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O acesso do Juventude tem ares de nostalgia, mas também coroa uma reconstrução a partir da Série D

Ver o time alviverde jogando em seu estádio modesto (e, tantas vezes, cheio de neblina) se tornou costume no Brasileirão na virada dos anos 1990 para os 2000. O Juventude emendou 13 temporadas na Série A, por vezes fazendo bom papel e dando trabalho a quem visitasse o Alfredo Jaconi. O retorno à elite do Brasileirão até possui ares nostálgicos por esse período. Em contrapartida, também corresponde a uma reconstrução que durou igualmente 13 anos, incluindo quatro rebaixamentos e até mesmo uma passagem de três temporadas pela Série D. Nesta sexta, o Ju consumou seu retorno à primeira prateleira do Brasileiro, depois de uma ótima campanha na Segundona. E vai ter história para contar, especialmente pelo golaço de Renato Cajá que definiu a vitória por 1 a 0 sobre o Guarani, suficiente ao acesso.

O Juventude realizou um trabalho exemplar na virada do século. A capacidade dos alviverdes ficou evidente logo cedo, a partir do acesso inédito à primeira divisão alcançado em 1994. O Ju montou muitas vezes times competitivos, revelou um bom número de jogadores e soube usar suas armas, inclusive os jogos como mandante, para dificultar a vida de quem o enfrentasse. Desta maneira, virou uma equipe relativamente estável no meio da tabela do Brasileirão, mas também deu passos maiores em outras competições. As participações nas finais do Gauchão se emendaram, com o título de 1998 quebrando a hegemonia da dupla Gre-Nal após 44 anos, além da histórica Copa do Brasil faturada em 1999 dentro do Maracanã.

Até o final dos anos 1990, o Juventude realizou algumas campanhas notáveis na Série A. Estreou com o 11° lugar em 1995 e conseguiu ficar em oitavo em 1997, quando ganhou o direito de participar dos quadrangulares semifinais. O ponto baixo ocorreu exatamente no ano da conquista da Copa do Brasil. Os alviverdes deveriam ter caído em 1999, mas acabaram como um dos quatro clubes salvos pela virada de mesa chamada Copa João Havelange. Ainda fariam uma campanha fraca no torneio tampão, mas sem a existência do descenso. Apesar da dívida com a Série B na conta, o Papo voltaria a aprontar algumas vezes na Série A durante o início do século.

Cabe lembrar que o Juventude realizou a quarta melhor campanha na fase inicial do Brasileirão de 2002, avançando aos mata-matas à frente do futuro campeão Santos. Caiu nas quartas de final, em classificação apertada do Grêmio. Ainda seria o sétimo colocado em 2004, na segunda edição dos pontos corridos, conquistando a inédita classificação para a Copa Sul-Americana e se tornando o melhor gaúcho na competição nacional. O desempenho cairia um pouco logo depois, até que os alviverdes não resistissem em 2007. O 18° lugar foi suficiente para rebaixá-los.

A volta do Juventude à Série B seria dolorosa. Ficou apenas dois anos, até cair novamente em 2009. E permaneceria só um ano na Série C, também rebaixado em 2010. O recomeço seria duro, a partir da Série D. Pior ainda, o impacto na quarta divisão nacional não foi imediato. Foram dois anos em que o Ju chegou aos mata-matas, mas sucumbiu a Mirassol e Cianorte antes de disputar o acesso. Outros times do interior tinham trabalhos mais sólidos naquele momento e mesmo no Gauchão as campanhas se tornavam modestas. Não à toa, por duas vezes o Papo correu sérios riscos de ficar sem divisão. Salvou-se graças ao bicampeonato da Copa FGF em 2011 e 2012, que garantiu a vaga na competição nacional.

Como se não bastasse, as dificuldades não se continham ao plano esportivo – como detalha esta matéria do jornal local Pioneiro. O Juventude viu o enxugamento repentino de suas receitas e encarava diversos problemas também nos bastidores. O clube precisou se reorganizar, diante dos salários atrasados e das dívidas acumuladas. Neste momento, o apoio dos torcedores também foi essencial, com as dificuldades para conseguir patrocínios e renegociar os débitos. Do risco de se transformar em um clube falido, o Ju renasceu ao longo da última década.

O ano da virada para o Juventude aconteceu em 2013. A partir de então, o clube iniciou sua reconstrução. O primeiro passo veio com a promoção na Série D. Os gaúchos bateram Londrina e Metropolitano nos jogos decisivos, ainda alcançando a final e terminando com o vice na quarta divisão. O retorno à Série C acabaria demandando também paciência. Nas duas primeiras participações, o Ju ficou na faixa central da tabela da primeira fase, sem sofrer o rebaixamento, mas também sem conseguir a vaga nos mata-matas. Quando a passagem às quartas de final aconteceu, em 2016, o time não vacilou e se tornou mais um carrasco no drama do Fortaleza. O empate no Castelão, garantido a duras penas pelo goleiro Elias, valeu a comemoração.

A Série B garantiria, em teoria, uma estabilidade maior ao Juventude a partir de 2017. E esse era o pensamento, após a reestreia com a nona posição, numa campanha em que o time parecia candidato ao acesso no primeiro turno. Contudo, a liderança inicial alternada pela queda vertiginosa traria maus sinais para 2018, com a equipe despencando um pouco mais e acabando rebaixada. Ao menos, o caminho das pedras estava claro. Na Série C de 2019, o Papo realizou uma campanha segura e atropelou o Imperatriz no jogo do acesso. Voltou à Série B de 2020 e manteve o embalo, com o segundo acesso seguido, agora na terceira colocação da tabela geral.

A boa campanha do Juventude na Copa do Brasil de 2020 indicava um pouco do que o time seria capaz. Porém, os resultados não foram imediatos, num início instável na Segundona. A partir da oitava rodada, os gaúchos subiram de produção. E, rondando o G-4 a partir do final do primeiro turno, os alviverdes não perderiam a passada. Se não foi uma campanha impecável, o Ju se manteve sempre entre a quinta colocação e a terceira na metade final do campeonato. Indicava ter méritos para lutar até o desfecho. O Alfredo Jaconi mais uma vez era um trunfo, com uma campanha muito forte em casa, que rendeu quase 70% dos pontos conquistados.

Na reta decisiva, o Juventude até correu certos riscos. Depois da vitória sobre o Confiança em meados de dezembro, vinha perdendo todos os jogos fora de casa. Isso significou duas derrotas consecutivas contra Cuiabá e Brasil de Pelotas, que tiraram os gaúchos do G-4 restando quatro rodadas para o fim. A equipe compensou com sua força na Serra Gaúcha, vencendo todos os compromissos em seus domínio neste mesmo período. E, mais importante, ganhou alguns confrontos diretos – com CSA e Ponte Preta, sobretudo. Se o tropeço contra o Avaí em Florianópolis poderia custar caro na antepenúltima partida, as duas últimas rodadas guardariam sua dose de emoção.

Primeiro, pela vitória sobre o Figueirense na penúltima rodada. Os catarinenses podiam estar à beira do rebaixamento, mas nenhum torcedor do Juventude vai se esquecer da virada sensacional por 2 a 1. Os adversários saíram em vantagem com um gol irregular aos 40 do segundo tempo. Os alviverdes empataram com uma falha bisonha do goleiro e viraram nos acréscimos, graças ao decisivo Rogério. Com o empate (também influenciado pela arbitragem) do CSA, o Ju entrava na zona de acesso na rodada final e passava a depender apenas de si nesta sexta-feira decisiva.

O Guarani fez uma campanha razoável na Série B, mas não tinha pretensões para a rodada final, diante da péssima sequência recente. Dentro do Brinco de Ouro da Princesa, o Juventude precisava superar as dificuldades recentes fora de casa e cumprir sua parte após cinco derrotas consecutivas como visitante. Pois a conquista se encaminhou sem tanto drama aos gaúchos. Aos 30 minutos do primeiro tempo, o veteraníssimo Renato Cajá serviu de herói. Pegou a bola fora da área e limpou o caminho para acertar uma patada rumo ao ângulo. Golaço que, mais importante, também selou o acesso. O Ju manteve a vitória por 1 a 0 até o apito final em Campinas. Para ajudar, os concorrentes CSA e Avaí também tropeçaram. Além disso, com a derrota do Cuiabá, o time pôde ganhar até uma posição a mais na tabela. Terminou na terceira colocação, com três pontos de vantagem na zona de acesso, uma situação que aparenta uma tranquilidade até maior do que o realmente vivido.

O responsável por subir o Juventude foi o técnico Pintado. O veterano assumiu a equipe em junho e se manteve no cargo durante toda a Série B, sem perder o emprego com as oscilações no início ou no final da campanha. É a grande conquista de sua carreira, depois de muito rodar por clubes do interior. Além da supracitada capacidade dentro do Alfredo Jaconi, outro mérito do Ju foi seu futebol ofensivo. A equipe terminou a campanha com o segundo melhor ataque da Segundona, somando 52 gols, apesar das fragilidades defensivas principalmente fora de casa.

Dentro de campo, Renato Cajá foi o protagonista da conquista, e não apenas pelo golaço que valeu o acesso. O meia de 36 anos seria um dos jogadores mais efetivos dos alviverdes na campanha e fez a diferença em vários momentos. Depois de já ter arrebentado no acesso de 2019, com uma atuação de gala nos 4 a 0 sobre o Imperatriz, o maestro vive um final de carreira para ser chamado de ídolo na Serra Gaúcha – e reforçar ainda mais seus laços com a Ponte Preta, diante da pintura contra o antigo rival Guarani. Agora poderá vestir a camisa do Juventude na primeira divisão, como havia feito em 2007, ainda uma promessa presente na campanha que culminou no rebaixamento.

O Juventude adotou como política no mercado apostar em medalhões e jogadores rodados nos clubes de interior, mesmo que nem todos tenham sido absolutamente titulares. Nomes como Nery Bareiro, Carlos Eduardo, Wagner e Tartá povoaram o elenco. O goleiro Marcelo Carné, inclusive, foi essencial a outro acesso – como na Série C de 2019. Entretanto, nomes menos conhecidos aproveitaram o espaço no Alfredo Jaconi. Gustavo Bochecha foi um dos pilares no meio-campo, ao deixar o Botafogo por empréstimo, enquanto Capixaba veio do Atlético Mineiro para compor muito bem o ataque. E o Ju se virou mesmo com perdas importantes no meio da campanha. Dalberto assinou com o Sport e Breno Lopes pode ser campeão da Libertadores com o Palmeiras, mesmo se mantendo artilheiro do Papo na Segundona. Reforços rodados como o ponta Rogério e o atacante Rafael Grampola viraram figuras na reta final.

Até por essa estratégia de contar com medalhões, talvez o Juventude tenha mais trabalho para se preparar à Série A do Brasileirão. Dependerá de uma equipe mais sustentável a médio prazo para garantir campanhas seguidas na primeira divisão, embora conte com um elenco amplo e relativamente homogêneo na atual Segundona. O ambiente, ao menos, contribui para uma melhora gradual diante de tudo o que tem sido realizado nos últimos anos. As dívidas foram contornadas e os salários são pagos em dia, com uma parceria na gestão do futebol influenciando os sucessos nas duas últimas promoções.

Neste momento, de qualquer forma, o torcedor do Juventude não deve pensar no futuro. Precisa comemorar o presente. Não será simples voltar a ser aquele clube duro de meio de tabela, mas a conquista desta sexta traz à memória as lembranças daqueles 13 anos na elite. Mais importante, deixa para trás também os 13 anos de penúria recente, agora com o time distante do temor de ficar sem divisão. Os alviverdes precisam desfrutar da glória, depois da gangorra de incertezas que inclui até a Série D e a salvação pela Copa FGF no roteiro.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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