Lado B de BrasilSérie B

O Botafogo mudou, acreditou, cresceu, venceu: conquista um acesso que, além do alívio, alimenta os sonhos

Do temor de uma Série B claudicante, o Botafogo engatou a quinta marcha para uma arrancada que encheu a torcida de entusiasmo

Mesmo o torcedor mais otimista do Botafogo sabia que 2021 seria um ano tão duro quanto crucial ao clube. Se a parte esportiva rendia desesperança, com o rebaixamento acachapante no Campeonato Brasileiro, o clube andava em terreno movediço na parte administrativa, seja pelas dívidas massivas ou pelas perspectivas de investimento freadas. O primeiro semestre alimentou os pesadelos, com os resultados que não decolavam e o início de Série B oscilante. Entretanto, a expectativa renasceu de maneira mais sublime: com união da torcida, uma equipe cheia de gás para emendar vitórias e o horizonte aberto pra dias melhores. Com uma arrancada incrível na Segundona, os botafoguenses celebraram o acesso nesta segunda-feira. A festa seria inesquecível, com 25 mil no Estádio Nilton Santos e uma grande virada por 2 a 1 sobre o Operário Ferroviário. O passo necessário para auxiliar a recuperação, mesmo que a caminhada seja longa.

O Botafogo precisou de resiliência em 2021 e também de capacidade de reconstrução. Os alvinegros pareciam confiar no projeto de Marcelo Chamusca, mas o temor de que os problemas crescessem se evidenciaram logo cedo. A campanha no Campeonato Carioca foi fraca, com a sétima colocação, sem sequer levar o prêmio de consolação no atual formato da Taça Rio. Se dinheiro era importante, nem a Copa do Brasil ajudou, com a eliminação nos pênaltis para o ABC logo na segunda fase. Parecia difícil imaginar um acesso conquistado tranquilamente antes do início da Série B. Se a situação não piorasse e o time não caísse, já era um certo lucro.

Apesar de tudo, Chamusca seguiu à frente do Botafogo. O clube tinha consciência da situação caótica que o treinador assumiu, com poucas perspectivas após a lanterna no Brasileirão de 2020. A capacidade de contratação também era bem reduzida e o elenco se centrou em jogadores mais baratos, além de algumas promessas. Só que os pesadelos logo tomaram forma. Os alvinegros conseguiram resultados satisfatórios de início e até passaram as primeiras rodadas no G-4, mas o desempenho não demorou a degringolar em julho. Chamusca não resistiu e acabou demitido com apenas três vitórias nas dez primeiras rodadas, ocupando a décima posição. O interino Ricardo Resende também não evitou a sequência em jejum.

A reconstrução do Botafogo começaria, de maneira efetiva, a partir da chegada de Enderson Moreira para comandar a equipe. O treinador vinha com um currículo extenso e alguns bons trabalhos na Série B, por mais que não tenha conseguido dar um jeito no Cruzeiro em 2020. À frente dos alvinegros, em compensação, o novo comandante seria o principal responsável pela guinada. Soube transformar a equipe e extrair o máximo de um elenco longe da badalação.

Enderson estreou com vitória. Foi emendando outros triunfos, em especial no clássico contra o Vasco pelo primeiro turno. Em dois meses no cargo, somou 10 vitórias em 12 jogos e colocou os botafoguenses dentro do G-4. Para não sair mais. A equipe perdeu apenas três partidas desde a chegada do novo comandante, com 16 vitórias no mesmo período. Dava para notar uma clara identidade dentro de campo, com um Botafogo veloz na busca pelos gols, além de seguro defensivamente. A energia imprimida pelos alvinegros a cada partida virou motivação e embalou a própria torcida, num momento de reencontro com a abertura das arquibancadas no Estádio Nilton Santos.

Um momento especial para o Botafogo aconteceu há uma semana, no clássico contra o Vasco em São Januário. Os alvinegros ofereceram um domingo de prazer aos seus torcedores, com a goleada por 4 a 0 e um futebol fulminante, que rendeu a vitória instantânea e poderia até ter causado um estrago maior. Se de um lado ficava expresso o drama vascaíno, com a impossibilidade do acesso, do outro os botafoguenses ganhavam a certeza de que a comemoração pela volta à primeira divisão era apenas uma questão de tempo. Depois do empate contra a Ponte Preta, dava para esperar uma tarde especial no Rio de Janeiro nesta segunda de feriado.

(Vitor Silva / BFR)

O jogo contra o Operário dependeu de uma reviravolta. Os paranaenses abriram o placar no início do segundo tempo e, mesmo que o acesso pudesse sair com um tropeço, a torcida alvinegra esperava uma vitória para coroar o momento. E ela veio na base da vontade da equipe que tanto tem empolgado os botafoguenses. Chay encontrou Pedro Castro para o gol de empate e o artilheiro Navarro se encarregou de determinar pouco depois a virada, a vitória, a promoção. Não é apenas o alívio que os alvinegros sentem neste momento, mas também a chance de sonhar com dias melhores.

“Estamos muito felizes. Esta torcida merece muito. É muito difícil tudo que o Botafogo passou. Nada mais justo do que agradecer o apoio. Hoje eles ganharam o jogo conosco, eles ganharam essa partida. O principal objetivo é o acesso, mas temos chances de ser campeões e não abrimos mão disso. O Botafogo é um dos pilares do futebol brasileiro, é referência, é muito importante esse resgate”, declarou Enderson Moreira, conforme o Globo Esporte. “O acesso representa muito. É duro escutar de algumas pessoas da imprensa que não fizemos bons trabalhos. Estamos pela terceira vez conseguindo um retorno para a Série A, com o Goiás, o América e agora o Botafogo. É claro que é uma dimensão maior, um clube tão tradicional. O Botafogo é um dos pilares do futebol brasileiro, um clube de destaque não só no cenário nacional, mas mundial”.

“Eu cresci escutando histórias do Botafogo. É um prazer enorme este retorno. Como falei, a torcida sofreu muito no ano passado, muitas dúvidas para este ano. O clube precisava de novas atitudes, um novo caminho. É marcante na história do clube. É um recomeço e o clube merece, tem uma torcida apaixonada. É muito importante que o Botafogo dê uma resposta no cenário nacional com conquistas importantes. Ficamos felizes, principalmente se o Botafogo conseguir dar os próximos passos”, complementou.

Além de Enderson, a torcida do Botafogo aprendeu a admirar uma coleção de novos jogadores, alguns mais antigos na base do clube, outros trazidos para esta temporada – ou até mesmo no meio da Série B. Simbólicos no jogo do acesso, Chay e Navarro puxam a fila que ainda conta com Luís Oyama, Marco Antônio, Warley, Diego Loureiro e outros essenciais na arrancada. Já dois símbolos se combinam no miolo da zaga. Kanu é mais um prata da casa que emergiu como uma liderança mesmo nos momentos de dificuldades. Ganhou a companhia de Joel Carli, tão importante à história recente do clube, que retornou para completar o resgate botafoguense.

O primeiro desafio ao Botafogo será preservar a base que auxiliou a conquista do acesso. Há uma série de jogadores emprestados, como Marco Antônio e o pacotão que veio do Mirassol – com Oyama, Daniel Borges e Diego Gonçalves. Outra questão será a própria permanência de Rafael Navarro, que possui uma proposta da MLS e deve aproveitar o sucesso na Série B para ganhar novas perspectivas financeiras aos 21 anos. Enderson Moreira, apesar disso, se mostra disposto a seguir em frente com o projeto. Pela maneira como o treinador deu liga em General Severiano, a esperança se sustenta.

Serão mais duas rodadas para o Botafogo tentar conquistar o título da Série B, repetindo o que conseguiu em 2015. Numa edição da segundona tão penosa para Vasco e Cruzeiro, o que os botafoguenses conseguem merece ser mais valorizado. E não é apenas o resultado esportivo em si ou a garantia de deixar o sofrimento da segundona. Também são as perspectivas melhores. O dinheiro da Série A será importante para tentar botar ordem na casa e pagar as dívidas. Da mesma maneira, as chances de amarrar a tão discutida solução junto a investidores também cresce na elite do futebol nacional. E a mobilização ao redor dos alvinegros nessa fase final da Segundona, sobretudo do lado de fora do campo, não deixa de ser uma prova de força. É isso o que realmente alimenta os sonhos, agora realmente possíveis.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo