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Marciel é mais uma vítima do medo que clubes brasileiros têm de lançar jovens

O Corinthians prepara-se para mais uma semifinal de Copa São Paulo de Futebol Júnior, e a torcida está animada. Com razão. Torneios de categorias de base empolgam o grande apaixonado por futebol, que tem a chance de ver em primeira mão os craques e ídolos do futuro, caso haja algum em campo.

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Ano passado, o Corinthians também foi muito bem nesse campeonato e conquistou seu nono título. Na decisão contra o Botafogo-SP, Marciel vestia a camisa 8 e fez uma boa partida na vitória por 1 a 0. Chamou a atenção da comissão técnica e foi incorporado ao time principal.

Fez até um golaço contra o Fluminense, mas, no final, participou de apenas quatro partidas da campanha do hexacampeonato. Foi mal no clássico contra o Palmeiras, substituído no intervalo, e teve apenas uma chance depois disso, logo no jogo seguinte, contra o Grêmio.

Diante da debandada de jogadores rumo à China, a Marcha Para o Leste dos corintianos, o natural seria que tivesse mais chances para se desenvolver. Saíram três jogadores de meio-campo, embora o mais próximo das suas características no time titular seja Elias que, por enquanto, permanece no Parque São Jorge.

Não foi o que aconteceu. Marciel virou moeda de troca para trazer Willians, do Cruzeiro. Cada jogador foi emprestado por um ano para os seus novos clubes, com um valor de compra estipulado e não revelado pelas diretorias. A do Cruzeiro afirma que trata-se de uma quantia acessível.

Do ponto de vista do Corinthians, sem necessariamente concordar com ele, a troca faz sentido porque Willians traria um retorno imediato à equipe. Para os clubes brasileiros, o horizonte está sempre muito próximo. Neste caso, a Libertadores que começa no mês que vem e termina em 27 de julho.

Trocar um prata da casa, ainda mais em um time cuja torcida orgulha-se muito do seu terrão e das suas promessas, por um jogador de 29 anos que já mostrou tudo que pode fazer – spoiler: não é grande coisa – configura uma visão míope de futebol e planejamento de elenco.

O Corinthians pode resolver o problema na cabeça da área, que surgiu com a saída de Ralf, durante os próximos meses, talvez dois anos, mas em detrimento ao potencial jogador que Marciel pode vir a ser, um potencial que não pode ser perfeitamente avaliado em quatro partidas de primeira divisão e mais algum punhado de treinamentos.

Manda uma mensagem pessimista para qualquer jogador das categorias de base que sonha em emplacar no time titular. Porque também não é a primeira vez que o Corinthians faz isso. Matheus Cassini foi embora porque não viu chance de ser aproveitado. Marquinhos também saiu, e por uma quantia baixa em relação aos milhões de euros que ele vale atualmente.

Há, ainda, o risco de o Corinthians, como com Marquinhos, perder dinheiro com mais uma revelação. O valor de compra estipulado para o Cruzeiro não foi oficialmente divulgado, mas, segundo a ESPN Brasil, trata-se de € 5 milhões (equivalente a R$ 21,5 milhões).

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Que seja isso mesmo, um pouco menos ou um pouco mais, se Marciel arrebentar, não seria muito difícil algum clube europeu se propor a pagar uma boa grana por um  volante de futuro, se avaliar que o jogador é um espécime desse. O Cruzeiro teria que simplesmente desembolsar a quantia estipulada e depositar o lucro no banco.

É apenas mais um capítulo da maneira equivocada como os clubes brasileiros tratam as suas revelações, nem de longe uma exclusividade do Corinthians. A não ser que o jovem apareça pronto no time titular, não há coragem para esperá-lo florescer. A preferência acaba sendo sempre por jogadores rodados, cujo currículo e fama protegem os treinadores e os dirigentes das críticas.

Segundo Edu, o momento de reformulação do elenco não é adequado para lançar jovens jogadores. O ano passado, quando o time estava formado e brigando pelo título, também não foi. Em má fase, nem se fala. Quando, afinal, é o momento mais adequado para lançar jovens jogadores? No Brasil, às vezes, parece que nunca.

Porque atualmente a torcida está brava com a diretoria, por permitir a reformulação forçada do elenco, mas não com os jogadores que ganharam o título brasileiro. Teria paciência também com Tite, um ídolo, discutivelmente o maior técnico da história do Corinthians, com crédito e lastro o bastante para fazer mais ou menos o que quiser.

Mas Marciel foi embora mesmo assim.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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