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Kaká quer o que todos queremos: que o futebol brasileiro se reestruture

É preciso mudar o futebol brasileiro. Assim pensa Kaká, que voltou ao São Paulo e foi apresentado neste domingo. A passagem do meia pelo Morumbi será breve, só até dezembro. Mas o seu primeiro dia oficialmente como jogador do São Paulo foi de um jogador maduro, que, aos 32 anos, sabe que pode contribuir não só em campo, mas fora dele. Ele parece consciente do seu papel, da sua importância e como ele pode influenciar coisas maiores.

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“O futebol brasileiro precisa de algumas mudanças, como o calendário. O Brasil continua formando grandes jogadores, o Brasil continua com seus talentos”, disse. “Organizar o futebol brasileiro é uma forma de preservar esse talento”, continuou. “O futebol brasileiro precisa de organização, calendário. Lá na Europa, o técnico precisa ser formado, aqui não”, afirmou Kaká. “Acho que o grande modelo é o futebol alemão, que está aí em mais uma semifinal de Copa do Mundo”, declarou o jogador.

Kaká disse que tem conversado com os integrantes do Bom Senso, incluindo o capitão são-paulino, Rogério Ceni. Ainda afirma que precisa se interar exatamente da situação, mas do que ele sabe, está de acordo com o movimento. “A princípio, eu acho uma ideia válida. Não é só um movimento pelos jogadores, é pelos torcedores, patrocinadores, pela TV, por todos que estão envolvidos com o futebol. É pelo espetáculo”, disse o meia.

O calendário fará o Campeonato Brasileiro ser retomado três dias depois da final a Copa do Mundo, no dia 16 de julho. Será só a 10ª rodada, o que quer dizer que há 28 rodadas a serem disputadas em pouco menos de cinco meses. O ritmo será forte, com períodos de muitos jogos.  Em agosto, por exemplo, seis rodadas serão disputadas, com jogos nos meios de semana. Em setembro serão sete jogos no mês. Serão novamente seis jogos em outubro, seis em novembro e um jogo em dezembro, a última rodada.

Quando Kaká diz que o calendário precisa ser mudado é justamente para evitar que isso aconteça. Tantos jogos em tão pouco tempo faz com que a qualidade do espetáculo diminua. Os jogadores rendem menos tecnicamente, os times não conseguem ter um desempenho tão alto porque perdem jogadores, se desgastam muito com viagens e não conseguem treinar variações. Claro que há o problema dos técnicos brasileiros, mas esse é um problema menor quando se compara com o calendário. E no seu primeiro dia como jogador do São Paulo, já criticou essa questão.

Kaká pode ajudar a dar ainda mais força e mais visibilidade para o Bom Senso, que precisa também dar mais as caras para enfrentar as questões mais duras. Por exemplo, os horários dos jogos, adequados à TV, mas não ao torcedor. O Bom Senso precisa cobrar também os clubes, que pouco fazem para se organizar e pedir por mudanças na organização dos campeonatos que participam. Falta cobrar que os clubes tenham senso de coletividade, que se unam para que o campeonato seja melhor. Podem, juntos, fazer dos estaduais um campeonato mais curto e atrativo e o Brasileiro mais bem planejado, espaçado durante o ano, respeitando as datas de jogos das seleções. Podem cobrar que os clubes se unam para acabar com os problemas que há tanto tempo atrapalham a Libertadores, essencialmente as questões organizacionais, mas também a questão da premiação. O Campeonato Paulista não pode dar premiação melhor que a Libertadores. Não faz nenhum sentido. Só os clubes, unidos, podem começar a mudar isso. E alguém como Kaká dá visibilidade não só nacional, mas internacional ao que os jogadores buscam melhorar.

Kaká é saudado pela torcida do São Paulo (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)
Kaká é saudado pela torcida do São Paulo (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)
Mas e em campo?

Ficou claro que Kaká é um jogador muito maduro pelas suas palavras, ponderadas e bem escolhidas de alguém que pensa o esporte além das suas funções. Mas Kaká falou sobre o que esperar dele dentro das quatro linhas. “O torcedor do São Paulo pode esperar o Kaká do Milan na última temporada. Tive uma boa temporada e fui um dos artilheiros do time”, disse Kaká.

Na última temporada, Kaká jogou 36 vezes, marcou nove gols e fez cinco assistências. Em sua grande maioria, 21 jogos, atuou pelo centro no 4-2-3-1 que o Milan jogou em grande parte dos seus jogos. Também atuou como atacante centralizado (cinco vezes), pelo lado esquerdo do meio-campo (quatro vezes) e pelo lado esquerdo do ataque (três vezes). É um jogador versátil, que consegue fazer funções diferentes.

Veja todos os gols de Kaká na temporada 2013/14:

No time do São Paulo, parece mais provável que jogue pelo lado esquerdo da linha de três no 4-2-3-1, com Ganso centralizado, Luís Fabiano no ataque e uma incógnita no lado direito, com Pato e Alan Kardec disputando uma vaga. Osvaldo, assim, iria para o banco.

O Kaká atual não é mais o jogador que foi melhor do mundo em 2007 e isso é evidente. O meia, porém, ganhou outras qualidades. “Estou mais maduro e mais experiente em campo. Tenho mais visão de jogo. Tenho mais sabedoria para escolher as jogadas. Quando mais jovem, ia em todas, forçava mais o jogo e foi ótimo, mas hoje eu sei escolher quais jogadas apostar mais”, analisou.

Se quando deixou o São Paulo a sua característica mais marcante era a velocidade e força das suas arrancadas, aos 32 anos, mais experiente, seu estilo mudou. É um jogador de passes-chave, de chutes de longa distância, tão característicos, as bolas enfiadas, a cobrança de faltas para a área e a finalização. Por outro lado, Kaká contribui pouco defensivamente para o time, o que precisará ser compensado, talvez, por Alan Kardec, um jogador que pode atuar pelo lado direito e se esforçar na marcação pelo time.

Também é possível que Muricy mude a formação de meio-campo. Com a volta de Rafael Tolói, o técnico deve colocar Rodrigo Caio no meio-campo no lugar de Maicon e reforçar a marcação, dando mais força para o setor que deve sofrer mais com tantos jogadores de frente.

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E olhando para o que fez Kaká na temporada, ele foi perguntado se não poderia estar na seleção para dar mais experiência ao time. Kaká mostrou bastante tranquilidade e mostrou que Copa não é um assunto que o incomoda. “Não foi uma frustração não ir para a Copa porque eu fiz tudo que eu podia para estar lá, desde a escolha de sair do Real Madrid e ir para o Milan para poder jogar mais, ter continuidade, jogar mais, e foi o que aconteceu”, explicou Kaká.  “É difícil saber se faria diferença. Eu me esforcei para estar lá, mas não deu, o técnico teve as opções dele e agora estou na torcida pelo time”, contou Kaká.

Kaká em entrevista na sua apresentação ao São Paulo (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)
Kaká em entrevista na sua apresentação ao São Paulo (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)

O futuro é a MLS, e é um futuro próximo. Em janeiro ele deve se apresentar ao Orlando City. A palavra deve é empregada aqui porque o próprio jogador e o presidente do São Paulo, Carlos Miguel Aidar, deixaram no ar a possibilidade de uma extensão do contrato caso, por exemplo, o time se classifique à Libertadores. Mas isso, segundo o jogador e o dirigente, é algo que só será pensado depois. O acordo, a princípio, é só mesmo até dezembro.

Na MLS, Kaká encontrará David Villa, espanhol que deixou o Atlético de Madrid e jogará pelo New York City em 2015, depois de um período de empréstimo ao Melbourne City até o fim da temporada. Frank Lampard, que deixou o Chelsea, é outro que pode chegar à MLS para o mesmo time de Villa. Ignazio Piatti, destaque do San Lorenzo, já acertou a sua transferência para o Vancouver Whitecaps após o término da campanha do time argentino na Libertadores. Kaká acredita que o interesse do público e dos jogadores pela liga americana só aumentará.

“Sempre preservei por construir coisas a longo prazo, relações muito longas. Minha escolha de ir para os Estados Unidos também é assim. Passei por três clubes de muita tradição e agora vou jogar em um clube que vai estrear na Liga. É uma coisa nova, uma liga em desenvolvimento. Espero ajudar sendo embaixador da liga americana. Não estou indo para encerrar minha carreira. A parte financeira nunca foi a prioridade”, contou. “Entre cinco a 10 anos, acredito que a MLS será uma das grandes ligas do mundo”, disse ainda o jogador.

A estreia pelo São Paulo ainda não tem data. Ele disse que está treinando há uma semana e nos últimos dois dias no São Paulo. O jogo do dia 19 de julho, um sábado, é no Morumbi e pode marcar a volta do jogador em campo, mas ainda é incerto. Ele mostrou muita vontade de voltar ao São Paulo e a torcida o recepcionou com muita festa, gritando seu nome. O status de ídolo de ele já tem. A postura e a maturidade mostram que ele tem muito a contribuir em campo e fora dele.

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Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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