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Numa Série B inesquecível, o acesso emocionante do Avaí fechou a competição com chave de ouro

Avaí conseguiu uma vitória dramática sobre o Sampaio, para se juntar a Botafogo, Coritiba e Goiás

A Série B teve o desfecho emocionante que merecia, depois de uma das melhores edições de todos os tempos. E o último prêmio ficou com o Avaí, que selou o quarto acesso desta temporada com um gol aos 44 do segundo tempo. A vitória tardia sobre o Sampaio Corrêa por 2 a 1 não apenas consumou a reviravolta no fim da última rodada da Segundona, como também promoveu uma das cenas mais insanas deste retorno do público aos estádios brasileiros. Por mais que celebrar a promoção não seja exatamente uma novidade para o Leão da Ilha, uma multidão invadiu o gramado e ofereceu um grand finale à inesquecível Série B de 2021.

Se o Avaí chegou a ficar 30 anos longe da elite do Brasileirão, de 1979 a 2009, os últimos sete anos guardaram uma montanha-russa aos catarinenses. O Leão da Ilha celebrou o acesso pela quarta vez desde 2014, por mais que o clube não venha conseguindo escapar do descenso assim que retorna à primeira divisão nacional. De qualquer maneira, os elementos ao redor da tarde deste domingo acabaram tornando esta comemoração com um sabor especial aos avaianos.

A campanha do Avaí na Série B começou mal, com o time frequentando a zona de rebaixamento nas três primeiras rodadas. No entanto, a guinada dos catarinenses não demorou e o time só perderia mais dois jogos no restante do primeiro turno. Consolidou-se na briga pelo G-4. Um início de segundo turno ruim voltou a frear os avaianos, mas a recuperação de novo não tardou e a presença na zona do acesso foi uma constante nesta reta final. Nas 11 últimas rodadas, o Leão da Ilha só esteve fora dos quatro primeiros na antepenúltima, quando a goleada sofrida contra o Guarani parecia botar em xeque as esperanças da torcida. Porém, a vitória sobre o Náutico na penúltima rodada recolocou o time na zona verde para o último jogo.

O Avaí dependia apenas de si contra o Sampaio Corrêa, dentro da Ressacada. O problema é que não dava para se descuidar, já que outros três times vinham logo atrás ainda sonhando com o acesso. Um ponto atrás, o CRB pegava fora de casa o Operário Ferroviário. O CSA tinha o compromisso mais tranquilo contra o lanterna Brasil de Pelotas no Trapichão. Já o Guarani apostava suas últimas fichas contra o campeão Botafogo no Rio de Janeiro. Todos com chances, mas não necessariamente com as mesmas facilidades.

O Operário Ferroviário logo estragou o sonho do CRB no Paraná. O CSA também não demorou a abrir sua goleada contra o Brasil de Pelotas. Mas o momento mais esperado pela concorrência veio aos 37 minutos, quando Ciel abriu o placar para o Sampaio na Ressacada. Neste momento, o acesso caía no colo do CSA, que levaria a melhor até com o empate dos catarinenses, por terem saldo de gols superior. No intervalo, a briga se restringia aos dois adversários azuis – apesar da vitória parcial do Guarani sobre o Botafogo, que não era suficiente para o Bugre superar os alagoanos no número de vitórias.

Ao passo que os gols do CSA saíam, o drama do Avaí aumentava. A pressão demorou a dar resultado na Ressacada. E a sensação de que não era o dia do Leão se reforçou aos 29, quando Edílson perdeu um pênalti diante de Luiz Daniel. Porém, uma invasão da área permitiu que se reparasse o erro e Valdívia assumiu a cobrança para deixar tudo igual. A partir de então, os céus começavam a se abrir, também com a expulsão de Watson por reclamação entre os maranhenses. Alemão ainda testou o coração de sua torcida, ao carimbar a trave. Até que, aos 44, Renato marcasse o gol do acesso. A explosão, porém, dependeria dos longos acréscimos que ainda viram o goleiro Glédson salvar os avaianos.

O apito final na Ressacada desencadeou uma alegria difícil de segurar. E o torcedor do Avaí tinha razão para tamanha empolgação, depois de tantas provações vividas neste domingo. Era hora de carregar os heróis nos braços e criar novas esperanças de dias melhores do Leão na Série A, por mais que a missão não se prove tão fácil ao clube. A maneira como o novo acesso veio, de qualquer forma, parece renovar a imagem ao redor dos catarinenses e dar um impulso para a retomada na elite.

Claudinei Oliveira consolida seu nome como um dos maiores técnicos da história do Avaí. O treinador já tinha se consagrado na conquista do acesso em 2016, com uma grande arrancada, e retornou para repetir o feito em 2021 – algo que Geninho tinha conseguido em 2014 e 2018. Resistiu no cargo, mesmo recebendo muita pressão ao longo do ano. Dos quatro clubes que conquistaram o acesso, só o Leão da Ilha e o Coritiba mantiveram seu comandante durante as 38 rodadas, com Claudinei ainda mais antigo que Gustavo Morínigo no posto.

Já em campo, outro símbolo é o zagueiro Betão. O capitão participou da subida em 2016 e também em 2018. É outro que se torna um pouco maior dentro da galeria de ídolos avaianos. A experiência, aliás, preponderou no elenco do Avaí. Nomes como Glédson, Valdívia, Copete, Edílson, Diego Renan e Bruno Silva recheiam a lista de medalhões – sem contar os que participaram pouco, como Jadson e Júnior Dutra. Ainda assim, os catarinenses também se valeram de heróis menos conhecidos, como o centroavante Getúlio e o meia Renato, em mescla que permitiu a Claudinei Oliveira montar uma equipe competitiva dentro do G-4. Cumpriram a missão, assim como tinham feito Botafogo, Coritiba e Goiás nas rodadas anteriores.

A alegria do Avaí, de maneira distinta, seria compartilhada pelo Londrina nesta rodada final. O Tubarão foi o grande sobrevivente entre os três times que corriam risco de cair. Os paranaenses receberam o Vasco no Estádio do Café e aproveitaram a crise cruzmaltina para emplacar uma elástica vitória por 3 a 0. Pior para o Remo, que só empatou com o Confiança em Belém e foi rebaixado diante de sua torcida. O Vitória, outro ainda com chances matemáticas, sucumbiu melancolicamente com a derrota para o Vila Nova no Barradão. Antes, também tinham caído Brasil de Pelotas e o próprio Confiança.

E se essa Série B acaba marcada pelos chamados “grandes”, com o insucesso de Vasco e Cruzeiro na tentativa de subir, ela carrega bem mais histórias positivas. Foi uma edição de bons jogos, doses cavalares de emoção e boas lembranças, ao menos pontuais, para várias torcidas. A imprevisibilidade e o nivelamento, que geralmente são um grande trunfo na Segundona, em 2021 ofereceram um prato cheio a quem ama futebol.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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