Brasil

Milito instiga importante reflexão sobre como o futebol deveria ser analisado

Treinador do Atlético deu longas declarações instigando um ponto importante sobre as análises pós-jogos feitas por imprensa e torcida

As análises de futebol no Brasil tem sido, de modo geral, muito polarizadas. Jogadores são craques ou bagres. Técnicos gênios ou pardais. Não há meio-termo e tudo sempre depende do resultado. Comandante do Atlético-MG, o argentino Gabriel Milito instigou uma reflexão interessante sobre esse tema.

Milito é um treinador com ideias de jogo bem claras, mas não muito comuns no futebol brasileiro. Defender com linha de quatro e atacar com linha de três, ter um time muito espaçado, ocupando todo o campo ao invés de atacar em blocos, são algumas de suas ideias.

Para implementá-las no Atlético, por muitas vezes ele teve que fazer o que chamamos de improvisação. Contra o Vasco, por exemplo, ele colocou dois zagueiros (Fuchs e Alonso) como laterais e dois volantes (Battaglia e Otávio) como zagueiros e deu certo.

A reflexão de Milito começa nesse tema, de improvisar jogadores. Esse caso citado não foi o primeiro e, sem dúvida, não será o último do treinador. Mas, para ele, só é improvisação se você colocar um jogador em uma posição que ele nunca treinou e não se sente à vontade.

É ótimo ter jogadores que podem jogar em mais de uma posição. O que não vou fazer é colocar o jogador em uma posição que não treinou e não se sinta bem por ali. Acredito muito na comunicação, e que há certos jogadores que podem jogar em diferentes posições. Tem a ver com o rival e a disponibilidade do jogador. Se ele se sente cômodo e está de acordo, joga. Se não, não joga — Gabriel Milito

O treinador destacou que cada vez que vai colocar um jogador fora da sua posição de origem, treina e, principalmente, conversa, para saber se pode fazer isso. Foi assim com Battaglia, Otávio, Arana, Paulinho, entre outros.

Se dá certo, é gênio, se não, é pardal?

Dentro desse tema de improvisações e escolhas dos treinadores, Milito trouxe a que talvez seja a principal das reflexões: é importante analisar o jogo, o desempenho do time, separado do resultado.

É muito comum no futebol pensarmos que o time que venceu é bom e o que perdeu é ruim. Que time X foi derrotado porque o treinador escolheu A e não B para jogar. Mas nem sempre as coisas funcionam assim.

Sei que, se ganharmos, vão estar de acordo com as minhas decisões, mas, se perdemos, não vão estar. Conheço a regra do jogo, mas eu não vejo dessa maneira. Perdendo, posso entender com o meu grupo que era a decisão correta, apesar do resultado. E vencendo, posso revisar e entender que poderíamos ter feito melhor se tivesse colocado um jogador que não jogou — destacou o treinador atleticano.

Para mim, o resultado vai para um lado, e a análise do jogo e as decisões prévias vão pro outro — Milito

Gabriel Milito em treinamento na Cidade do Galo
Gabriel Milito tem se mostrado um grande pensador do futebol, trazendo ao Atlético ideias não só na prática, mas também na teoria (Pedro Souza/Atlétic)

Como Milito lembrou bem, é ele quem toma as decisões de como o time vai jogar e quem vai a campo antes do jogo, baseado no trabalho que ele e seu estafe fizeram na semana analisando o adversário.

Falar que estratégia X deu certo porque o time venceu é uma análise muito simples, o mesmo que falar que deu errado quando perdeu. Por isso Milito, em todas as suas coletivas, deixa bem explícito tudo que pensou para o jogo, independente se venceu ou não.

Sempre é mais fácil falar quando as coisas acontecem, mas eu tomo decisões antes que elas aconteçam. Depois que acontece, é fácil falar que era melhor ter jogado esse ou aquele, mas antes não dá pra saber — Milito

— Tudo que faço é com muita convicção. Às vezes acontece de realmente ser uma boa decisão e às vezes não, mas não tem a ver com o resultado e sim com o rendimento — explicou o treinador.

Atlético é exemplo perfeito da reflexão de Milito

Um exemplo recente sobre a importância da análise de resultado e desempenho pode ser feita no próprio jogo do Atlético contra o Juventude, há uma semana. O Galo criou várias chances e podia ter marcado três ou quatro gols, mas desperdiçou a maioria e sofreu o empate em um dos poucos ataques do adversário.

As estatísticas que ajudam a mostrar como, apesar do empate, a estratégia do Atlético deu certo contra o Juventude
As estatísticas que ajudam a mostrar como, apesar do empate, a estratégia do Atlético deu certo contra o Juventude (Reprodução/Google)

A estratégia de Milito deu certo, afinal, o time atleticano criou muito e pouco foi atacado pelo adversário. Dizer que o que ele planejou do jogo deu errado só por não ter vencido, é se apegar ao resultado e apenas a ele.

Se realmente analisarmos só por isso, não perderíamos um minuto em debates no futebol. Seria simples: venceu, foi bem; perdeu, foi mal; empatou, foi mais ou menos.

Entendo que vocês (jornalistas) e a torcida analisem o resultado, mas eu não. Quero ganhar todos os jogos e fico triste quando perdemos, mas o resultado é uma coisa e o rendimento é outra. Não é que ganhamos e está tudo bem ou perdemos e está tudo mal — Gabriel Milito.

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Milito encanta a torcida sendo o oposto de Felipão

O torcedor do Atlético estava bem machucado pelo período com Felipão. As coletivas do experiente treinador eram pouco explicativas e muitas vezes com ele até alfinetando a própria torcida.

Milito chegou e, na apresentação, falou por mais de uma hora sobre suas estratégias de jogo. Nas coletivas, dá respostas longas tentando colocar todos os pingos nos “is”. Essa diferença encanta o torcedor atleticano, que o tem defendido de uma forma que pouco se viu com outros comandantes do clube.

A diferença entre ele e Felipão ficou, mais uma vez, clara, quando ele deu esse discurso acima e o encerrou dizendo que não seria um bom treinador se analisasse só o resultado — algo que Felipão fazia com bastante frequência.

— Essa é a dinâmica no futebol, mas não no meu caso. Eu seria um péssimo treinador se analisasse só os resultados em detrimento do rendimento. Há partidas que perdemos e tem muitas coisas boas e há partidas que vencemos e há muitas coisas boas — disse Milito.

Foto de Alecsander Heinrick

Alecsander HeinrickSetorista

Jornalista pela PUC-MG, passou por Esporte News Mundo e Hoje em Dia, antes de chegar a Trivela. Cobriu Copa do Mundo e está na cobertura do Atlético-MG desde 2020.

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