Lado B de Brasil

O acesso do Cuiabá valoriza um projeto bem estruturado e recoloca o Mato Grosso no Brasileirão após 35 anos

Pela primeira vez desde 1986, o Mato Grosso terá um representante na elite do Campeonato Brasileiro. O Cuiabá não é o clube mais tradicional do estado, mas fez por merecer a conquista através de um projeto bem estruturado, que cresceu gradativamente nos últimos anos. Antes de seu maior feito, o Dourado dominou o estadual e também virou uma força na Copa Verde. O clube vinha subindo os degraus no Brasileirão aos poucos, chegando à Série C em 2012 e estreando na Série B em 2019. Então, depois de uma ótima temporada de estreia na Segundona, o Cuiabayern se credenciou entre os favoritos e consumou o acesso nesta sexta-feira, coroando meses em que também aprontou na Copa do Brasil. Os estreantes da Série A preenchem uma lacuna em sua região e representam uma história que pode deixar marcas mais profundas.

A trajetória do Cuiabá Esporte Clube é relativamente recente. A agremiação surgiu em 2001, como um projeto para revelar jogadores e oferecer uma estrutura que o futebol de Mato Grosso não tinha. O ex-atacante Gaúcho, antigo ídolo do Flamengo, encabeçava a iniciativa. Em pouco tempo, os novatos montaram um time profissional e se tornaram uma potencial estadual, mas disputas de bastidores levaram ao licenciamento da equipe. O renascimento viria a partir de 2009. A cidade de Cuiabá ganhava perspectivas com a construção da Arena Pantanal e o Dourado embarcaria nessa oportunidade.

Embora o Cuiabá seja um “clube-empresa”, teve condições de criar raízes e assim aproveitou. Sem que os times da capital mato-grossense vivessem um momento relevante no cenário nacional, o Dourado se impulsionou rapidamente e pôde se estruturar melhor a partir das divisões de acesso do Campeonato Brasileiro. A família Dresch, que atua no ramo da borracha e seus produtos derivados, assumiu o comando da equipe e logo os resultados corresponderam aos investimentos. Em 2009, durante a reativação do time, os mecenas compraram um hotel que virou centro de treinamentos e já garantia boa infraestrutura. O salto de verdade começou em 2011, quando o Cuiabá conquistou o Campeonato Mato-Grossense e estreou na Série D. O acesso foi imediato, eliminando Sampaio Corrêa e Independente de Tucuruí para subir à terceira divisão nacional.

A partir de 2012, o Cuiabá se estabeleceu como um figurante costumeiro na Série C. Foram sete participações consecutivas na terceira divisão. Neste ínterim, o Dourado faturou mais cinco títulos estaduais, embora seu grande feito tenha ocorrido na Copa Verde de 2015. A conquista regional aconteceu graças a uma virada épica, que valeu o apelido de “Cuiabayern”. O Remo goleou por 4 a 1 no primeiro jogo da decisão no Mangueirão e, ainda assim, um milagre se desenrolou na Arena Pantanal. O Cuiabá conseguiu vencer por 5 a 1, com três gols de Raphael Luz e outros dois de Nino Guerreiro. Levou o troféu, ganhou atenção do restante do país e mostrou como tinha capacidade para fazer mais. A façanha ainda valeu uma vaga na Copa Sul-Americana de 2016, na qual os cuiabanos foram eliminados na primeira fase por aquela heroica Chapecoense.

O Cuiabá ainda levou um tempo para realmente mostrar suas credenciais na Série C. De 2012 a 2017, o Dourado permaneceu na zona intermediária da tabela, abaixo dos classificados aos mata-matas e acima dos rebaixados. Flertou com o descenso de início, antes de se aproximar da segunda fase. Quando chegou às quartas de final pela primeira vez e pôde realmente jogar o acesso, em 2018, o time não titubeou. Terceiro colocado no Grupo B, encarou o Atlético Acreano no confronto decisivo. O Cuiabá encaminhou a promoção com os 2 a 0 da ida, antes de empatar por 2 a 2 em Rio Branco e festejar a subida à Série B. No fim da campanha, o Dourado acabou com o vice-campeonato, derrotado na decisão pelo Operário Ferroviário.

Já na Série B de 2019, o Cuiabá começou muito bem sua história na segunda divisão. A equipe ficou na oitava colocação, a dez pontos da zona de acesso. O Dourado passou longe da ameaça de rebaixamento e, na virada dos turnos, até esboçava brigar pelo G-4. O desempenho não se manteve, mas ainda assim a campanha terminou de maneira positiva. E deu, afinal, para levar o bicampeonato da Copa Verde com outro épico. O adversário da vez era o Paysandu, que venceu a ida por 1 a 0 na Arena Pantanal. Dentro do Mangueirão, o Cuiabá deu o troco com o triunfo por 1 a 0 arrancado aos 49 do segundo tempo e levou a taça nos pênaltis, de virada.

O calendário do Cuiabá em 2020 era promissor, com a permanência na Série B e a presença confirmada nas oitavas de final da Copa do Brasil. A pandemia causou seu impacto, mas não atrapalhou o planejamento do Dourado ou dilapidou tanto suas finanças, com salários mantidos em dia. Marcelo Chamusca dava continuidade no projeto iniciado em outubro de 2019, e que rendeu o título da Copa Verde. Contava com uma equipe bom montada, com força na defesa e diferentes maneiras de poder atuar conforme o adversário. O início da Segundona logo mostrou como os cuiabanos realmente eram candidatos ao acesso para a primeira divisão.

A subida do Cuiabá foi encaminhada ainda no primeiro turno. A equipe venceu quatro de seus primeiros cinco jogos, saltando à primeira posição. Foram dez rodadas na liderança, com apenas uma derrota nas 15 primeiras partidas. O Dourado acumulava gordura, mesmo que tenha sofrido uma queda na virada dos turnos. E no momento mais baixo dos mato-grossenses na campanha, a Copa do Brasil dava uma razão para se motivar. O Cuiabá pegou o Botafogo nas oitavas e conseguiu uma classificação gigantesca, vencendo no Rio de Janeiro e segurando a pressão na Arena Cuiabá. Também daria trabalho ao Grêmio na fase seguinte, apesar das duas derrotas que culminaram na eliminação.

O Cuiabá chegou a passar rodadas seguidas fora do G-4, num momento em que o clube também procurava novos rumos, após Marcelo Chamusca aceitar a proposta do Fortaleza. Allan Aal assumiu o comando técnico e levou um tempo para recuperar o time, com uma proposta ofensiva que não dava tanta liga, mas desde dezembro o Dourado apresentaria novos repertórios e conquistaria resultados importantes. Foram apenas três derrotas nas últimas 12 rodadas, com seis vitórias no período. Os triunfos sobre Juventude e Guarani, dois rivais diretos, seriam cabais para a guinada final. Já na terça-feira, o acesso tinha ficado na mão com os 2 a 0 sobre o Paraná. Os cuiabanos estavam a um ponto de subir.

Juventude e CSA começaram a sexta-feira como os dois últimos perseguidores do Cuiabá. Jogariam antes e um tropeço de qualquer um valeria a promoção aos mato-grossenses. Os gaúchos buscaram sua vitória emocionante contra o Figueirense, mas os alagoanos só empataram com o Brasil de Pelotas – apesar de um gol legal negligenciado nos acréscimos. Assim, o Cuiabá pôde comemorar o acesso na Arena Pantanal antes mesmo de começar a partida contra o Sampaio Corrêa. Em clima de festa, o Dourado tomou dois gols no primeiro tempo e perdeu dos maranhenses por 3 a 1. Nada que atrapalhasse a noite histórica no Mato Grosso.

Allan Aal chegou apenas em novembro, mas se consagra como técnico do acesso. Já em campo, são vários os protagonistas. O goleiro João Carlos e o zagueiro Anderson Conceição foram os grandes esteios do sistema defensivo, se destacando também na Copa do Brasil. No meio, os cuiabanos contaram bastante com o trabalho de Rafael Gava e Elvis na ligação, além de Auremir na proteção. Já na frente, os gols de Jenison e Elton fizeram a diferença especialmente nesta reta final. Merecem menção também jogadores como Ednei, Romário, Felipe Ferreira, Maxwell, Marcinho e Felipe Marques. É um elenco de média de idade elevada e com vários jogadores rodados nas divisões de acesso, que se valeu da experiência em diferentes momentos.

O passo à Série A vale ainda mais para o Cuiabá ganhar a torcida no Mato Grosso e fincar suas raízes. Talvez leve um tempo a mais para ver os portões abertos no Brasileirão, mas será bacana acompanhar a mobilização nas arquibancadas da Arena Pantanal – um estádio visto como potencial elefante branco da Copa de 2014. Os direitos de TV poderão contribuir à montagem de uma equipe mais renomada para a primeira divisão. No entanto, é importante que o Dourado não perca de vista seu objetivo, mantendo os pés no chão – algo que se nota desde os tempos de Série C. Apesar do crescimento rápido, não é um time afeito a megalomanias. Tanto é que a Segundona já permitiu melhorias como a construção de uma nova academia, a melhora da análise de desempenho, o investimento no departamento médico e a contratação de nutricionistas. A primeira divisão amplia o horizonte nessa modernização, em diferentes frentes.

A partir da conquista desta sexta, o Cuiabá pode se tornar menos dependente de seu mecenato, atraindo outras receitas também de patrocinadores locais, e deve continuar investindo em sua estrutura para firmar suas bases. Independentemente de ser ligado a empresários, o que possibilitou o crescimento recente, o Dourado tem ótimos elementos ao seu redor para se tornar um projeto realmente sustentável – como apontou o amigo Ubiratan Leal, em seu canal no YouTube, há alguns meses. A aparição na Série A serve como passo maior, e o futebol mato-grossense como um todo se beneficia disso. A promoção dos cuiabanos é ótima para ampliar o investimento no esporte em áreas diferentes do país.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo