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O Coritiba fugiu do roteiro, ao apostar na continuidade, e enfrentou o luto antes de celebrar a volta à Série A

Gustavo Morínigo permanece desde a reta final da Série A, em aposta do presidente Renato Follador, falecido em julho por covid

A festa é mais gostosa quando vivida de perto, nas arquibancadas lotadas do Couto Pereira. Ainda assim, quando o assunto é Série B, melhor cumprir a missão no sofá de casa e deixar a vibração para o momento oportuno. A torcida do Coritiba já sentia que o acesso estava perto, como na vitória sobre o Brasil de Pelotas neste domingo, com 30 mil presentes no Alto da Glória. E a certeza de que uma atmosfera ainda mais vibrante se reproduzirá no próximo domingo, contra o CSA, veio por tabela: graças ao tropeço do CRB, o Coxa confirmou matematicamente o retorno à primeira divisão do Campeonato Brasileiro. Prêmio à continuidade garantida pelo clube e à campanha segura na zona de acesso desde o primeiro turno da Série B, em meses nos quais a instituição lidou com o falecimento do presidente Renato Follador.

O Coritiba adotou um caminho pouco comum no futebol brasileiro para buscar o acesso: a manutenção de seu treinador. Gustavo Morínigo chegou como uma aposta do Coxa no início de 2021, ainda na reta final da Série A, para tentar uma salvação que parecia improvável. O treinador paraguaio tinha bons trabalhos em seu país, sobretudo à frente do Nacional finalista da Libertadores em 2014, e parecia uma boa escolha, apesar da situação da equipe no campeonato. Lidou com a COVID-19 logo em sua chegada e até segurou um pouco as pontas em meio à sequência ruim, mas o descenso viria da mesma forma.

A ideia do Coritiba com Morínigo era pensar no longo prazo. Por isso mesmo, o rebaixamento não pesou tanto em sua continuidade, diante do projeto conduzido pelo presidente Renato Follador, que acreditava no paraguaio como o nome certo para auxiliar na recuperação do Coxa. Logo no início de seu trabalho, Morínigo participou da reformulação do elenco para a Série B. Porém, nem tudo eram flores neste caminho. A campanha fraquíssima no Campeonato Paranaense colocou a permanência do comandante em risco. O Coxa sequer conseguiu ficar entre os oito classificados aos mata-matas, na modestíssima nona colocação. Apesar disso, a diretoria bancou o técnico, entendendo como a queda de rendimento passava por lesões e outras questões.

Mesmo com a pressão inicial, o Coritiba não precisou de muito tempo para ganhar embalo na Série B. Depois da derrota para o Botafogo na segunda rodada, a equipe passaria um mês e meio sem perder, chegando a emendar uma sequência de cinco vitórias para logo se colocar na zona de classificação. A grande perda ocorreria mesmo nos bastidores: internado no início de junho, o presidente Renato Follador faleceu em 3 de julho, vítima da COVID-19. O Coxa precisaria conciliar o luto e as mudanças na gestão com uma caminhada longa na Segundona, por mais que o bom momento em campo estivesse claro.

Morínigo reafirmou o compromisso com o clube e também com a memória de Renato Follador, grato pela oportunidade e pela maneira como o ex-presidente confiou em sua permanência. O Coritiba até passou um mês instável na sequência de julho, mas as oscilações não durariam tanto e a gordura acumulada também ajudaria. Com uma nova sequência positiva, a equipe assumiu a liderança da Série B no final do primeiro turno. As vitórias eram bem mais numerosas que o tropeço e uma nova série invicta a partir de setembro consolidou a posição dos paranaenses dentro do G-4.

O Coritiba soube administrar bem sua condição, mesmo quando teve uma série negativa em outubro, com derrotas diante de Cruzeiro e Vasco. A recuperação da equipe não tardaria e vantagem na zona de acesso aproximava os paranaenses da Série A. Nesta reta final, novas derrotas permitiram que o Botafogo tomasse a liderança e atrasaram um pouco a festa. Mas nada que impedisse o Coxa de realmente consumar o retorno à primeira divisão do Campeonato Brasileiro. A vitória sobre o rebaixado Brasil de Pelotas neste domingo foi a preparação para a apoteose, restando apenas detalhes para a confirmação da volta à elite.

(Foto: Coritiba)

“O acesso ainda não temos matematicamente, mas temos a pontuação que buscávamos. Mérito total da diretoria, do presidente Follador, que suportou a pressão e confiou no meu trabalho e da minha equipe. Mesmo com uma eliminação, tive a confiança da diretoria. Isso deu suporte ao trabalho, focamos em melhorar. Tínhamos um grupo bom, era questão de seguir trabalhando. Mérito para quem confiou em mim”, afirmaria Morínigo, depois do resultado. E o serviço ficou completo graças ao tropeço do CRB contra o Brusque nesta segunda, na antepenúltima rodada, que confirmou matematicamente a promoção.

O Coritiba se valeu de sua força no Couto Pereira ao longo da campanha, com 11 das 18 vitórias asseguradas dentro do próprio campo. Foi onde o ataque funcionou melhor e a defesa também manteve maior segurança. De qualquer forma, os pontos arrancados como visitante também fizeram a diferença. O Coxa é a terceira melhor equipe fora de casa e, por exemplo, levou seis pontos a mais longe de seus domínios que o Botafogo. Foram esses resultados, inclusive, que impulsionaram os paranaenses em sua arrancada inicial rumo à liderança no primeiro turno. E como uma marca de Morínigo já vista no Nacional, a defesa serviu de pilar à consistência exibida ao longo da campanha.

O Coritiba contou com o serviço de alguns jogadores bastante rodados para consumar o acesso. Trazido como aposta para a segundona, Léo Gamalho foi o principal destaque individual pelos 16 gols anotados nesta Série B, que o colocam outra vez na briga artilharia da competição. A espinha dorsal do Coxa reúne outros tantos medalhões com enorme identificação no clube. O goleiro Wilson e o atacante Rafinha já estão há mais tempo no grupo. Enquanto isso, foram trazidos de volta neste ano o zagueiro Henrique, o meia Robinho e o volante Willian Farias.

Waguininho e Luciano Castán completam a lista de nomes frequentes na equipe que estão acima dos 30 anos. Castán, inclusive, merece figurar igualmente entre os protagonistas pela maneira como se entendeu muito bem com Henrique no miolo da zaga e ajudou a liderar o sólido sistema armado por Morínigo. Por outro lado, os paranaenses também reforçaram um pouco a vocação das categorias de base com pratas da casa frequentes entre os titulares. Igor Paixão foi importante na ponta, assim como Natanael e Guilherme Biro nas laterais.

Pensando até na idade do elenco, o Coritiba precisará buscar alternativas para 2022. A experiência valeu bastante no desafio da Série B, mas a primeira divisão traz consigo outro tipo de intensidade e outro ritmo nas partidas. Apesar do talento evidente de muitos desses veteranos, será mais prudente elaborar uma rotação e se planejar para desfalques. Ao menos, o Coxa conta com a tranquilidade de possuir um treinador já com tempo de casa e que certamente terá ambição de apresentar seu valor na Série A, depois da curtíssima experiência vivia no campeonato passado.

Conseguir uma estabilidade na Série A é algo que o Coritiba não alcançou nos últimos anos. Desde 2017, o Coxa passou por dois descensos e dois acessos, após já ter convivido com esse papel de ioiô no final da década anterior. Talvez a maior diferença para acreditar numa sequência ampla seja a aposta em Morínigo, um treinador que desfruta da confiança interna para pensar o longo prazo e projetar mudanças. Tal respaldo é um dos principais legados de Renato Follador, que termina com sua memória honrada por uma importante conquista, ainda que o luto prevaleça no Alto da Glória.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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