupos que se digladiavam eram defendidos por cores diferentes. Tinham os Chimangos, identificados pelo lenço branco, defensores do Império; e os Maragatos, com lenços vermelhos, defensores de ser republicano”. Segundo o blog Arquibancada Colorada, o primeiro presidente dos Venezianos, o Coronel Joaquim Pedro Salgado, era alinhado aos Maragatos – por isso as cores da instituição e, posteriormente, do clube. 

Se a cor vermelha era uma das escolhas do lado do Beira-Rio, é difícil imaginar que o lado tricolor poderia não ser azul, preto e branco, mas sim ter a intromissão do próprio vermelho, hoje rejeitado pela rivalidade. Fundado pelo paulista Cândido Dias, sua intenção era de que as cores do Grêmio fossem em homenagem à bandeira do estado de São Paulo, ou seja, com o vermelho no lugar do azul. Logo que a ideia foi proposta, não foi aceita pelos demais sócios, sugerindo a cor havana – um tom alaranjado – para acompanhar as duas cores neutras. Contudo, segundo relatos da época, por ser uma tonalidade de difícil acesso para confecção dos uniformes, decidiu-se pelo azulado característico. 

No Brasil, além do caso do Gre-Nal, existem muitas outras rivalidades no país que têm, na presença das cores, um embate principal de defesa de sua “tribo”. Palmeiras e Corinthians, Atlético Mineiro e Cruzeiro, Bahia e Vitória: a lista é grande de casos em que as cores tomam conta dessas partidas. Eliane destaca a mistura de cores no clássico Fla-Flu: “O vermelho, o preto, o grená, o verde e o branco, quando integrados durante os enfrentamentos desses clubes, conferem um visual diferenciado, que vai permitir destaques particulares. O Fla-Flu é reconhecido por todos como o clássico mais colorido do Brasil.”

Entretanto, existe um caso especial no país em que, além da cor, a tonalidade é essencial para representar os clubes: os azuis do clássico Re-Pa. O azul marinho do Remo contrapõe-se ao celeste do Paysandu, tornando mais difícil para os aficionados demonstrarem sua paixão. De acordo com os próprios manuais de marca das equipes, enquanto o Leão teve inspiração no Rowing Club, da Inglaterra, o Papão da Curuzu utilizou as cores da bandeira do Uruguai em seus domínios. Dessa forma, em terras paraenses, não basta apenas usar o azul para identificar seu grupo, tem que ser o exato e correto Pantone dos clubes – 282C e 299C, respectivamente. 

As torcidas de Paysandu e Remo, respectivamente, com seus azuis característicos [Imagem: Reprodução]
E tal questão não se restringe ao Brasil. Ao redor do mundo, as tribos futebolísticas se enfrentam tentando defender e alçar seus tons cromáticos ao ápice. Na Inglaterra, por exemplo, os Derbies de Manchester e de Merseyside são, assim como o Gre-Nal, pautados pelos vermelhos contra os azuis. 

Os argentinos também possuem, nas cores, a representação das rivalidades locais. Basta assistir a um jogo em qualquer estádio do país que, por conta da pintura da estrutura, é possível deduzir qual é o time dono. O alviceleste do Racing contra o vermelho do Independiente ou o rubro-negro Newell’s e o auriazul do Rosario Central são algumas das rivalidades locais que, pelas cores, é possível identificar o embate futebolístico.

Uma das maiores rivalidades do mundo é o Superclássico, que coloca frente a frente o azul y oro do Boca Juniors com o rojo y blanco do River Plate. Curiosamente, quando foram criados, nem mesmo os millonarios queriam usar o alvirrubro, para não comparar a sua atuação com a do Alumni, principal clube da era amadora do futebol argentino. Assim, os dois times, criados em La Boca, utilizavam do branco e preto em suas partidas. A partir do início do sucesso esportivo, as duas diretorias buscaram elementos para inspirar a sua identidade como uma equipe reconhecida também nas cores dos clubes. 

Acima, a torcida do River. Abaixo, a do Boca. As cores tornam a rivalidade ainda mais impactante [Imagem: Reprodução/La Razón]
Do lado do Boca, segundo o próprio site, a escolha aconteceu de maneira direta: no ano de 1910, foram até o porto e os tons aplicados na bandeira do primeiro navio que aparecesse fariam parte do novo uniforme. O navio era de origem sueca e, por isso, o azul e amarelo foi escolhido para representar o clube. 

Por parte do River, não existe uma explicação institucional. Contudo, existem duas teorias fortes para a repentina mudança para o vermelho e branco. A primeira diz que seria uma homenagem aos navios ingleses que atracavam no mesmo porto de La Boca; enquanto a segunda diz que estaria homenageando a cruz vermelha de São Jorge. Existe ainda uma terceira, mais inusitada, de que, em uma noite carnavalesca de 1905, jogadores da equipe roubaram uma faixa vermelha de seda de um táxi e a aplicaram transversalmente na camisa de jogo, prontamente aceita pelos sócios da equipe.

Em Portugal, ainda, as coisas são mais intensas: os três principais clubes do país possuem cores extremamente distintas e fortes em suas representações. O verde do Sporting, o azul do Porto ou o vermelho do Benfica, todos eles são identificados fielmente com seus clubes e, ao encontrar algum fanático futebolista, a chance de ele estar vestindo alguma cor da sua “tribo” portuguesa é bem alta. E é nas Águias, alcunha pela qual o Benfica é conhecido, que a relação de identidade com a cor ultrapassou realmente a barreira futebolística e, pela figura do “encarnado”, demonstrou a forma como uma ideologia pode se utilizar da paixão.

Os fundadores do clube escolheram a tonalidade vermelha, entre 1903 e 1904, pois ela representava “o tom, a vivacidade e a alegria da cor das suas camisolas”, segundo a comunicação institucional do próprio Benfica. Entretanto, essa vivacidade pretendida teve seus dias contados com a ascensão do governo fascista de Salazar, vigente entre 1933 e 1974. Apesar de não ser tão adepto ao futebol, sabendo do clamor popular que esse esporte possuía, procurou alinhar-se ao Benfica, que, na década de 1960, teria um dos principais esquadrões da Europa.

Até esse ponto, ver um time virando bandeira de uma ditadura não era novidade. A interferência mais vívida, entretanto, foi justamente na capacidade da “troca do nome” da cor vermelha por conta da correlação entre a tonalidade e o comunismo, o principal inimigo para o ditador. Assim, o vermelho passou a ser chamado de “encarnado”, termo que significa “a cor da carne”, e que, até os dias atuais, ainda é a referência do time benfiquista para muitos torcedores.

A torcida dos vermelhos – ou encarnados – do Benfica [Imagem: Divulgação/Benfica]
A história do Benfica se relaciona aos aspectos negativos que Eliane Rocha comenta sobre a utilização do vermelho: “O caráter negativo do sangue está associado à impureza, à violência, e a todos os aspectos pecaminosos da Bíblia. Retrata a cabeleira de Judas e as chamas do inferno. É o vermelho do crime, da cólera e da guerra. Simboliza também os ideais revolucionários. Até o século XIX, muitos uniformes militares são vermelhos.”

A legitimação do movimento LGBTQIA+ com a exclusão do verde 

O Dérbi entre Corinthians e Palmeiras representa uma das rivalidades brasileiras mais ferrenhas, não apenas pelo protagonismo e por suas torcidas fanáticas, mas pela igualdade no retrospecto dos confrontos. Em 370 jogos, foram 130 vitórias para o Palmeiras, 128 para o Corinthians e 112 empates. Aqui, as cores do Dérbi também se mostram como uma das principais formas de demonstração da paixão e da identificação com o clube.

O Corinthians, identificado pelas cores preta e branca, apresenta uma séria questão com a utilização de verde em seus perfis e instituições associadas à causa do clube. Um caso recente envolveu o perfil do Coletivo LGBT do Corinthians, reconhecido oficialmente pelo Corinthians no começo de 2021. No início deste ano, o grupo divulgou seu novo logo, que continha o escudo do Corinthians, mas, no lugar da bandeira de São Paulo, havia a bandeira do movimento LGBTQIA+, com uma pequena alteração: a exclusão da cor verde. 

Novo escudo oficial do Fiel LGBT [Imagem: Reprodução]
A alteração da bandeira original repercutiu muito na rede em que o perfil atua. Em uma conversa com membros da Fiel LGBT, a Jornalismo Júnior falou sobre a rivalidade e a cor verde. O torcedor e membro do coletivo LGBT do Corinthians Yago Gomes vê a rivalidade como uma realidade muito grande. Ele comenta que acaba levando para o lado pessoal, e que a questão chega ao ponto de até evitar usar a cor no cotidiano. Theo Lourenço, também membro do coletivo, comenta que já não gostava da cor verde e, com a questão da rivalidade entre Corinthians e Palmeiras, passou a desgostar mais ainda. Ele também acrescenta que, quanto ao Corinthians, o clube também deve focar em suas próprias cores: para ele, dentro do campo as cores do Corinthians devem ser apenas o preto e o branco, mas apoia que outras cores de camisa sejam vendidas aos torcedores. “Para jogar, é preto e branco”, diz.

Embora alterações em bandeiras e símbolos de movimentos sociais seja algo relativamente comum no cotidiano da militância, a modificação de uma bandeira tão difundida por um coletivo legitimado pelo clube traz grande impacto. O movimento LGBTQIA+ possui outras bandeiras que integram, justamente, a diversidade do movimento. A alteração da bandeira e a exclusão do verde trazem um elemento de identificação e unidade à torcida queer do Timão.

Na bandeira do movimento LGBT, a cor verde significa natureza. Para corresponder às expectativas da maioria da torcida do Corinthians, uma votação foi feita para concluir que a melhor decisão para representar o grupo seria de, também, excluir o verde: “A gente não pode fazer um coletivo que seja da minoria, mas sim um que possa levantar voz à maior quantidade de pessoas possível. Por isso achamos bom envolver a torcida em tudo que nós possamos e venhamos a fazer”, complementa Yago.

Mesmo com a decisão por meio de votação, Yago explica que a proposta dividiu o coletivo: “Tinham pessoas que eram favoráveis e outras contra justamente por essa questão da ‘essência’ do movimento”. Ainda que símbolos estejam abertos para serem reapropriados e alterados, a decisão tomada pelo coletivo expõe a relevância da questão para comprovar a legitimidade da comunidade dentro da Fiel.

As cores dos times e a publicidade

A maioria das empresas possui, dentro do seu departamento de comunicação, o seu manual de identidade visual. Nele, estão descritos os usos corretos e incorretos das suas logos, envolvendo tamanho, aplicações em fundos distintos e, principalmente, as cores. Mas o que acontece quando as cores da paixão futebolística esbarram nessas determinações?

A dupla Gre-Nal acaba voltando à cena por conta de sua forte relação nessa temática das cores. Segundo Avancini, o Vice-presidente de Marketing e Mídia dos colorados, “a gente é tratado de ambos os lados com muito rigorismo, que chega até o ponto em que, em todos os nossos contratos, têm uma cláusula na qual é proibida qualquer cor azul, de manifestar qualquer tipo de cor azul – assim como o Grêmio tem, em seus contratos, proibido de usar a cor vermelha”.

Além disso, por ser uma rivalidade muito intensa, é difícil de ver uma empresa que patrocine apenas um dos times, para justamente não ter rejeição pela torcida adversária. Por conta disso, é muito comum que se observe, nas camisetas coloradas e tricolores, exatamente as mesmas marcas estampadas.  Talvez o patrocínio que mais se relacione aos times do Rio Grande do Sul seja o do banco estatal Banrisul. Desde 2001 como patrocínio máster de ambos, para ser aceita na camiseta do Inter, teve que retirar sua cor azul e estampar a marca apenas com a cor branca, neutra e presente nas duas equipes.

Com exceção da fornecedora de material esportivo, a dupla Grenal costuma ter os mesmos patrocínios, todos eles sem as cores do rival [Imagem: Divulgação/Banrisul]
Fagundes ressalta como as cores moldam os hábitos de consumo dos torcedores: “Durante anos só vendia Pepsi no Olímpico. Tanto que o Rio Grande do Sul é um dos estados que mais consomem Pepsi no Brasil e há pesquisas que mostram que é devido à cor da lata”. Ele ainda complementa que as marcas, inclusive, já alteraram cores para agradar colorados e gremistas: “Quantas vezes a Brahma lançou latinha azul em Porto Alegre? Até hoje deve ter”.

Ao atravessar a fronteira, a rivalidade Boca Juniors e River Plate segue alguns dos mesmos princípios do Gre-Nal. A dicotomia entre o azul e amarelo e o vermelho e branco faz com que as empresas também se articulem para agradar gregos e troianos. Ou melhor, xeneizes e millonarios. Apesar de, atualmente, as concorrentes Qatar Airways e Turkish Airlines patrocinarem os rivais, é muito comum vê-los com as mesmas empresas, justamente para não ter rejeição de boa parte da população argentina, assim como ocorre com a dupla gaúcha. Segundo pesquisa da Consultoria Equis, de 2012, a cada dez torcedores do país, sete tem afinidade por uma das duas equipes.  Com isso, nos últimos anos, Huawei, AXE e BBVA Francés são algumas das marcas que estamparam ambos uniformes. O banco espanhol, inclusive, teve que aplicar sua marca em preto na camisa principal do River Plate, justamente para não estar com o azul do maior rival no próprio manto.

Boca e River em ação com o mesmo patrocinador, mas em cores diferentes [Imagem: Reprodução/Nexofin]
Retornando ao Brasil, a própria opção estética e de correlação com as cores do time pode interferir na aplicação das marcas. Nesse sentido, no ano de 2019, a adaptação da marca alaranjada do Banco BMG às cores das equipes patrocinadas foi polêmica. Desde o início da década passada, a instituição passou a patrocinar alguns dos principais clubes brasileiros, como Flamengo, São Paulo e Santos. Com isso, o forte tom laranja roubava a cena nos uniformes principais, o que gerava muitas reclamações dos torcedores.

Ao final da década, quando iniciou o patrocínio com Atlético Mineiro, Corinthians e Vasco, as torcidas pediram para que a marca fosse aplicada em preto ou em branco, justamente para combinar com os uniformes das equipes. O BMG, então, condicionou a troca da cor à abertura de 50 mil contas de torcedores de cada time, o que não aconteceu, com a maior adesão sendo de 38 mil contas da torcida do Galo.

Apesar disso, a instituição financeira aceitou a troca e, nas camisetas, a marca ficou nas cores neutras desejadas. Contudo, a maior gafe aconteceu no anúncio da troca do patrocínio cruzmaltino: no vídeo de apresentação dessa mudança, a música de fundo colocada foi a canção “Mengão do Meu Coração”, entoada pela torcida flamenguista sobretudo durante a campanha do Campeonato Brasileiro de 2009. Apesar de ter sido apagado minutos depois da publicação nas redes sociais, a irritação dos vascaínos foi imediata.

Já o caso mais emblemático de uma marca que, por conta dessas paixões e repulsa pelas cores dos times, teve que alterar as suas aplicações nos patrocínios aconteceu no ano de 1987. Após a confusão que ocorreu no Brasileiro do ano anterior e a falta de dinheiro por parte da CBF em viabilizar um campeonato, o Clube dos 13 entrou em ação e criou a Copa União, com 16 das principais torcidas do país. 

Neste campeonato, três marcas estavam patrocinando-o: a TV Globo, que transmitiria com exclusividade os jogos; a empresa de aviação Varig, para realizar os deslocamentos dos times; e a Coca-Cola, que patrocinaria e estamparia na camiseta das equipes sua tão conhecida logo vermelha e branca. E aí veio o grande problema. Dos 16 times, apenas 10 receberam o patrocínio – os quatro grandes de São Paulo, além Internacional e Flamengo, já possuíam acordos vigentes com outras empresas. No entanto, as restrições acerca das cores da marca iriam ser presentes no relacionamento com os times que tinham rivais vermelhos. 

Assim, Botafogo, Coritiba e Grêmio reivindicaram que essa cor não estivesse presente em suas camisetas. A Coca-Cola, após o envolvimento inclusive da matriz, sediada em Atlanta, cedeu e, com isso, a tão conhecida combinação cromática deu espaço para o preto e branco, cores neutras, nas camisas desses times. As únicas exceções foram para peças de propaganda ou para as camisas de goleiro, no caso paranaense. Assim, foram criadas combinações inusitadas do tricolor gaúcho, do alviverde coxa-branca ou do alvinegro botafoguense com o vermelho. Misturas, até então, inimagináveis.

As cores de uma rivalidade política

O clássico “Old Firm” é a partida que divide a cidade de Glasgow e o restante da Escócia. O Rangers e o Celtic são os principais times do país e, além disso, reflexos das culturas que moldam a identidade local.

Mudanças de cores de patrocinadores também já ocorreram entre os rivais escoceses. A Carling Brewery, uma das empresas de cervejas mais famosas do Reino Unido, perdeu suas linhas vermelhas no patrocínio do Celtic. No lugar delas, as linhas passaram a ter a cor branca ou dourada, dependendo do modelo. A troca foi feita para que não houvesse nenhuma menção às cores do rival, Rangers, que também teve a empresa estampada em seu uniforme entre 2005 e 2013.

Camisas de Celtic e Rangers [Imagem: Reprodução]
Identificado pelas cores verde e branca, o Celtic é um clube influenciado pela vinda de imigrantes irlandeses à Escócia, principalmente nos anos 1880, época da fundação da agremiação. Essa parcela irlandesa, que migrou em busca de emprego e melhores condições de vida, é responsável por trazer ao país sua fé católica. O trecho presente no site oficial do clube sobre a fundação do Celtic fala sobre como a instituição foi pensada como um espaço para que a comunidade irlandesa pudesse se sentir acolhida. “A caridade é representada pela cor branca, e a esperança, pela cor verde”, comenta Eliane Rocha, o que corrobora para a visão institucional que o Celtic busca transmitir em sua história. A cultura celta e a cultura católica irlandesa, associadas às cores branca e verde, são divergentes da cultura protestante do Reino Unido, relativa ao Rangers, de tradição geralmente associada às cores azul e vermelha.

O dia da Old Firm provoca uma tensão na cidade. E há mesmo uma preocupação de que as cores específicas nas roupas dos torcedores possam desencadear brigas, se tornando proibidas em certos locais. Por conta dos receios das ações dos hooligans, os jogos são marcados durante o dia, justamente para evitar que as torcidas passem muito tempo consumindo bebidas alcoólicas. Estabelecimentos comerciais colocam avisos e proíbem a entrada de torcedores no dia do clássico. O sectarismo, inclusive, influencia as contratações realizadas. Em sua história, o Rangers teve uma quantidade de jogadores católicos mínima vestindo sua camisa, a grande maioria deles apenas mais recentemente, principalmente a partir da virada do milênio.

Aviso na porta de restaurante no centro de Glasgow: “Cores de futebol de qualquer tipo não serão permitidas nas proximidades no dia de hoje e nós não transmitiremos o ‘The Old Firm’ nesta noite. Desculpas por qualquer inconveniente.” [Imagem: reprodução VICE “Football’s Most Dangerous Rivalry”]
As cores, além do mais, expressam de forma mais clara o sectarismo, com seus significados profundos – também abarcando o conflito entre o separatismo da Irlanda, associada ao Celtic, e o Reino Unido, vinculado aos unionistas mais presentes na torcida do Rangers. Em 2012, chegou a ser aprovada uma lei para tentar reduzir o sectarismo e a intolerância religiosa entre torcedores de Celtic e Rangers. Palavras típicas da rivalidade, “Huns” e “Fenians” foram proibidas, por serem termos pejorativos para torcedores do Rangers e do Celtic. O termo “Huns” pode ser usado para apontar uma identificação do Rangers com o Império Britânico e, inclusive, pode remeter a uma “covardia” dos jogadores do Rangers na Primeira Guerra Mundial, quando se recusaram a participar do front. Já o termo “Fenians” remete a grupos do Século XIX que lutavam pela independência da Irlanda.

Os estereótipos ainda são muito presentes na imagem entre os torcedores do confronto. Em entrevista para a Jornalismo Júnior, um torcedor celta* classificou a rivalidade como uma luta entre o dominador e o “vira-lata”: “O Rangers é o time do ‘establishment’, protestante e britânico. O Celtic é de origem irlandesa com uma raiz republicana muito forte no nosso apoio ao time. Nós não somos fãs da realeza e sempre apoiamos os desfavorecidos, como o IRA [Exército Republicano Irlandês] e PLO [Exército Provisional da República Irlandesa]”.

Torcedores do Celtic enforcam bonecos infláveis com bandeiras do Reino Unido após vitória por 5×1 no clássico em 2016 [Imagem: Reprodução Twitter]
As cores da bandeira do Reino Unido não aparecem apenas como ‘rivais’ dos torcedores celtas no uniforme do Rangers. Em Glasgow, adesivos com dizeres “Reino Unido, ame-o ou deixe-o” estão espalhados pela cidade, o que amplia a tensão política do campo. Diversos estereótipos circundam os rivais. Acusações de torcedores do Rangers serem “fascistas da ala direita política” e do Celtic serem “católicos pedófilos” transmitem a sensação de hostilidade constante da rivalidade.

Já nos últimos anos, a Old Firm passaria por uma transformação. Em 2012, a situação financeira do Rangers tornou-se alarmante. Com uma dívida incontornável, o clube perdeu sua licença na Scottish Premier League, a primeira divisão do futebol profissional. Acabou refundado como The Rangers Football Club e foi rebaixado para a Third Division (equivalente à quarta divisão do futebol nacional). O lado verde da cidade vibrou com o desmonte financeiro do adversário. Após demorar quatro anos para retornar à primeira divisão, o maior vencedor nacional passou a última década nas sombras. Somente na temporada 2020/21 é que o Rangers conseguiu seu 55º título, e impediu o Celtic de ganhar seu décimo campeonato seguido. O título confirma o retorno verdadeiro da rivalidade que divide a Escócia. E a questão das cores se tornou ainda mais presente nesta temporada, em que a reconstrução do Rangers representou o orgulho ao redor do azul e do vermelho.

Rivalidade expressa pelo verde e pelo azul [Imagem: Creative Commons]
As cores do futebol vão além de escolhas estéticas. As rivalidades e emoções dos torcedores são parte da identidade e levam à alteração de símbolos, bem como interagem na nossa escolha daqueles com quem desenvolvemos empatia. Tirar a cor verde da bandeira LGBTQIA+ do Corinthians demonstra legitimação de uma comunidade, enquanto usar verde ou azul e vermelho na Escócia pode definir sua escolha política. As cores no futebol nunca foram simples, o que não apaga a força e beleza com que se apresentam diante de nossos olhos.

*O nome do torcedor foi omitido para manter seu anonimato

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Jornalismo Júnior ECA-USP

A Jornalismo Júnior é uma empresa júnior formada por alunos de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) que produz conteúdo que vai desde a área de esportes até o cinema, entretenimento e a ciência.

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