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Esse foi o segredo do Cruzeiro para empatar no fim com o Atlético-MG

Atlético-MG e Cruzeiro empataram em 2 a 2 pelo jogo de ida da final do Campeonato Mineiro em partida de dois tempos distintos

Atlético-MG e Cruzeiro iniciaram, no último sábado (30), a disputa da grande final do Campeonato Mineiro de 2024. A primeira partida do confronto, disputada na Arena MRV, apenas com torcedores alvinegros, terminou em 2 a 2, com gols de Bruno Fuchs e Hulk, para os donos da casa, e Jemerson (contra) e Juan Dinenno, para o time celeste. O resultado foi melhor para a Raposa, que conta com a vantagem de ser campeã com dois empates e decidirá o torneio no Mineirão, somente com cruzeirenses na arquibancada.

Quem assistiu ao clássico mineiro viu um jogo muito diferente nos dois tempos disputados. No primeiro deles, o Atlético dominou e fez dois gols com extrema facilidade, situação bem diferente dos últimos confrontos entre os rivais. Não é exagero dizer que o alvinegro poderia ter feito três ou quatro gols e liquidado a disputa com 45 minutos.

O Cruzeiro, sem conseguir trocar passes ou fugir da forte marcação alvinegra, não tinha pudor em recorrer às faltas para frear as jogadas celestes, foi mero espectador e não fez com que Everson precisasse trabalhar. E o time estrelado também abusou das infrações, muito por não conseguir encaixar seu sistema defensivo.

Porém, na segunda etapa, tudo mudou. A metade final da partida teve um amplo domínio celeste, que se impôs na partida e merecidamente conseguiu empatar o jogo, deixando a impressão de que seria possível, inclusive, sair da Arena MRV com mais uma vitória, caso houvesse maior capricho em algumas jogadas e, principalmente, finalizações. O gol de Dinenno aos 49 serviu para dar ares épicos à recuperação do Cruzeiro, mas o empate ficou próximo de ter saído antes. Após o apito final, ficou claro que apesar da igualdade no placar, a Raposa deixou o estádio do Atlético com um sabor de vitória, enquanto os alvinegros sentiram o baque de mais um jogo sem superar o grande rival em seus domínios.

Mas o que proporcionou que o Cruzeiro se recuperasse no jogo após um primeiro tempo tão ruim, que poderia ter colocado a perder todo o trabalho feito durante os mais de dois meses de Campeonato Mineiro? A Trivela conversou com o jornalista Pedro Torres, do Canal Samuel Venâncio, para entender o que o treinador argentino Nicolás Larcamón precisou corrigir para que o time celeste se mantivesse vivo na decisão.

Entrada de Zé Ivaldo foi primordial

Sacado do time titular por problemas disciplinares — já que vinha recebendo muitos cartões amarelos e foi expulso no jogo de ida da semifinal, contra o Tombense —, o zagueiro Zé Ivaldo começou o clássico no banco de reservas e viu Nicolás Larcamón escalar o trio defensivo do Cruzeiro com João Marcelo, Neris e Lucas Villalba. Marlon, que costumava fechar a linha com Zé e João, foi adiantado, para atuar com maior liberdade.

Para Pedro Torres, a decisão de Larcamón de utilizar essa formação foi motivada pela possibilidade de espelhar o esquema tático que seria utilizado pelo também argentino Gabriel Milito, novo treinador do Atlético-MG, para tentar ter igualdade na marcação da saída de bola alvinegra e no meio de campo alvinegros, além de buscar garantir superioridade numérica sobre a dupla de ataque dos mandantes.

— O principal problema apresentado no primeiro tempo foi a falta de coordenação. A gente via a primeira linha muito espaçada entre os zagueiros, os laterais William e Marlon tinham muita dificuldade em saltar a pressão e, quando conseguiam, o espaço ficava muito grande e os volantes não conseguiam cobrir. Os dois volantes, Filipe Machado e Lucas Romero, também deixaram a desejar nessa coordenação, em relação a quem subia e quem ficava mais próximo à defesa. Na parte da construção, o time seguia espaçado, com os jogadores de frente, Arthur Gomes, Matheus Pereira e Dinenno, distantes do restante do time. O 10 ainda tentava circular, mas era nítido o afastamento da linha de atacantes com a de meio-campistas — apontou Torres.

O jornalista entende que a conversa de Larcamón com os jogadores no intervalo e as imagens do jogo mostradas por ele aos atletas ajudou na mudança de postura, acentuada com a entrada de Zé Ivaldo, que foi para o campo mais concentrado, conseguindo coordenar a defesa celeste, mesmo jogando fora de posição, como um zagueiro pela esquerda.

— A entrada do Zé Ivaldo coloca a postura do Cruzeiro em outro nível e faz com que João Marcelo também consiga crescer na partida. Além disso, os dois meio-campistas começaram a se encontrar melhor, tendo uma melhor coordenação para definir quem ficaria na base e quem avançaria no campo — explica.

Na primeira imagem, é possível observar que Villalba e Marlon ocuparam basicamente a mesma área do campo, com Zé Ivaldo, na segunda etapa, o posicionamento da zaga celeste muda
Na primeira imagem, é possível observar que Villalba (25) e Marlon (3) ocuparam basicamente a mesma área do campo; com Zé Ivaldo (5), na segunda etapa, o posicionamento da zaga celeste muda – Fotos: Sofascore

Ao final da partida, Nico Larcamón foi questionado sobre a decisão de poupar Zé Ivaldo e, apesar de afirmar que o camisa 5 é “o melhor zagueiro com quem já trabalhou”, não demonstrou arrependimento de sua decisão.

— O Zé Ivaldo, vocês falam que ele deveria jogar, mas no jogo contra o Tombense (pela partida de ida da semifinal do Campeonato Mineiro) foi expulso em 20 minutos. Ele é um jogador excepcional. Uma qualidade superlativa. Mas, também, é preciso que ele melhore esse aspecto. Eu sei que ele está fazendo muito para melhorar. Insisto, para mim, é um jogador excepcional. É o melhor zagueiro que treinei em minha vida. Mas é preciso que um jogador tenha essa consistência de desempenho, para não acontecer o que aconteceu contra o Tombense — justificou Larcamón.

Desgaste do Atlético-MG e mexidas de Nico beneficiaram Cruzeiro

Pedro Torres destacou, ainda, que o desgaste físico do Atlético-MG, que imprimiu um ritmo muito forte na primeira etapa, ajudou o Cruzeiro a tomar o controle da partida e as boas atuações dos escolhidos por Larcamón para entrarem na segunda etapa facilitaram ainda mais na busca pelo empate.

— As entradas de José Cifuentes, Matheus Vital e Lucas Silva ajudaram na circulação da bola, por se tratarem de jogadores com mais consciência nessa manutenção da posse de bola. Assim, consequentemente, o Cruzeiro conseguiu cansar mais o adversário e empilhar chances, se aproveitando dos espaços nas costas da defesa atleticana, um velho problema da equipe alvinegra — explica Pedro.

Para o jornalista, o primeiro gol cruzeirense na partida, que saiu após uma lambança da defesa atleticana, teve o mérito de uma mudança de postura do time celeste. No primeiro tempo, o Cruzeiro pouco incomodou a saída de bola do Atlético, na fase de construção, e na segunda etapa, isso mudou. E o gol contra de Jemerson só foi possível pela antecipação de Filipe Machado, que roubou uma bola na fase de construção alvinegra.

— Os acertos do Larcamón foram mudar a postura do time mesmo mantendo os três zagueiros, conseguir colocar o meio de campo mais em sintonia para pressionar e construir, além de melhor municiar o setor de ataque com as substituições feitas. O Cruzeiro conseguiu corrigir os problemas do primeiro tempo, mostrando que o erro não estava no sistema com três zagueiros, mas sim na coordenação de movimentos e comportamentos — concluiu Pedro Torres.

Camisa 10 do Cruzeiro, o meia Matheus Pereira compartilha da opinião de Pedro sobre a efetividade do esquema celeste. Após o fim da partida, o meia foi questionado sobre a equipe ter supostamente sentido a escolha de iniciar a partida com três zagueiros de ofício.

— A gente joga (com três zagueiros) desde o início, como o Cruzeiro vai sentir dificuldade? É uma questão de ajuste. Entramos mal na partida e sofremos os gols. Não tem porque ficar culpando três zagueiros. É o estilo de jogo que jogamos desde o início — rebateu o jogador.

Juan Dinenno foi uma ilha no primeiro tempo do Cruzeiro, sendo o único jogador que se salvou, no segundo tempo se manteve bem e foi premiado com o gol decisivo
Juan Dinenno foi uma ilha no primeiro tempo do Cruzeiro, sendo o único jogador que se salvou; no segundo tempo se manteve bem e foi premiado com o gol decisivo – Foto: Gilson Lobo/Icon Sport

As lições do clássico para Cruzeiro e Nicolás Larcamón

Por fim Pedro Torres falou sobre quais são, em sua visão, as lições que ficam para o Cruzeiro e para o treinador Nicolás Larcamón, após os erros e acertos que condicionaram o clássico contra o Atlético-MG.

— Imagino que a principal lição que ficou é em relação à utilização do Zé Ivaldo. Ficou claro que ele é uma referência para a defesa do Cruzeiro, seja na questão do ânimo, seja na técnica ou tática. Ele entra fora de posição, pela esquerda, e ainda assim consegue corrigir a última linha do Cruzeiro. Apesar da questão comportamental, que, sim, precisa ser controlada pelo zagueiro, ele não deve sair do time, por ser uma referência do setor defensivo da Raposa, com ou sem bola. Imagino que o Larcamón vai tirar de lição a correção do meio de campo, em especial nessa correção dos meias com os alas na parte defensiva. Também será preciso envolver mais os jogadores de ataque, como Dinenno e Matheus Pereira, assim como fez no segundo tempo — finalizou Pedro.

Foto de Maic Costa

Maic Costa

Maic Costa nasceu em Ipatinga, mas se radicou na Região dos Inconfidentes mineiros. Formado em Jornalismo na UFOP, em 2019, passou por Estado de Minas, Superesportes, Esporte News Mundo, Food Service News e Mais Minas. Atualmente, é setorista do Cruzeiro na Trivela.
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