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Levir atendeu ao chamado e sai do Atlético Mineiro maior do que entrou

Levir Culpi estava em Curitiba, sem emprego. Havia passado muito tempo no Japão. Escrevia um livro, mantinha dois restaurantes e curtia um estado de semi-aposentadoria. Tinha seus 60 anos e havia recusado algumas sondagens para voltar a trabalhar no futebol brasileiro. Até que o telefone tocou, era o Atlético Mineiro, e ele não conseguiu recusar. Ou nem quis. Atendeu ao chamado e deu início a sua quarta passagem pelo Galo. A mais especial de todas, da qual sai, nesta quinta-feira, maior do que entrou.

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Levir tinha bons trabalhos no currículo, pelo Cruzeiro, pelo São Paulo, e pelo próprio Atlético Mineiro, em que foi duas vezes semifinalista do Brasileirão e o comandante do acesso à primeira divisão, em 2006. Desta vez, foi um pouco além. Cativou todo mundo com as suas entrevistas sinceras. Teve peito para dispensar Ronaldinho Gaúcho. Segurou a barra da diretoria quando o elenco perdeu peças por questões financeiras. Conquistou a Copa do Brasil contra o maior rival. Está próximo de ser vice-campeão brasileiro.

Além disso, fez a máquina de milagres continuar funcionando. Paulo Autuori não conseguia fazer o time jogar bem. Ouviu a torcida pedir a sua cabeça no terceiro jogo da temporada, perdeu o Campeonato Mineiro e foi demitido antes de completar 30 partidas. Levir assumiu no meio das oitavas de final da Libertadores, mas não conseguiu reverter o resultado contra o Atlético Nacional. Começou, de fato, seu trabalho no Campeonato Brasileiro e na Copa do Brasil.

E que Copa do Brasil. O Atlético Mineiro de Levir relembrou os grandes momentos do time de Cuca. Com um futebol ofensivo, muita intensidade e coração, sem nunca desistir do resultado, concretizou duas goleadas por 4 a 1 no Mineirão, sobre Corinthians e Flamengo, depois de perder o jogo de ida por 2 a 0 e sair atrás na volta. Duas viradas enquadradas no cérebro do atleticano quase tanto quanto a decisão. Carimbar o bicampeonato brasileiro do Cruzeiro com um futebol superior nas duas partidas teve um gostinho especial.

Levir perdeu o seu principal jogador quando Tardelli foi para a China e ganhou Lucas Pratto. O ano de 2015 foi de vacas magras para o Atlético, que contratou o argentino com ajuda de investidores. Naquela época, Levir, em entrevista à Trivela, disse que não pediria mais reforços. Queria um time forte, mas não à custa de endividar o clube. Um sopro de bom senso. Afinal, o que mais acontece no Brasil é o técnico cobrando contratações a cada resultado ruim para se esquivar da culpa. Preferiu apostar nos jovens.

A mudança mais profunda do elenco veio no meio do ano, quando Guilherme, Jô e Maicosuel saíram do time, e Levir também não reclamou. Manteve o time concentrado para brigar pelo título brasileiro e foi o único concorrente a sério do Corinthians durante a competição. Com falhas, claro, tanto dentro de campo, quando não encontrou alternativa para o jogo frenético do Atlético, o que custou pontos importantes, quanto fora dele, quando deu a famosa declaração de que o campeonato estava manchado.

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Uma frase entre muitas que Levir soltou nessa quarta passagem pelo Galo sem pensar muito no que estava dizendo. Comparou sua inteligência à do Einstein, usou metáforas sexuais mais de uma vez e foi claro ao explicar a saída de Ronaldinho: “ele não quer pagar o preço da preparação”. Foi sempre muito sincero, e é por isso que sabemos que as lágrimas derramadas nesta quinta-feira, quando deu sua última entrevista como treinador do Atlético, foram carregadas de sentimento.

Levir e a torcida do Atlético Mineiro formaram uma bela parceria, e com ela, foram muito longe. O Galo ficou próximo de conquistar seu primeiro título brasileiro desde 1971, e Levir, agora, está listado entre os principais técnicos do país e sendo especulado em outros clubes grandes. Ótimo para quem, quase dois anos atrás, estava em Curitiba pensando no que fazer no futuro. Agora, tem muitas opções e ainda mais respeito dos torcedores. Graças ao Atlético. E o Atlético está cada vez mais consolidado no grupo de elite do futebol brasileiro. Graças a Levir.

A entrevista de despedida de Levir Culpi:

A goleada por 4 a 1 sobre o Flamengo:

A goleada por 4 a 1 sobre o Corinthians:

A final da Copa do Brasil contra o Cruzeiro:

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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