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Indicação de Pepa, passado como meia e apelido curioso: conheça João Marcelo, o ‘Nelson’ do Cruzeiro

Em entrevista exclusiva, o zagueiro revela bastidores da chegada ao clube e garante que 'cara de mau é só em campo'

Titular absoluto, querido pela torcida e, agora, de contrato renovado até 2028: o zagueiro João Marcelo vive grande momento no Cruzeiro, e tudo isso com apenas 23 anos – ainda que não possa parecer, pelo futebol de alto nível praticado no ano de 2024.

João, que começou sua carreira no Boavista-RJ e passou pelas categorias de base do Grêmio, antes de se transferir para o Porto, de Portugal, conversou com exclusividade com a Trivela sobre sua trajetória, dias atuais e planos para o futuro.

João Marcelo é carioca de Rocha Miranda, mas seu jeito contido pode muito se confundir com o de um clássico mineiro, impressão que cai apenas quando ele puxa o “xis” do seu sotaque carioca.

E no Cruzeiro, o zagueiro “comeu pelas beiradas” até conseguir seu espaço, mostrando nova característica atribuída ao estado onde viverá pelos próximos quatro anos, pelo menos.

Desde que chegou a Belo Horizonte, no início de agosto de 2023, o zagueiro vive com sua mãe e sua noiva, que também o acompanharam em Portugal, solução encontrada para manter a família perto.

Segundo João, todos estão gostando muito da capital mineira, onde estão bem adaptados.

O começo de tudo

A família, inclusive, está presente na carreira de João Marcelo desde antes mesmo dele ter uma carreira de fato. O camisa 43 contou que o futebol sempre esteve em sua vida, visto que desde novo seu pai o incentivou a seguir o caminho da bola.

— Minha relação com o futebol começou desde que nasci, muito por conta do meu pai. Com dois anos e meio ele já me colocou na primeira escolinha, e dali, eu comecei com o futebol e nunca mais parei, me apaixonei também.

A trajetória de João Marcelo na base

  • Aos nove anos de idade, foi para a base do Fluminense, onde ficou cerca de cinco anos;
  • De lá, entre 2014 e 2015, seguiu para o Boavista-RJ, onde chegou a jogar no profissional;
  • Em 2019, foi emprestado para o Grêmio, onde jogou nos times sub-20 e sub-23.

João nem sempre foi um zagueiro, algo que pode ser notado pelo seu estilo de jogo técnico, de bons passes — o jogador tem duas assistências na temporada — e poucas faltas. O atleta chegou a jogar de volante com Fernando Seabra em 2023. Segundo ele, pode fazer essa função sem muitos problemas.

Já joguei muito de volante e até de meia. Joguei bastante futsal em uma época na minha vida, então acho que facilita muito no campo. Eu consigo e gosto de jogar como volante. Me sinto bem. Se precisar eu consigo fazer — revelou João Marcelo.

Após a passagem pelo Grêmio, João Marcelo assinou com o Tombense, clube do interior de Minas Gerais, e após alguns jogos defendendo o Carcará, foi procurado pelo Porto, de Portugal. O clube buscava um zagueiro para seu time B e viu no jovem jogador uma promessa para o futuro.

— Depois de um jogo contra o América-MG, onde fui bem, no Independência, que fiquei sabendo do interesse deles (Porto). A gente conversou, foi tudo muito rápido, eles estavam precisando, eu tinha 20 anos, uma idade tranquila, porque o time B é mais sub-23. No Porto B, depois de um ano e meio treinando, jogando, eu subi para o time principal, onde fiquei também por um ano e meio — explanou João.

A carreira de João Marcelo

Período Clube Jogos
2019 Boavista (RJ) 1
2019 Grêmio (sub-20 e sub-23) 9
2020 Tombense 2
2020 a 2023 Porto e Porto B 83
2023 a 2024 Cruzeiro 24

Fonte: OGol

Pepa indicou João Marcelo ao Cruzeiro

João Marcelo contou que sua chegada ao clube foi viabilizada pela atuação de um nome que apesar do pouco tempo em Belo Horizonte adquiriu o respeito de parte da torcida cruzeirense: o treinador português Pepa.

A busca por mais tempo de jogo incentivou o zagueiro a abandonar a Europa e retornar ao seu país natal.

— No meio do ano passado recebi a informação de que o Cruzeiro tinha interesse, era o Pepa o treinador, e por ser português me conhecia de lá, já tinha ouvido falar bem de mim lá — conta João Marcelo.

— Eu só tinha feito três jogos pelo time principal do Porto, estava buscando mais minutos, tem que estar sempre jogando, e acabou sendo uma coisa boa para mim e para o Porto, porque eu não estava jogando lá. Na época foi uma indicação do Pepa — contou o zagueiro.

Início de poucas oportunidades

Apesar da indicação de Pepa, João Marcelo pouco conseguiu atuar com o treinador. O português foi demitido menos de um mês após a chegada do zagueiro, que disputou apenas meia partida sob as ordens do português.

Foi um período difícil para o camisa 43 na Raposa, já que ele pouco jogou. Foram quase três meses sem atuar. Ainda assim, João manteve a serenidade para aproveitar a oportunidade quando esta apareceu.

Não digo que foi um período frustrante, mas foi meio complicado. Eu estava buscando minutos, jogar e eu não consegui isso aqui de cara.

Mas sempre mantive a humildade, pés no chão, trabalhei todos os dias dando o meu máximo, porque eu sabia que uma hora as oportunidades iam aparecer, como apareceram e aos poucos eu ia ganhar a confiança dos treinadores, torcida. Graças a Deus foi o que eu consegui e agora tenho essa sequência boa. Espero manter por mais tempo — revelou João Marcelo.

Apesar do cenário então desanimador, João afirmou que não temeu por sua continuidade no Cruzeiro.

— Estava muito cedo, ainda ia começar esse ano (2024) do zero, eu sabia que esse ano seria uma nova oportunidade. Começar o ano aqui é uma coisa, chegar no meio, como eu cheguei, é mais complicado, o time já está formado e tudo mais.

— Ano passado também a defesa estava bem, fomos o time que menos tomou gol no campeonato, então eu tive paciência e humildade, porque sabia que a oportunidade iria chegaria e eu teria que estar preparado para aproveitar — relembra o defensor.

João Marcelo passou boa parte dos seus primeiros meses no Cruzeiro apenas treinando, mas não desanimou
João Marcelo passou boa parte dos seus primeiros meses no Cruzeiro apenas treinando, mas não desanimou – Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro

Permanência no Cruzeiro

O Cruzeiro anunciou, na última sexta-feira (24), a aquisição em definitivo de João Marcelo.

O jovem defensor, titular absoluto da equipe, estava emprestado pelo Porto até o final de junho, mas a Raposa se adiantou e garantiu a permanência, comprando o atleta, que assinou contrato até dezembro de 2028. João deu detalhes de como ocorreu o processo.

— Já vinha desde a outra gestão (o interesse do Cruzeiro na aquisição), eu fiquei sabendo que eles queriam me comprar, mas futebol é aquilo né?! Nunca é certo, então não deixei isso me abalar, deixei com meu empresário e com a diretoria e fiquei mais focado no campo. Acabou que trocou a gestão e ela manteve o interesse, mas deixei com eles e segui focado para continuar indo bem e foi o que aconteceu — explicou.

Apesar do sucesso em 2024, o zagueiro viveu momentos de oscilação entre o time titular e o reserva.

Mesmo fazendo boas partidas, João Marcelo chegou a ser preterido, tanto por Nico Larcamón, quanto por Fernando Seabra, mas novamente não deixou que isso o afetasse psicologicamente, mostrando fora de campo a mesma tranquilidade que esbanja dentro dele.

— Foi mais ou menos como no ano passado. Eu sabia que estava bem, que tinha ido bem, correspondido à altura, então eu sabia que uma hora a oportunidade ia vir mesmo eu indo para o banco.

Se eu continuasse treinando e jogando da forma que vinha uma hora iam surgir mais oportunidades e eu estaria preparado. Custou um pouquinho, mas a oportunidade veio e consegui ter essa sequência boa — contou o zagueiro.

União do grupo do Cruzeiro

Nos conteúdos produzidos pelo departamento de comunicação e marketing do Cruzeiro é possível ver João Marcelo tendo uma boa relação com seus companheiros e, apesar do jeito mais tímido, ser bem entrosado nas brincadeiras do grupo. Ele contou o que mais gosta dentro do universo do clube.

— Estou me sentindo bem, muito feliz aqui, minha família também, quem está aqui comigo está bem adaptado. Eu acho que o principal ponto aqui é a união do grupo. Todo mundo se dá bem, não tem vaidade por parte de ninguém, qualquer função do clube, atleta, todos se dão bem e isso deixa o clima mais leve. Quem quer que chegue é bem recebido — exaltou João Marcelo.

Parceria com Zé Ivaldo, o ”casca de bala”, e apelido “Nelson”

Acompanhando o dia a dia do Cruzeiro, também é fácil notar o entrosamento dentro e fora de campo da dupla de zaga João Marcelo e Zé Ivaldo.

Apesar das diferentes personalidades, “Tico e Teco”, como são carinhosamente chamados pelos companheiros, se dão muito bem.

O camisa 5 já publicou uma foto junto do 43 chamando-o de “casca de bala”, em referência a música que faz sucesso pelo Brasil. Ele também falou sobre a fama de “cara de mau”, utilizada, inclusive, no anúncio de sua renovação com o clube, e garantiu que isso fica somente dentro de campo.

Zé Ivaldo e João Marcelo se dão bem dentro e fora de campo
Zé Ivaldo e João Marcelo se dão bem dentro e fora de campo – Reprodução/Instagram

— Eu sou um pouco mais quieto mesmo, mas na resenha eu brinco também, sorrio também. Parece que não, mas eu sorrio — disse, entre sorrisos, para não deixar dúvidas. E claro, o defensor já vinha esbanjando simpatia durante a entrevista — No campo é um pouco mais sério, tem que ser mais sério — acrescentou.

Sobre Zé Ivaldo, João Marcelo elogiou.

— Eu tenho uma relação muito boa com o Zé não só dentro de campo, mas fora também, a gente está sempre junto. Ele é um pouco mais brincalhão, extrovertido, eu sou mais contido, mas a gente está sempre brincando, andando para cima e para baixo e isso facilita dentro de campo, o entrosamento — afirmou.

João Marcelo também explicou o apelido “Nelson”, como é constantemente chamado por seus companheiros, algo que intriga o núcleo mais investigativo da torcida cruzeirense.

— Foi o Paulo Vitor (ponta ex-cruzeiro) que me deu esse apelido. Esse meu jeito de ser um pouco mais calado e tal fazia ele falar que eu não tinha 23 anos, que era mentira, e na época eu fiz um cavanhaque fechado e ele falou que eu fiquei com mais cara de velho ainda.

Aí ele passou a me chamar de Nelson, falando que era nome de gente velha e ficou Nelson, agora todo mundo me chama de Nelson aqui dentro — contou “Nelson”, entre risos.

Sonhos e agradecimentos

Por fim, João Marcelo compartilhou seus sonhos com os leitores da Trivela. Segundo ele, o foco é ganhar títulos com o Cruzeiro e chegar até a Seleção Brasileira. E, futuramente, pensa em um retorno ao futebol europeu.

— Meu objetivo é o aqui e agora. Focar no Cruzeiro, fazer história aqui dentro, foi um clube que eu me identifiquei muito. Desde que eu cheguei aqui a torcida me abraçou, me apoiou, vejo as mensagens também. É uma torcida para com quem eu tenho um carinho enorme, apesar do pouco tempo. Quero ganhar títulos aqui. E a longo prazo Seleção Brasileira e, para frente, voltar à Europa, mas hoje minha cabeça está aqui — finalizou o zagueiro do Cruzeiro.

Foto de Maic Costa

Maic Costa

Maic Costa nasceu em Ipatinga, mas se radicou na Região dos Inconfidentes mineiros. Formado em Jornalismo na UFOP, em 2019, passou por Estado de Minas, Superesportes, Esporte News Mundo, Food Service News e Mais Minas. Atualmente, é setorista do Cruzeiro na Trivela.
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